Crítica | Do Inferno (2001)

DO INFERNO

estrelas 4

Um dia os homens olharão para a história e dirão que eu gerei o século XX.

E de fato olharam. De acordo com registros históricos, a tal citação que abre esta crítica foi cunhada por Jack, O Estripador, um dos casos mais misteriosos da história da humanidade. O serial killer, figura que ganhou a alcunha de herói na pós-modernidade, ocupou espaço no cinema, na televisão e nas demais manifestações narrativas disponíveis. Dexter e Hannibal, por exemplo, são alguns dos casos emblemáticos.

Em Personagens Psicóticos no Palco, publicado em 1942, Freud aponta que o herói se presta a identificação por parte do público e geralmente o público se identifica com essa figura. Essa afirmação coaduna com a identificação do espectador com os assassinos seriais. Veja o caso de Hannibal: o personagem tornou-se objeto de culto na memória do cinema recente, mesmo diante de tantas atrocidades. Jack, O Estripador, a mesma coisa. Talvez pela falta de um desfecho, o clima de mistério em torno da sua existência é algo que mexe constantemente com o imaginário popular, e por sua vez, com a produção artística.

No filme, o assassino é retratado de acordo como “reza a sua lenda”. Ele possui o perfil psicanalítico “missionário”, ou seja, só matava prostitutas, tendo em mira, livrar o mundo daquilo que considerava indigno e imoral. Era “organizado”, pois os seus crimes eram realizados com inteligência e planejamento. Sempre deixava “assinatura”, pois as mutilações e órgãos retirados do corpo buscavam uma marca autoral, longe do lugar comum.

Dirigido pelos irmãos Hughes, Do Inferno estreou em 2001 e trouxe à tona uma poça de mistério nem um pouco rasa. A trama, inspirada em uma graphic novel roteirizada por Alan Moore e ilustrada por Eddie Campbell, começa em 1888, na Inglaterra. Um inspetor dotado de poderes mediúnicos inicia o processo de investigação dos crimes “assinados” por Jack, O Estripador. Fredericl Abberline (o sempre ótimo Johnny Depp) adentra numa teia envolvendo obsessão, maçonaria, a Família Real e corrupção, tudo isso, enquanto tenta descobrir quem estaria por detrás dos crimes que obedeciam uma espécie de ritual.

Ele é um homem que perdeu a mulher e os filhos. Com esse aspecto “abandonado”, Abberline trabalha ao lado do sargento Goldley (Robbie Coltrane) em busca de proteção para as meninas do Withechapel, entre elas, Mary Kelly (Heather Graham), Kate Eddowes (Lesley Sharp), Liz Stride (Susan Lynch), Dark Annie Chapman (Katrin Cartilidge) e Polly (Annabelle Apsion). Elas são moças que precisam se prostituir para viver e são hostilizadas constantemente por gangues locais e pela “sombra” de Jack, O Estripador, figura lendária que as mata com precisão e ameaçam a sobrevivência das donas da “imoralidade” do local.

O roteiro, assinado numa parceria entre Rafael Iglesias e Terry Hayes, alcança um nível otimista, pecando apenas pela história de amor mal desenvolvida entre Abberline e Mary Kelly.  Há algo no ar entre os personagens, como se precisassem de mais desenvolvimento. A direção de fotografia foi realizada por Peter Deming, o mesmo de Estrada Perdida. Resultado? Um delírio visual.

Outro aspecto técnico que merece destaque é a montagem eficiente, com cortes cheios de estilo próprio entre uma passagem e outra. Ao utilizar as ruas de Praga, o design de produção entrega uma das melhores reconstituições de época da história do cinema recente. A recriação do bairro de Whitechapel, assinada por Marton Childs, responsável pelo design de Shakespeare Apaixonado, é primoroso. Na época, os criadores da graphic novel ficaram espantados com o alcance da qualidade cenográfica do filme.

Com dizia Hitchcock, quanto melhor o vilão, melhor o filme. Ciente do poder de penetração do assassino que tinham em mãos, os realizadores desta produção capricharam. A narrativa é charmosa, sombria, incrivelmente bem desenhada e com um “antagonista” cruel e horripilante. Há um romance mal resolvido, mas não é nada que estrague o produto em sua totalidade, numa história que ainda conta com Marilyn Manson e Trevor Jones no desenvolvimento musical.

Ao longo dos 122 minutos de duração, o espectador estará diante de um suspense elegante e emocionante, mesmo com as suas mínimas falhas narrativas. Acredite, o visual é tão exuberante que consegue suplantar estas carências. Provavelmente não foi a versão definitiva da história de Jack, O Estripador, mas conseguiu honrar o tal legado do “monstro” nunca decifrado pelos investigadores  da época, tampouco da posteridade. Tudo o que temos são teorias e como sabemos, as teorias nem sempre conseguem um lugar ao sol quando devidamente aplicadas, principalmente as conspiratórias como essa, sangrenta, política e muito misteriosa.

Do Inferno (From Hell, EUA – 2001)
Direção: Albert Hughes, Allen Hughes
Roteiro: Rafael Iglesias, Terry Hayes, baseados na graphic novel de Alan Moore e Eddie Campbell.
Elenco: Johnny Depp, Heather Graham, Susan Lynch, Robbie Coltrane, Lesley Sharp, Katrin Cartilidge, Annabelle Apsion
Duração: 122 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.