Crítica | Doctor Who – 10X11 e 12: World Enough and Time / The Doctor Falls

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Episódios

estrelas 5,0

Temporada

estrelas 3,5

 SPOILERS! Confira todas as críticas para a 10ª Temporada aqui. Confira as críticas para tudo o que temos do Universo de Doctor Who aqui. 

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One day I shall come back. Yes, I shall come back. Until then, there must be no regrets, no tears, no anxieties. Just go forward in all your beliefs and prove to me that I am not mistaken in mine.

1º Doutor

Era uma vez, um Doutor com crise de identidade…

Desde o seu primeiríssimo episódio solo, Deep Breath, o 12º Doutor demonstrou algo que nenhuma outra encarnação havia demonstrado de maneira tão aberta, tão intensa e tomando isso de maneira tão forte para a sua vida, do começo até o fim. Nesta dupla de episódios finais da 10ª Temporada de Doctor Who, as mesmas inquietações de identidade do passado voltam a assombrar o Doutor, mas não necessariamente com seu questionamento sobre ser ou não ser um homem bom. Nestes momentos finais de sua vida, ele não está exatamente preocupado em mergulhar nos elementos morais que tanto tempo passou considerando. Aqui, o Time Lord parece abraçar de tudo um pouco, desde sair lutando em campo contra os Cybermen, citando os lugares onde essas criaturas apareceram, destruíram coisas e foram vencidas pelo Doutor; até doces momentos de demonstração de bondade e esperança, mesmo quando não existem reais chances de vitória. A busca do Doutor não é mais no campo dos conceitos externos que marcam o seu comportamento. A inquietação dele agora é ontológica. Ele cansou de jogar o jogo da renovação e recusa-se a se regenerar.

Os problemas começaram em World Enough and Time, que trouxe novamente a diretora Rachel Talalay para a série, após o excelente trabalho que ela fez na dupla final da 9ª Temporada. Mas diferente daquela ocasião, temos aqui um final de Temporada e praticamente um final de Era (Moffat, Capaldi e Gomez se despedem em definitivo no Especial de Natal) bastante agitado. Com sombras de Danny Pink em Dark Water / Death in Heaven, vemos mais uma companion negra ser transformada em Cybermen, mas não de maneira gratuita. Bill foi uma adição excelente na série, uma das melhores da nova fase e merecia um final impactante de verdade, como este foi, mas eu confesso que sempre quis no revival uma morte de verdade de um companion. Nada de grandes sacrifícios; nada de trajetórias heroicas para fazer valer a morte, após uma “vida bem vivida”; nada de enganar a morte por um tempo (como Clara) ou em definitivo, tendo a estrutura molecular alterada por uma quase-Dr. Manhattan (como Bill). Eu gostaria de ver a morte de uma personagem muito importante que realmente acontecesse por exposição ao perigo, pura e simplesmente: a chegada em algum lugar, as coisas dando muito errado, a companion morrendo (definitivamente e para sempre, sem absolutamente nenhum truque de retorno) e pronto.

Mesmo ficando um pouquinho desapontado com essa questão da morte-não-morte, e um pouco mais desapontado quando notei que a ideia de full circle do showrunner (que eu tanto cobrei este ano) colocou mais uma companion viajando ao lado de uma personagem misteriosa pelo Universo (Clara e Me tudo de novo…); admito que a forma como o roteiro e a direção trabalharam este ponto final foi realmente bastante satisfatória, com um encerramento digno para alguém tão incrível quanto Bill e mais uma pontada de dor para essa encarnação do Doutor, novamente perdendo uma companheira… ao menos em relação à sua forma original. Em World Enough and Time, através de um eficiente trabalho de montagem paralela, vimos o quanto de importância a então morte de Bill tinha diante das últimas conversas com o Doutor. Era apenas para ser um teste, um exercício para verificar a lealdade de Missy, mas as coisas não saíram como previsto e eles acabaram exatamente onde estava o Mestre Saxon (John Simm, em uma soberba interpretação, tanto disfarçado quanto em persona), em um dos momentos de gênese dos Cybermen.

Em um primeiro momento eu realmente lamentei que Moffat não tenha feito esforço nenhum para considerar Spare Parts como origem (aventura da Big Finish, lançada em 2002, com o 5º Doutor e Nyssa no planeta Mondas, exatamente no ponto dos testes laboratoriais e aprimoramento de corpos que levariam à criação dos Cybermen), mas depois de The Doctor Falls eu notei que o showrunner realmente tentou colocar a essência daquela aventura aqui, especialmente na tentativa de boicote do 12º Doutor, adicionando dois corações nessa primeira leva de Cybermen, a fim de aumentar o “fator humano”. De todo modo, mesmo se não tivesse esses pequenos lapsos, eu ainda teria gostado muito dessa origem (que vocês devem ter percebido… não é total, é apenas o momento quando os primeiros testes começaram a dar resultado, mas ao menos para mim, antes de a nave chegar à borda do Buraco Negro, ainda em Mondas, os testes para aprimoramento dos corpos já haviam começado) e também da forma como serviu de ponto-chave para mudanças de Missy e do Mestre, cuja última cena juntos é uma versão íntima de duelo à la western. Embora a música de Murray Gold seja excelente em toda a série, nesta temporada, o compositor foi muito, muito preguiçoso. Era imprescindível que alguns temas musicais inéditos aparecessem nesta reta final, especialmente um reconhecível para Missy e outro de batalha para o Doutor. Claro que aquela obra-prima de peça musical composta para a também obra-prima Heaven Sent foi bem utilizada no final, mas faltou algo novo. Se for para continuar reciclando bons temas do passado, seria bom que a 11ª Temporada trouxesse também um novo bom compositor para a série.

Um elemento muito interessante em relação aos vilões aqui é a forma mais ligada à sobrevivência que eu me lembro de ter visto em uma história com os Cybermen em DW (sim, mesmo considerando o excelente The Tomb of the Cybermen). Não há nada fora do objetivo de transformação e fortalecimento da espécie; não há ideais de dominação, planos de tomada de planetas ou coisa do tipo. E é mais interessante ainda que o Doutor tenha selado essa percepção mostrando que é natural para esse vilão que ele sempre consiga meios de “crescer sem empecilhos” em determinados ambientes, citando, então, Mondas (Spare Parts e The Tenth Planet); Telos; Terra (Rise of the Cybermen / The Age of Steel); Planeta 14 (The Invasion) e Marinus. Ainda é válido destacar que a introdução dos Cybermen mondasianos foi feita com grande respeito aos vilões clássicos. Convenhamos que olhando fora de contexto, essa primeira versão que conhecemos dos vilões é risível. A voz não é tão metálica como dos Cybermen já evoluídos e a estrutura corpórea lembra alguém que só teve dinheiro para comprar metade de um cosplay e terminou de fazer o resto com lençóis brancos. Porém, se bem utilizados, e justamente por conta dessa aparência de “Filme B” que eles possuem, temos medo quando os vemos na tela. Eles são bizarros, em um sentido que você teme só de olhar, sem saber por quê, uma das melhores relações de um vilão da série com a hipótese do Vale da Estranheza e inserida corretamente, tendo ainda um fator emotivo, além do bizarro, já que o primeiro que vemos em sua “forma completa” é Bill. Aquilo foi de cortar o coração.

Para os dois episódios, tivemos três majoritários filtros de cor na fotografia. O principal deles foi o azul (natural esperar essa cor aparecer aqui, já que ela também foi muito importante na regeneração do 11º para o 12º Doutor, em The Time of the Doctor); seguido de tons térreos para os interiores e, em cada episódio, uma terceira linha predominante: cinza em World Enough and Time; e verde em The Doctor Falls. Embora bastante diferentes em temáticas, os dois episódios possuem muitas semelhanças estéticas, ambos mostrando a tristeza, resistência e mistério do que está por vir. Os toques finais parecem ter deixado o Doutor ainda mais determinado a não se regenerar. Há uma homenagem a The Caves of Androzani, com personagens importantes para o Doutor lhe chamando, e terminando com o Mestre (nesse caso, Missy); há uma homenagem a Robot, com a primeira fala do 4º Doutor: “Sontarans! Perverting the course of human history!“; e ainda a sempre dolorosa frase de despedida do 10º Doutor (“I don’t want to go!“) e uma das últimas frases do lindo discurso de despedida do 11º (“[I will always remember] when the Doctor was me“).

De tantos ecos do passado, foi com enorme alegria (mas infelizmente, em tempos de internet, vazamentos e necessidade de marketing, sem surpresa) que tivemos o gancho para o Especial de Natal vindo após a aparição do 1º Doutor, interpretado por David Bradley. Parece que esta recusa do 12º em se regenerar vai precisar de uma outra voz para guiá-lo. Eu confesso que terminei o último episódio secando os olhos e praticamente soluçando. Peter Capaldi e Michelle Gomez foram duas das melhores coisas que aconteceram a DW nos últimos anos e vê-los entrar no caminho para se despedirem é muito triste. Quanto à 10ª Temporada, foi um bom serial, considerando o todo. Nas particularidades, porém, foi um ano decepcionante, pela promessa que nos fez. Ficamos um ano inteiro sem Doctor Who (2016), à parte o Especial de Natal, e logo em seu ano de despedida, Moffat guiou uma temporada bastante aleatória, com poucos momentos excelentes, como estes episódios finais. Mesmo assim, eu vou sentir falta desse Little Dalek. E também é certo que me regenerarei de saudades do 12º Doutor no Natal. E já estou sentindo uma punhalada nas costas pela partida de Missy. Ser whovian é sofrer no espaço-tempo e ter a habilidade de começar tudo de novo para sofrer e sofrer novamente em seguida. Uma versão um pouco mais instigante que a própria vida. Por isso que a gente ama tanto.

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Minha classificação de pior para o melhor episódio da 10ª Temporada

Entre também na brincadeira! Nos comentários abaixo, faça a sua própria classificação, do pior para o melhor episódio desta 10ª Temporada, segundo o seu julgamento. Abaixo, segue a minha lista.
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12º — Knock Knock

11º — The Pilot

10º — Thin Ice

9º — Smile

8º — The Pyramid at the End of the World

7º — Oxygen

6º — Empress of Mars

5º — The Lie of the Land

4º — The Eaters of Light

3º — Extremis

2º — The Doctor Falls

1º — World Enough and Time

Doctor Who – 10X11: World Enough and Time (Reino Unido, 24 de Junho e 1º de Julho de 2017)
Direção: Rachel Talalay
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Pearl Mackie, Matt Lucas, Michelle Gomez, Nicholas Briggs, Paul Brightwell, Oliver Lansley, Alison Lintott, John Simm, Kevin Hudson, David Bradley, Rosie Boore, Simon Coombs, Stephanie Hyam, Briana Shann, Samantha Spiro
Duração: 50 e 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.