Crítica | Doces Sonhos, Cthulhu: Uma História de Ninar Lovecraftiana, de Jason Ciaramella e Greg Murphy

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Autores do excelente O Fantástico Alfabeto Lovecraft, Jason Ciaramella e Greg Murphy voltaram a explorar o Universo de H. P. com este fofíssimo Doces Sonhos, Cthulhu: Uma História de Ninar Lovecraftiana, lançado originalmente em 2017, três anos depois do primeiro livro. Os autores iniciaram um grande projeto online de criação e venda de pelúcias e outros brinquedos relacionados aos personagens do macabro escritor americano, sempre voltados para o público infantil (mas com aquela caraterística que encanta e atrai a todas as idades). O sucesso da empreitada levou os americanos a tentarem o financiamento do que viria a ser o Doces Sonhos pelo do Kickstarter, angariando uma quantia muito maior do que planejaram no início. E foi assim que esta história de ninar lovecraftiana ganhou vida.

A mesma observação que fiz em O Alfabeto, faço para esta pequena obra. Por se tratar de um livro infantil, não é nada inteligente que o leitor espere um medo à toda prova do volume. Esta não é a proposta dos autores. Trata-se, acima de tudo, de uma história de ninar. E como todas essas histórias, o “fazer dormir” ou “chamar para o sono” é a função principal do texto. Pois bem. Na presente trama, Howard Phillips Lovecraft está se preparando para dormir, lendo um livro em sua casa, na cidade de Providence. Então ele olha pela janela e vê algo que o assusta. Mas é só um amigo pedindo ajuda…

A trama aqui pode ser vista de duas formas — e não é spoiler dizer que a criatura protagonista é o Cthulhu, porque isso já está indicado no título da obra –, uma com o grandão verde indo fisicamente até a casa de Lovecraft para conversar e tentar superar o medo; outra no mundo mental, com as coisas acontecendo telepaticamente. Mesmo em um conto infantil é interessante ver como a linguagem, especialmente na presença de criaturas fantásticas em nossa dimensão, pode ser sugerida e utilizada pelo autor a partir de diferentes premissas. No livro, temos a excelente arte de Greg Murphy que nos diz muito do que está acontecendo. E o contato entre criador e criatura aqui é de uma fofura tremenda.

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Uma visita inesperada…

Um dos interlocutores fala de pesadelos e diz ter medo do escuro, de bichos em baixo da cama ou no corredor casa. Coisa de criança amedrontada. E a proposta funciona muito bem. Lembrem-se: livro infantil! Com uma arte rica, muito atenta à grandeza do visitante noturno, temos um encontro chamativo em todos os aspectos, tanto no conteúdo da conversa (só ouvimos a voz de Lovecraft, por sinal, dando a entender que Cthulhu está se comunicando apenas na mente de seu criador), quanto na fofura dos desenhos, na sugestão dos pesadelos, nos easter-eggs do quarto de Lovecraft e nas cores muitíssimo bem escolhidas pelo artista. Há até uma pequena e bela lição sobre o medo na história:

Todas as criaturas, grandes e pequenas, sentem medo…

O único impasse que encontro em Doces Sonhos, Cthulhu é o processo de “resolução do problema“, mostrando um deslocamento que, do ponto de vista narrativo, não faz muito sentido. Eu li o livro três vezes para ver se era uma visão viciada ou focada em um único ponto, mas não. O drama segue bem por um caminho de exposição dos medos do monstrão fofo e, de repente, há um deslocamento que não se sustenta muito. Não que isso derrube a história de seu alto posto mas, pelo menos para mim, teve algum peso. Uma coisa, porém, é possível afirmar: esta é uma das mais bem pensadas historinhas de terror para criança que eu já vi — e vi poucas assim! –, especialmente com personagens de um Universo tão amedrontador. Assim como o primeiro livro da dupla Ciaramella e Murphy, o livro vale cada centavo. E pensando, bem, não é só para crianças não…

Sweet Dreams Cthulhu: A Lovecraftian Bedtime Book (EUA, junho de 2017)
Autor: Jason Ciaramella
Arte: Greg Murphy
Editor: Tyler James
Publicação original: ComixTribe
25 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.