Crítica | Do Jeito Que Elas Querem

As carreiras de atrizes como Diane Keaton e Jane Fonda abrangem décadas, às vezes nostálgicas, mas sem muitos dos facilitadores (ou complicadores) mundanos que a tecnologia proporcionou ao mundo. A velhice no século XXI é completamente diferente de qualquer outra geração de pessoas idosas que pisaram na Terra, necessitando bastante de uma renovação individual para se manter atual. Além disso, esse exemplos são de artistas que, hoje, acostumaram-se com as referências as suas pessoas serem feitas no passado, como se estivessem mortas ou aposentadas; algo cruel, mas impossível de ser adiado indiscriminadamente. Porém, enquanto em tempos atrás, atrizes costumavam sair de frente das telas em decorrência do envelhecimento, os exemplos citados não são de mulheres que buscaram preservar uma imagem incompatível com a realidade do presente.

Ambas retornam às telas, juntando-se à Mary Steenburgen e Candice Bergen, em uma levíssima comédia, que, em primeira instância, até mesmo se permitia potencializar estragos na nossa forma de olhar para a idade avançada dos outros. Na trama, a escolha de um livro polêmico para ser abordado no ciclo mensal de um clube literário, organizado há anos pelas quatro amigas, promete redefinir as relações amorosas de cada uma delas: uma divorciada, uma solteira, uma viúva e uma casada. Contudo, apesar das quatro personagens possuírem essas especificações, não há muita diferença no desenvolvimento narrativo para cada uma delas. A previsibilidade do roteiro é uma certeza, com sutis divergências no tratamento dado a Sharon, personagem de Bergen. Sendo assim, o que tinha possibilidade para ser uma obra provocativa, não apenas para o público jovem, mas também para o correspondente da idade das atrizes, sente vergonha de sua ambição, tornando-se uma comédia romântica descompromissada.

Todavia, não é como se todas as boas ideias murchassem no meio do caminho. A estrutura geral das comédias românticas permanecesse existindo, ordenadas de quatro maneiras, tão diferentes quanto iguais.  Porém, há certa subversão nesse processo todo, não que ela já não tivesse sido explorada em outros filmes com temáticas parecidas, permitindo a idosas vivenciarem amores de maneira parecida como os jovens vivenciam. No caso de Vivian, interpretada por Jane Fonda, é interessantíssima a abordagem de uma mulher de idade avançada que permanece sexualmente ativa, apesar do longa-metragem nos negar a mostrar isso na forma de imagens, mas na fragilidade da exposição casual. Já Diane Keaton, liderando esse quarteto, encontra um par que, juntos, entrega ao público química, Mitchell (Andy Garcia). No primeiro contato entre os dois, a obra promove um texto consideravelmente afiado, que se perde, ocasionalmente, quando reitera as complicações e as questões abertas com a sugestão do livro; os encontros do clube propriamente dito são bastante repetitivos.

O pior é que a problemática exaltada de tudo isso é exatamente esta, o motivo para tal acontecimento que permite as quatro protagonistas olharem para si mesmas. Cinquenta Tons de Cinza, no final das contas, não é, acima de tudo, uma história de amor, como conclui uma das personagens após ter lido-o completamente, além de sua sequência.  Parece que o argumento quis jogar com o óbvio, com o romance erótico mais popular, embora sem ter ideia alguma de como explorá-lo, a não ser com piadas engraçadinhas, extremamente fáceis de serem pensadas. Como respectiva obra dá margem para que um casamento de anos, sem muita intimidade nos últimos meses, sofra alguma reviravolta permanece sendo uma incógnita. Novamente, das quatro, a trama paralela da personagem de Bergen continua sendo a mais coerente, conectando o atual com o passado de uma maneira destoante das demais, justamente por ser sagaz.

Mas isso é querer procurar profundidade em prato raso. Do Jeito Que Elas Querem, infelizmente, não está muito interessado em complexar esse olhar do velho público perante as atrizes que embalaram suas sessões de cinema do passado. As próprias artistas já estrelaram obras muito mais polêmicas em termos da exploração de uma sexualidade inerente ao ser humano. A velhice, todavia, é uma vertente com peculiaridades a dizer sobre essa questão controversa, podendo ter sido deveras mais diferenciada. No caso, o filme até tenta dialogar com essa pauta, da independência dos idosos, mas, se já basta a péssima intertextualidade com o livro Cinquenta Tons de Cinza, esta conversa também é enfraquecida por uma direção burocrática, que acaba tornando as personagens que interpretam as filhas de Diane, homônima a atriz que a interpreta, sátiras do que elas interpretam, extremamente insuportáveis. A igualdade de seus nomes, entretanto, é a representação do envelhecimento, relacionando-se com uma visão ultrapassada de quem Diane Keaton é para muitos, mesmo com os seus cabelos brancos.

Ademais, do jeito que o filme caminha, o público vai sendo agraciado com comédia pontual, sem qualquer incômodo. O romance vai abalando o coração de umas, a frustração o de outras e os espectadores percebem a si mesmos saboreando um produto comum, mas que tem a participação do Richard Dreyfuss, então deve valer a pena. Por fim, um item é realçado em cena: a tela verde. Bastante perceptível, questiona-se se o resultado do uso tenha sido consequência apenas do barateamento dos custos, além da impossibilidade de produzir algo decente com pouco dinheiro, ou se o diretor Bill Holderman ficou interessado nessa dialética do passado com o presente, exigindo que a tecnologia do presente buscasse representar os panos de fundo cenográficos, como antes eram incorporados nos filmes. Dada uma visão geral, é mais fácil ficarmos com a primeira opção.

Do Jeito Que Elas Querem (Book Club) – EUA, 2018
Direção: Bill Holderman
Roteiro: Bill Holderman, Erin Simms
Elenco: Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen, Mary Steenburgen, Craig T. Nelson, Andy García, Don Johnson, Richard Dreyfuss, Katie Aselton, Alicia Silverstone
Duração: 103 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.