Crítica | Doctor Who – 10X07: The Pyramid at the End of the World

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estrelas 4

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Sejamos fracos: Doctor Who sempre teve os pezinhos fincados na areia política, desde a mistura com elementos pessoais lá em Marco Polo, ainda na 1ª Temporada da Série Clássica, até outros arcos históricos deste mesmo serial, que fizeram muito mais do que colocar o Doutor nestes cenários icônicos: postularam a respeito de mudanças de pensamento na humanidade e fizeram revisões morais junto de novas formas de olhar o mundo, como em Os Astecas e O Reino do Terror. Desse modo, não é nada estranho perceber que Steven Moffat tenha resolvido produzir roteiros mais assumidamente políticos, desde a 9ª Temporada (e digo “assumidamente” porque DW sempre teve sua veia crítica em evidência; cutucões sociais e até ideológicos sempre estiveram em pauta na série), tendo como maior exemplo em 2015 a dupla obra-prima The Zygon Invasion / The Zygon Inversion.

Nesta 10ª Temporada, vimos críticas a um modelo de exercício do capitalismo — que essencialmente trata o ser humano como uma máquina de trabalho e lucro que deve ser descartada quando não é capaz de dar mais nem uma coisa nem outra — com ápice em Oxygen. Na sequência, voltamos o nosso olhar para uma terrível realidade projetada, um drama político, filosófico e religioso com os melhores ingredientes da literatura de Dan Brown, mostrando um plano de invasão complexo, paciente e muito bem executado, que em Extremis mexeu com o nosso julgamento sobre o que é EXISTIR e aqui em The Pyramid at the End of the World mexe com o nosso EXISTIR EM CRISE, especialmente em uma situação apocalíptica que traz novamente o Doutor como Presidente da Terra (em um cenário que funcionaria muitíssimo melhor com a UNIT envolvida) e o Turmezistão, lá da história dos Zygons.

Novamente, é preciso considerar que este episódio é parte de um arco triplo, mas mesmo assim, cumpre aquilo que deveria: mostra de maneira quase sólida o Doutor agindo em uma situação onde ele quer ter controle (e posa de feliz e sorridente de Time Lord resolvendo tudo), mas se encontra fisicamente limitado. Embora a visão dele tenha retornado aqui — parcialmente, será? — o roteiro de Harness e Moffat segue com uma ameaça estratégica dos antagonistas e coloca o Doutor em ambiente de contágio, lembrando um certo filme de Steven Soderbergh e novamente utilizando uma montagem em continuidade. Uma parte do capítulo se passa no país fictício do Universo de Doctor Who e outra em um laboratório onde Erica (a simpática Rachel Denning) ajuda o Doutor a controlar a ameaça bioquímica. Por se tratar de uma narrativa ainda não terminada, é possível perceber algumas inconstâncias de estrutura no processo, com tropeços típicos dessa construção, embora a qualidade final do capítulo ainda seja alta.

Os Monges aqui são melhor explorados e apresentam uma ameaça mais que interessante, em um ambiente cheio de símbolos (a nave-pirâmide não foi escolhida à toa) e fotograficamente mais claro do que no episódio anterior, mesmo com a repetição do filtro azulado nas tomadas internas. Retorna também a temática da paz mundial e da união de inimigos para combaterem uma ameaça em comum (Watchmen), tendo como marcador de tempo — para este bloco e para o andamento do texto como um todo — o “Doomsday Clock”, que de fato existe em nossa realidade e é mantido pelo pelo Conselho de Ciência e Segurança da Bulletin of the Atomic Scientists. No ano em que este episódio vai ao ar (2017), o relógio do nosso mundo marca 2,5 minutos para a meia-noite. Nota: desde 1947, quando a contagem começou a ser feita, o ano que mais nos distanciamos de um apocalipse foi em 1991, quando o relógio marcou 17 minutos para a meia-noite.

A ideia de que os Monges precisam ser pedidos para ajudar — condição muito bem comparada à dos vampiros, no próprio episódio — dá um significado muito maior ao que Bill faz no final do capítulo e isso, tanto do ponto de vista positivo quanto negativo. Notem que o consentimento precisa vir de alguém com poder e ter uma “motivação pura”, o que é muito interessante de se imaginar, pois movida pelo amor, uma pessoa deve abrir mão de sua própria liberdade para entregar alguma coisa ao domínio absoluto dos metamorfos humanoides com pele decrépita e vestidos com robes vermelhos, lembrando monges (pela fala de um deles, parece esta não é a forma original da espécie). É assustador e ao mesmo tempo um conceito muito bem arquitetado, pois tira dos personagens a composição extrema de um vilão como um mal absoluto do qual é impossível fugir.

Como não temos muitas informações para onde a coisa toda deve andar, resta ir colocando peso em duas coisas: 1) o que esses Monges têm a ver com o tema central (até aqui, inexistente?) da temporada?; e 2) como isso pode moldar o Doutor para o que vem adiante, já empurrando Doctor Who para frente, considerando que estamos no meio da temporada? Com Nardole afetado pela bactéria, Bill e o Doutor inseridos em um conflito ético delicado e a Terra pertencendo a vilões com uma misteriosa agenda, a expectativa aumenta ainda mais para o final do arco. E torcemos para que essa história seja a mola perfeita para o restante da 10ª Temporada.

Doctor Who – 10X07: The Pyramid at the End of the World (Reino Unido, 27 de maio de 2017)
Direção: Daniel Nettheim
Roteiro: Peter Harness, Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, Togo Igawa, Nigel Hastings, Eben Young, Rachel Denning, Tony Gardner, Andrew Byron, Daphne Cheung, Jamie Hill, Tim Bentinck
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.