Crítica | Doctor Who – 10X05: Oxygen

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estrelas 4

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Depois de um episódio complicado e divisor de opiniões como Knock Knock, Doctor Who parece ganhar uma lufada de oxigênio (hehehe) nesse arco do Cofre, levando-nos para a Estação Mineradora Chasm Forge, de onde o Doutor recebe um pedido de socorro e vai com Bill e Nardole — servindo como “boa consciência” do Time Lord, com chatices que, ao final do episódio, entendemos o por quê de existirem — mostrar a sua verdadeira face para o Universo. Escrito por Jamie Mathieson, autor solo de Mummy On The Orient Express e Flatline, Oxygen traz um momento denso para o Senhor do Tempo, talvez algo que redefina o tom para todo o restante da temporada.

Em entrevista ao The Fan Show, Mathieson demonstrou preocupação de que este episódio parecesse “político demais” e após o assistirmos, entendemos o ponto do autor. De fato, há uma crítica ferrenha à base mais selvagem do mercado de trabalho e corporativo, onde a vida humana só vale o quanto ela pode produzir, sendo imediatamente descartada após ficar lenta demais ou não oferecer a mesma quantidade de lucro que oferecia antes. De uma maneira ou de outra, esta é uma realidade presente em diversos graus na maioria dos países do mundo, especialmente nos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. A crítica, todavia, tem um princípio particular para o autor, sendo um claro cutucão na atual política trabalhista do Reino Unido (assistam ao filme Eu, Daniel Blake para conhecer um pouco mais deste cenário criticado nas entrelinhas por Mathieson), notadamente em alta nesses tempos de Brexit.

Ao componente social, político e econômico, temos a presença de conteúdos profundos da ficção científica, começando pela linda referência a Star Trek, em uma frase que é o início de uma aula do Doutor sobre “morrer no espaço” (na verdade era para ele falar de rotação de culturas, mas tudo bem) e seguindo com porções de direção, arte, trilha sonora (ou ausência dela) e fotografia observadas em filmes como Alien, o Oitavo Passageiro (1979), Lunar (2009), Gravidade (2013) e até à própria série, no episódio Kill the Moon. Isso faz muita diferença para o capítulo, que assume a liderança de qualidade, coesão e força narrativa na temporada, a meu ver, superando o episódio mais acabadinho até o momento: The Pilot.

Há uma camada sombria pairando sobre a 10ª Temporada. Todos os episódios até aqui tiveram essa faceta próxima ao terror e este é o segundo capítulo a falar diretamente sobre vantagens desumanas advindas de empreendimentos capitalistas (o outro foi Thin Ice), um olhar agudo da série para essas questões sem ser manipuladora ou generalizadora, pois utiliza dos impasses para discutir coisas ainda maiores, com diversos pontos de vista. E lembrem-se que no final do episódio o Doutor conta para Bill o que aconteceu após as reclamações dos funcionários da corporação, falando sobre o fim do sistema e “início do que seria um futuro erro” da humanidade. Sempre os erros da humanidade. Não é sem razão que na temporada mais humanista da era Moffat (hoje entendemos que  foi apenas uma introdução a este padrão) venha com inúmeros elementos macabros. É como se nossa espécie fosse acompanhada por isso em diversos tempos e lugares. Algo curioso e medonho de se pensar.

O destaque de Nardole aqui é muito bem vindo e Matt Lucas manda muito bem no papel. O Doutor e Bill continuam magnânimos e a relação entre os dois chega a um imenso nível emotivo, pois todo o cuidado do Time Lord para proteger Bill acabou colocando-a em risco duas vezes (a construção do medo nesse episódio foi primorosa. Mathieson realmente nos faz acreditar na ameaça real para todos) e terminou cegando-o. O fim de Oxygen é poderoso. Um choque bem-vindo. DW estava precisando disso.

À primeira vista, Oxygen parece um capítulo besta sobre zumbis espaciais. Cheguei a revirar os olhos várias vezes no começo, achando que este seria o caso. Mas não foi. Houve surpresas e caminhos fora do óbvio no texto. Mais adiante, tudo apontava para alguém boicotando os sistemas, mas acabou que não era nada disso. Outra boa surpresa. Mesmo que nem toda a dinâmica de personagens funcione com fluidez, não há más representações de nenhum deles (a cômica e ao mesmo tempo ácida exposição de Dahh-Ren, um homem azul — o ator disse em entrevista que o personagem não é alien, é um humano com genética diferente –, chamando Bill de racista, é gloriosa!), mesmo no final um tantinho anticlimático, antes das cenas na sala do Doutor, na Universidade. Pela primeira vez nessa temporada eu fico imensamente hypeado para o capítulo seguinte. O que será do Doutor?

Doctor Who – 10X05: Oxygen (Reino Unido, 13 de maio de 2017)
Direção: Charlie Palmer
Roteiro: Jamie Mathieson
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, Kieran Bew, Justin Salinger, Peter Caulfield, Mimi Ndiweni, Katie Brayben, Clem So
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.