Crítica | Doctor Who – 1X01: Rose

rose doctor who plano critico

estrelas 3

Rose Tyler: Is it always this dangerous?
The Doctor: Yeah.

Quando Rose foi ao ar em 2005, o Doutor não aparecia nas telas desde que o filme estrelado por Paul McGann falhou em reiniciar a série, nove anos antes. A Série Clássica havia sido cancelada em 1989 depois de 26 temporadas, e embora a marca tenha sobrevivido durante este hiato através de outras mídias, Doctor Who estava longe de ter a popularidade de outrora. Coube ao produtor e roteirista Russel T. Davies a missão de restaurar o icônico show. Grande fã de Doctor Who, Davies insistiu em dar continuidade à Série Clássica em vez de fazer um reinício total. Isso apresentava um grande desafio, pois o programa precisava apelar tanto para os whovians que esperavam reconhecer o seu amado show, quanto para um novo público que talvez só tivesse ouvido falar da série.

Rose, primeiro episódio do revival, fica à altura do desafio e introduz com louvor um novo público a Doctor Who, ao mesmo tempo em que respeita o que veio antes, reinserindo elementos clássicos como a Chave de Fenda Sônica e os Autons, sem tornar tais referências incompreensíveis para quem não conhecia o programa. O episódio nos apresenta a Rose Tyler, uma jovem que vive com a mãe em um conjunto habitacional e trabalha em uma loja de departamentos. Rose é a típica “Garota Comum”, e parece muito feliz com isso. Até o dia em que descobre uma invasão Auton por acidente, e é resgatada pelo Nono Doutor.

O roteiro de Davies acertadamente conta a história quase que exclusivamente do ponto de vista de Rose, pois ao ver o universo do Doutor pelos olhos da garota, nós nos identificamos com ela e o Doutor torna-se um enigma a ser desvendado, mesmo para quem já conhecia o personagem. O episódio equilibra doses generosas de humor com certo mistério em torno do Doutor e sua TARDIS. Claro, estes esforços não teriam valido de nada se a dupla principal não funcionasse. Mas Christopher Eccleston e Billie Piper se mostraram escalações perfeitas.

Diferente do filme de 1996, a Nova Série optou por já apresentar o seu novo Doutor, em vez de relacioná-lo com o seu antecessor, deixando que somente imaginássemos como o Oitavo Doutor se transformou no Time Lord que conhecemos aqui (a resposta acabou sendo um pouco mais complexa do que os whovians imaginavam, mas essa é outra história). Essa escolha se mostrou bastante apropriada, afinal, trazer o conceito da regeneração em uma história que apresenta o Doutor foi um dos grandes erros da produção noventista.

O Doutor de Eccleston chama a atenção pelo figurino sóbrio que contrasta com seu comportamento alienígena. O Nono Doutor parece não ter tido contato com humanos por um tempo e parece estar se reacostumando a ser o Doutor em vez de um guerreiro, ainda se mostrando insensível, algumas vezes. Esta desconexão gera as cenas mais divertidas do episódio, mas também confere ao personagem uma natureza quase divina, como quando tenta explicar a Rose quem ele é, através de sua percepção da rotação da Terra.

Apesar do bom humor, o Nono Doutor parece carregar o peso do mundo nas costas. A Time War não é textualmente citada, mas é evidente que algo terrível aconteceu com o personagem em seu passado recente, e isso fica claro ao vermos o remorso desesperado do Time Lord ao confrontar a Consciência Nestane no clímax da trama. Tal culpa é um dos fatores que definem esta encarnação, e Rose apresenta isso de forma eficiente.

Já Rose Tyler surge como uma personagem identificável, pois Piper transmite esse ar mundano, e reage ao fantástico com o mesmo espanto e fascínio que uma pessoa normal reagiria. Paradoxalmente, após conhecer o Doutor, essa normalidade deixa de ser o suficiente para a garota, que passa a ver sua vida como algo frustrante e vazio e passa a querer mais. A dinâmica entre o Doutor e a companion, mais os motivos que os levam a se unir também são bem explicitados. O Doutor literalmente pega Rose pela mão e lhe mostra um mundo de maravilhas, fazendo-a descobrir uma força que ela nem sabia ter. Já Rose chama a atenção do Doutor não só por seu raciocínio rápido (mesmo que a conclusão seja incorreta), mas também por ajudá-lo a se reconectar com a humanidade.

A direção de Keith Boak é competente em explorar a normalidade que o episódio pede, e seu choque com o fantástico, com destaque para a cena em que Rose entra na TARDIS pela primeira vez, pois só vemos o interior da nave depois que Rose se convence que o que viu é real. A edição merece destaque, especialmente a sequência inicial que abre com um plano da Terra, só para mergulhar em um zoom in até o quarto de Rose, que é sucedido por cenas rápidas do dia da garota, nos contando tudo o que precisamos saber sobre ela de forma econômica.

O design da sala de controle da TARDIS, que permaneceria quase inalterado até o fim do mandato de Davies como showrunner parece dever muito mais ao filme Doctor Who: O Senhor do Tempo do que à Série Clássica, mostrando que Davies e sua equipe estavam dispostos a usar o melhor que todas as fases da série tinham a oferecer em seu revival. Apesar deste piloto da Nova Série apresentar muitas qualidades, ele também possui defeitos que o tornam bastante irregular, impedindo que fique entre os melhores de uma primeira temporada bastante sólida. Os efeitos em CGI envelheceram muito em pouco tempo, mesmo para os padrões de Doctor Who. O confronto final com a Consciência Nestane perde grande parte de sua força devido a clara artificialidade da criatura. O humor pastelão empregado pelo roteiro, como a cena envolvendo o Auton Mickey sem cabeça, ou a luta com um braço vivo não funcionam tão bem quanto deveriam.

E se os dois protagonistas são muito bem explorados, Jackie e Mickey, respectivamente a mãe e o namorado de Rose, nos são apresentados como não mais do que caricaturas desagradáveis, o que me pareceu uma manobra preguiçosa do roteiro para que aceitássemos melhor a decisão de Rose de abandonar tudo e pular na nave de um alienígena desconhecido no fim do episódio. Apesar dos defeitos, a importância de Rose para a série é inegável, pois nos apresentou um Doutor cercado de mistérios e muito bem defendido por Christopher Eccleston, e uma das companheiras mais emblemáticas da Nova Série. A Era do Nono Doutor e o renascimento de Doctor Who começavam com o pé direito.

Doctor Who – 1X01: Rose (Reino Unido, 2005)
Direção: Keith Boak
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, Camille Coduri, Noel Clarke, Mark Benton, Elli Garnett, Adam McCoy, Alan Ruscoe, Paul Kasey, Nicholas Briggs
Duração: 45 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.