Crítica | Doctor Who – 10X02: Smile

estrelas 3,5

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Um dos atuais 12 tesouros da Espanha (2017), a Cidade das Artes e das Ciências em Valência foi inaugurada em 1998, sendo classificada como um dos mais icônicos projetos do famoso arquiteto Santiago Calatrava, ao lado de Félix Candela. O lugar foi escolhido como set de filmagem para Smile, segundo episódio da 10ª Temporada de Doctor Who. A trama se passa no planeta Gliese 581D, no século 162. O planeta está prestes a receber centenas e centenas humanos, que estão em estase na nave Erehwon, esperando o momento certo para acordar e tomar conta do “Jardim do Éden”.

O que eles não sabem — sempre tem um mistério não sabido nessas histórias — é que os robozinhos que criaram para terraformar o planeta, interpretaram errado o luto do “Skeleton Team” (a piadinha macabra do roteiro, embora o termo de fato exista, servindo para designar pequenas equipes de organizações humanitárias que permanecem em campo enquanto outros times são preparados para tomar substituí-lo ou são evacuados do local), o que faz com que eles, sem querer, iniciem um massacre de humanos tristes, uma espécie de revisão temática e tecnológica do arco The Happiness Patrol (7º Doutor).

A primeira coisa a ser dita sobre Smile é a soberba qualidade de seu visual. Não só o desenho de produção, o aproveitamento certeiro das locações pelo diretor Lawrence Gough e o uso inteligente da fotografia para nos passar a sensação minimalista e majoritariamente branca, típica desses cenários utópicos com robôs assassinos (lembram-se do ambiente de The Girl Who Waited, com os Handbots?), mas a excelente aplicação de CGI e os detalhes da pós-produção em todos os blocos ganham enorme importância nesse episódio, que parece ter tido a função de impressionar Bill, em sua “verdadeira viagem” de estreia ao lado do Doutor, mas o efeito também serviu para nós, já que não dá para passar incólume pela estética da obra.

O que não acompanha a imagem, infelizmente, é o roteiro. Escrito por Frank Cottrell Boyce, do também textualmente menor e imageticamente impressionante In the Forest of the Night, Smile segue “não mexendo em time que está ganhando” e não arrisca um salto maior na narrativa desse começo de serial, a ponto de a melhor parte do capítulo ser sustentada inteiramente pela dinâmica entre o Doutor e Bill, com Peter Capaldi e Pearl Mackie excelentes em seus papéis. Exceto o ato de abertura, temos praticamente 30 minutos de episódio até aparecer um ator convidado, e a equipe mostrada ali não tem presença dramática relevante, pois quem faz tudo é o Doutor e sua companheira. Talvez pelo número pequeno de figurantes (e notem que Ralf Little, que poderia trazer coisas muito boas para o episódio, é vergonhosamente mal utilizado); talvez porque o enredo dá total atenção ao Doutor e Bill e se esquece dos outros; ou talvez porque a resolução do caso é um Deus Ex Machina; o fato é que os 20 minutos finais de Smile não funcionam como deveria.

Algumas migalhas de temas gerais da temporada, no entanto, já se fazem notar. Em The Pilot, foi introduzida a estrutura de “Era Pertwee” para esta temporada, com Doutor na Terra já há 70 anos, guardando um cofre. Em Smile, isso é delineado por uma fala de Nordole “Mom” para o Doutor, chamando a atenção do Time Lord para um “juramento” feito e para o fato de que ele não deveria deixar a Terra, a não ser que fosse emergência. O que parecia um exílio autoimposto ganha agora um interessante ponto de interrogação.

A relação do Senhor do Tempo com Bill é de pleno cuidado. Mesmo não se lembrando de Clara, o Doutor parece conservar uma atenção especial para quem o acompanha, como se tivesse medo de que algo acontecesse. Isso gera uma interação cômica e ao mesmo tempo carinhosa entre os dois, que se estende para um tipo positivo de “interação professoral” porque o Doutor é, para todos os efeitos, o professor/tutor de Bill. Vejam que quando Cottrell Boyce acerta um momento do roteiro, ele o faz em grande estilo. As cenas em que o Time Lord explica sobre os micro-robôs Vardies e sua interface, os Emojibots, são preciosas. A esses momentos se seguem a construção do plano inicial do Doutor; as referências aos arcos The Ark e The Ark in Space e o ambiente que mescla referências aos filmes Planeta Proibido e No Mundo de 2020, tudo muito bem orquestrado, o que nos faz pensar que se o episódio fosse apenas com o Doutor e Bill, Smile estaria, com certeza, entre os melhores da 10º Temporada.

Sempre objeto de debate, a idade do Doutor é mais uma vez citada aqui. Ele diz para Nardole que “já passou dos 2000 anos“. Se fizermos uma breve passagem do Doutor anterior para o Doutor atual, temos o que se segue. Quando Matt Smith estreou no papel, o personagem tinha pouco mais de 900 anos, que foi a idade estabelecida desde o início da Nova Série. Em The Impossible Astronaut ele já estava com 1103 anos e em A Town Called Mercy, com 1200. Depois dos 900 anos defendendo Trenzalore, em The Time of the Doctor, temos o Doutor com 2100 anos. Daí somamos os 24 de casado com River Song, em Darillium, e os 70 anos na Terra, como professor da Universidade de Exeter (St. Luke’s Campus), e chegamos ao 12º Doutor, nesse momento, beirando os 2200 anos. NOTA: os 4,5 bilhões de anos que ele passa no disco de confissão, em Heaven Sent, só existem de fato para o exterior do disco e para a memória do Doutor. Ele mesmo só viveu aquilo por um dia, uma vez que tudo se resetava a cada vez que ele “morria”.

Smile é uma daqueles “episódios de atores”, com um estonteante trabalho visual, boa direção e roteiro que não consegue fazer uso correto do vilão ou das forças contrárias, a longo prazo. A premissa é boa, mas interrompida em um de seus melhores momentos, e pior, com uma ideia brotada do nada. Contudo, no âmbito de arquitetar a relação entre personagens, o episódio funciona muitíssimo bem. Bill e o Doutor é uma excelente dupla e Nordole é um contraste moral e particularmente interessante, servindo como superego para o Doutor, que agora parece ter encontrado o ânimo e o impulso certo para ignorar um juramento e sair viajando pelo espaço, sem que haja emergências envolvidas. O bom e velho Doutor está de volta. E alguns segredos que o rondam começam a dar sinal de vida.

Doctor Who – 10X02: Smile (Reino Unido, 22 de abril de 2017)
Direção: Lawrence Gough
Roteiro: Frank Cottrell Boyce
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, Kaizer Akhtar, Mina Anwar, Kiran L. Dadlani, Craig Garner, Ralf Little, Kiran Shah, Kalungi Ssebandeke
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.