Crítica | Doctor Who – 10X04: Knock Knock

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estrelas 3,5

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Desde que comecei a escrever críticas, lá pelo pelo belo ano de 2007, uma das coisas que sempre apontei como negativa é algo que, apenas à guisa de análise de possibilidades, acabarei fazendo a seguir. Claro que minha avaliação do episódio não levará essa “falta” em conta, mas eu realmente preciso compartilhar o incômodo com vocês. Então vamos lá. Quando sua série favorita anuncia uma participação especial, você tende a depositar altas esperanças no que virá dessa participação, correto? Principalmente se o convidado for um gigante da dramaturgia em seu país, como, por exemplo, David Suchet, que faz o papel do Landlord aqui em Knock Knock. E o que eu esperava que David Suchet interpretasse? Bem, uma versão do Doutor, como o Dream Lord, de Amy’s Choice. E vejam que eu nem coloquei O Curador ou o Valeyard na lista, dada a complexidade desses personagens. Deveria ser algo simples, que não precisasse de nenhum elemento externo para justificativas e que faria a participação de David Suchet em DW ser inesquecível. Infelizmente, não foi o caso.

Utilizando a mesma locação de Blink — só que do outro lado da casa — e, até que enfim, trazendo algo que parece que fará esta temporada andar para frente (não me entendam errado, eu gostei de todos os episódios até aqui, mas me decepcionei, de uma forma ou de outra, com todos eles), Knock Knock é aquele tipo de capítulo auto-boicotado tecnicamente brilhante, com teorias e sinais de alerta que nos deixam bastante ansiosos pelo que virá, como o fato de Bill chamar o Doutor de avô diversas vezes, novamente trazendo rumores sobre Susan na Temporada, ou outras coisas que não deram certo, como a ideia inicial de fazer com que o jovem Harry fosse neto de Harry Sullivan, companion do 4º Doutor. Percebam a atitude cada vez mais questionável de Steven Moffat nesta temporada, pedindo para cortar todas as grandes referências dos roteiros, como a indicação a River Song na feira do gelo em Thin Ice e uma bela referência à um personagem da Série Clássica aqui.

Tudo em Knock Knock se constrói para que ele seja um grande episódio. A mistura de personagens jovens ao lado do Doutor, a deliciosa naturalidade com que Mike Bartlett escreve os diálogos, o passo mais pessoal na vida de Bill, a temática da casa mal-assombrada, tudo isso ganha representação notável e segue em um bom contexto até a explicação e desfecho do episódio, onde vemos David Suchet ser “rebaixado” a um filhinho com seríssimo Complexo de Édipo (vocês não tem noção de como aquilo me irritou!) e o que poderia ser um drama denso para aquela estranha casa, torna-se, nos 15 minutos finais, uma ordinária aventura que é mescla de fantasia e terror simples demais comparado ao que veio antes. Uma tremenda decepção no contexto do episódio. Agora vamos ao paradoxo disso tudo.

O motor crítico que adoto para análises de séries por episódio é simples: deve fazer sentido para si mesmo (coesão interna, onde o roteiro se sustenta do início ao fim), deve fazer sentido no montante da Temporada (única exceção à regra é o primeiro episódio, que deve dar o tom do serial) e deve fazer sentido para o cânone do show, se estamos falando de séries com mais de uma Temporada. Knock Knock atinge parcialmente todos os níveis, mas tem uma particularidade em relação ao primeiro. Notem que eu coloco a culpa da falha narrativa inteira do episódio nos 15 minutos finais, porque aquela sequência não é coerente com o que tinha sido apresentado até ali. Ela, inclusive, diminui a força do enredo e torna uma ótima abordagem macabra em algo mais barato. Todavia, se isolarmos aqueles 15 minutos finais do restante do episódio… a coisa muda por inteiro. E aí eu devo elogiar a capacidade de Mike Bartlett para criar um elemento passado na vida dos personagens e arrancar, em pouco tempo, um padrão emocionante para a morte de um vilão, com o ápice de entrega de Suchet no papel (separada do episódio, aquela cena é belíssima, realmente de cortar o coração).

A direção de Bill Anderson funciona com excelência e tem um jeito muito particular de criar sensação de medo, ao que parece, em diferentes tamanhos de espaço, se compararmos sua boa exposição nesse mesmo quesito em Thin Ice. Em alguns momentos, a semelhança com o trabalho de Douglas Mackinnon em Flatline (paredes absorvendo pessoas) e o bom trabalho de outros setores técnicos, como a direção de fotografia saturada, explorando bem os tons marrons em uma falsa paleta quente, com luz incandescente e dura; ou da trilha sonora, que cria motivos de terror por si mesma; nos dá a impressão de que estamos fazendo uma viagem por ameaças bizarras do Universo de Doctor Who, sempre com a adição de bons padrões técnicos em histórias que poderiam ser melhor. Se somarmos a brincadeira do Doutor de que “dormir é para tartarugas” (The Talons Of Weng-Chiang) e a aproximação temática da casa assombrada com Night Terrors, essas indicações estéticas parecem não estar sozinhas e acabam tendo seu valor aumentado.

Todo o elenco de Knock Knock está em boa forma, mas deve-se dizer que David Suchet rouba todas as cenas em que aparece e que as interações entre o Doutor e Bill são de um nível de entretenimento gigantesco. Se eu já lamentava e chorava pelo fato de Peter Capaldi se regenerar nesta Temporada, notar que não teremos mais essa dupla em ação aumenta muito a minha dor. Esses dois juntos são simplesmente fantásticos.

Em tempo: depois de Für Elise, de Beethoven e Pop Goes the Weasel ao piano, o Doutor abre e entra no cofre — aqui, foi a primeira vez que eu não gostei de Nardole em um episódio –. Quem será que está lá dentro?

Doctor Who – 10X04: Knock Knock (Reino Unido, 06 de maio de 2017)
Direção: Bill Anderson
Roteiro: Mike Bartlett
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, David Suchet, Sam Benjamin, Mandeep Dhillon, Mariah Gale, Alice Hewkin, Tate Pitchie-Cooper, Ben Presley, Colin Ryan, Bart Suavek
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.