Crítica | Doctor Who – 10X06: Extremis

Doctor Who Series 10X06 Extremis plano critico

estrelas 5,0

spoilers! Confira todas as críticas para a 10ª Temporada aqui. Confira as críticas para tudo o que temos do Universo de Doctor Who aqui. 

A discussão ética, moral e até emocional do que é “ser bom” sempre foi um tema central para o 12º Doutor. Desde Deep Breath nós o vemos levantar essa questão e constantemente ser assombrado por ela, inclusive caindo em tentação para o lado oposto, pisando em regras milenares, guardando bastante rancor e se vingando, como fez em Hell Bent. Essa variação das ideias do que é ser “um homem bom” ou “um homem mau” ganhou impulso ainda maior na metade final da 9ª Temporada e, neste ano, voltou a ganhar cores, agora na vida de um Doutor que vem amargando perdas (River, Clara, embora ele não se lembre exatamente quem é Clara), e que tem o corpo limitado por um certo período de tempo, algo que não é muito comum de acontecer com ele (lembro-me apenas de Uma Mãozinha Para o Doutor).

Com marcas no corpo e na alma, o Senhor do Tempo se vê nesta fase de sua vida com uma obrigação que lhe trouxe diversos dilemas e, após conhecer Bill, uma dose adicional de culpa. A promessa de guardar o corpo de Missy (que não está morta, como vimos no final de Extremis) se confunde com a vontade de exploração do Universo ao lado de sua companheira.

Aqui também é possível entender mais a função de Nardole, já que a execução da sentença de Missy ocorreu após The Husbands of River Song (na linha do tempo do 12º Doutor) e o Cyborg seguiu o Time Lord a pedido de River. Mesmo que não tenhamos maiores explicações sobre como Nardole se tornou companion, realmente, não fará falta, pois o essencial foi dado aqui.

Steven Moffat embarca na realidade virtual e se baseia nos sensacionais The Tunnel Under the World (que daria toda a base para obras como O Mundo Por Um Fio, O 13º Andar e Matrix) e Simulacron-3 para discutir a “aparência de uma vida real”, tendo nas entrelinhas a consciência do objeto projetado em choque com o “penso, logo existo” de Descartes. A discussão é sempre interessante porque nos faz pensar na existência como algo maior que a aparência e traz à tona escolas inteiras de filosofia que investigaram a razão e a consciência de SER. É neste caldeirão que a Bill da Terra Projetada (Shadow Earth) mergulha, falando que jamais poderia ser um holograma porque ela sentia as coisas, amava, respirava, vivia.

Retornando à série depois dos excelentes The Zygon InvasionThe Zygon Inversion, o diretor australiano Daniel Nettheim usa de sua facilidade em trabalhar com roteiros de narrativa fragmentada para colocar ordem nos três tempos em que Extremis ocorre: o passado e o presente do Doutor na Terra + o presenta na Terra Projetada. A montagem também tem grande mérito aqui, pois consegue plena fluidez entre os espaços, tanto com boas deixas entre lugar e tempo, quanto na administração dos acontecimentos dentro de cada bloco, sem deixar que haja um deles cheio de ação e outro em pleno marasmo. Mesmo quando os personagens se separam, o roteiro continua dando informações sobre essa realidade e nos preparando para uma batalha que, na verdade, ainda está por vir.

Talvez pelo enredo dessa trama, muitos espectadores possam considerar o episódio como um “filler de luxo”, algo que discordo veementemente — para mim, até aqui, é o melhor da temporada –, mas que eu consigo entender de onde vem o pensamento. Notem que toda a trama é uma preparação. Ela nos revela coisas, nos dá as cartas de um problema que já estava em andamento, mas interrompe sua sequência momentos antes da ação para “consertar o problema”. Do meu ponto de vista, foi uma excelente estratégia, porque não encurtou as MAIS DO QUE NECESSÁRIAS explicações e nem deixou elementos basilares desse arco sem contexto introdutório, além de evitar, pelo menos com esses ingredientes em jogo, resoluções abruptas mais à frente.

De nova sonic screwdriver, pegando por um tempo a capacidade de enxergar de suas futuras regenerações (possivelmente gerando algum problema) e fazendo referências a um dos Papas mais odiados da Igreja Católica, Bento IX; além de citações diretas a Grand Theft Auto (Nardole) e Super Mario (Doutor), Extremis problematiza a verdade e a racionalidade, mais uma vez colocando o personagem em uma crise existencial e sentimental justamente no momento em que ele precisava estar mais distante delas. As coisas não andam fáceis para este Time Lord.

Doctor Who – 10X06: Extremis (Reino Unido, 20 de maio de 2017)
Direção: Daniel Nettheim
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, Michelle Gomez, Jennifer Hennessy, Corrado Invernizzi, Joseph Long, Ronke Adekoluejo, Ivanno Jeremiah, Francesco Martino, Alana Maria, Laurent Maurel, Clem So
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.