Crítica | Doctor Who – 10X09: Empress of Mars

PLANO CRITICO DOCTOR WHO EMPERESS OF MARS

estrelas 4

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Nos primeiros minutos de Empress of Mars, eu imaginei que Mark Gatiss tinha cansado de suas histórias nostálgicas ou claustrofóbicas e resolvido escrever uma aventura no presente, em cenários realmente abertos. Mas o começo era apenas a desculpa para que o Doutor, Bill e Nardole fossem ao planeta Marte, em 1881, e encontrassem ali um Ice Warrior apelidado de Sexta-Feira (como em Robinson Crusoé), uma parte do Exército Vitoriano abduzido de uma campanha na África do Sul e uma rainha adormecida por 5 mil anos.

O bom humor o excelente trabalho de edição são as primeiras coisas que saltam aos olhos aqui. A brincadeira do Doutor com a contagem regressiva, a chegada surpresa dele à NASA, o caminho para Marte e os primeiros minutos no planeta vermelho são marcados por frases rápidas, uma mescla de reconhecimento de padrões, suspeita, pensamento guerreiro e planejamento para caso algo dê errado. Nós percebemos que Gatiss está atento para os medos e cuidados do 12º Doutor a esta altura do show, não deixando Bill tirar o capacete mesmo sabendo que, havendo fogo, era óbvio que haveria oxigênio no lugar.

Funcionando como um falso texto futurista, um falso texto de história vitoriana e um falso texto steampunk, o roteiro de Gatiss em Empress of Mars acaba pegando as melhores caraterísticas desses três modelos/gêneros narrativos, divertindo o espectador pela improbabilidade e ao mesmo tempo emaças em questão. Até a chegada da reta final e o pacto da Rainha Iraxxa com o Coronel, os Ice Warriors realmente dão medo, oferecem uma ameaça plausível e com ações muito bem filmadas por Wayne Yip, que aqui mostra muito mais de sua capacidade como diretor do que em The Lie of the Land, podendo adotar diversos modelos de abordagem visual, já que o episódio se passa em uma porção de lugares diferentes e cobra diferentes tomadas e movimentação de câmera.

O ritmo do capítulo é de uma precisão espantosa, e se torna a melhor base técnica da aventura, mesmo tendo como concorrentes um ótimo desenho de produção; uma direção de fotografia difícil de se fazer e com um resultado final muito belo (capturar cenários de cercanias monocromáticas sem fazer os quadros ficarem chapados exige muito do fotógrafo e Stuart Biddlecombe cumpre bem o desafio, lembrando-nos de outro grande trabalho seu na série, capturando a atmosfera igualmente vermelha/alaranjada de Gallifrey, em Hell Bent) e uma direção geral prática, limpa, sabendo destacar com igual fluidez os grupos em contenda.

Mesmo com um roteiro que desacelera e chega até recuar um pouco no final, Wayne Yip nos mantém atentos, esperando uma mudança, algo ruim vindo de Missy, que fora do cofre e com a maior cara e postura de preocupada para com o Doutor, parece ter encontrado a oportunidade que precisava para mostrar a que veio nesta temporada — eu confesso que fiquei preocupado: o que é que Missy está pressentindo? A regeneração? Sua outra encarnação? Ou… o que o Doutor está achando que acontecerá com Missy? O que está acontecendo?

Gatiss realiza uma visita ao passado para preencher um espaço até então não abordado sobre a ascensão dos Ice Warriors após a derrocada geográfica de Marte. A aparição do delegado Alpha Centauri — velho conhecido do Doutor desde a sua 3ª encarnação, em The Curse of Peladon — é um elemento interessante nesse processo, um bom resgate de um personagem da Série Clássica. Meu lamento é que o autor não tenha avançado no conflito moral que ensaia na primeira parte do episódio. Claro que ele remenda quase que elegantemente essa necessidade na persona do militar covarde que faz um acordo de morte honrosa com a Rainha dos Ice Warriors, mas mesmo assim, a posição do Doutor quando os humanos são os invasores e o impacto disso, quando esses mesmos humanos invasores estão diante de um inimigo muitíssimo mais letal, poderia ter algo mais interessante do que “apenas” encerrar a dinâmica de guerra, os impasses da obediência/desobediência militares e o mote da “sobrevivência a qualquer custo”.

Ainda vale destacar que o roteiro não é muito exato ao falar dos destinos dos soldados vitorianos ainda vivos. Com o deslocamento da imagem para a disposição das rochas na superfície de Marte, o assunto do interior da caverna é parcialmente esquecido e não ganha um merecido tratamento final, logo é dado por encerrado. De pronto, outro “problema” aparece, a TARDIS com Missy dentro. Não fosse pela finalização confusa (exceto a última cena, entre o Doutor e Missy, que pode ser vista de todos os modos possíveis, dada a grande da atuação da dupla), este episódio teria uma posição muito melhor no montante da temporada. Mesmo assim, é uma boa incursão do Gatiss na série. Uma que planta a semente da regeneração que se aproxima. Mais três episódios. Não está fácil não…

Doctor Who – 10X09: Empress of Mars (Reino Unido, 10 de Junho de 2017)
Direção: Wayne Yip
Roteiro: Mark Gatiss
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, Michelle Gomez, Richard Ashton, Ian Beattie, Anthony Calf, Lesley Ewen, Bayo Gbadamosi, Ian Hughes, Ferdinand Kingsley, Adele Lynch, Glenn Speers
Duração: 50 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.