Crítica | Doctor Who – 1X02: The End of the World

doctor-who-the-end-of-the-world-plano-critioco

estrelas 4

Após um episódio piloto calcado em um ambiente contemporâneo que evocava a realidade do cotidiano, The End Of The World opta por seguir um caminho bem diferente, ao situar sua história no espaço sideral em um futuro distante. Em sua primeira viagem na TARDIS como companion, Rose é levada pelo Doutor para uma estação espacial cinco bilhões de anos no futuro, para testemunhar um show único, a destruição natural do Planeta Terra. Entretanto, há um sabotador a bordo, que ameaça por em risco a vida de todos os presentes.

O episódio foi o mais caro da temporada e percebe-se por quê. Além da ambientação futurista e muitos efeitos de pós-produção para criar o exterior da estação espacial e o próprio Planeta Terra colapsado, Rose e o Doutor são os únicos personagens a terem a aparência completamente humana, enquanto os personagens restantes foram criados através de maquiagem, fantasias ou CGI. Essa decisão se mostra bastante apropriada para mostrar a Rose (e ao público) o quão diverso o universo pode ser.

Escrito pelo showrunner Russel T. Davies, The End of The World parece se inspirar fortemente nos romances de Douglas Adams (autor que inclusive escreveu alguns episódios da Série Clássica). Personagens como Lady Cassandra parecem saídos das páginas de um livro da série literária O Guia do Mochileiro das Galáxias, e a própria trama evoca o romance de Adams O Restaurante no Fim Do Universo, ao retratar ricos pagando para assistir aos últimos momentos de existência de um planeta. A ficção científica nonsense é parte importante do episódio, gerando momentos bem divertidos, como a mostra de “musica clássica” da Terra. Em alguns aspectos, a história configura-se como um típico mistério de assassinato, com aranhas robôs a serviço de um sabotador oculto, eliminando as testemunhas da sabotagem. Claro, o texto nunca pede que levemos esse mistério a sério, até por que não faz nenhum esforço para esconder o culpado.

O roteiro de Davies usa esta ameaça somente como pano de fundo para o que realmente lhe interessa, que é o desenvolvimento da dupla principal, que desta vez conta com coadjuvantes muito melhor trabalhados do que os do episódio de estreia. Bem longe da normalidade de Powell Estate, Rose Tyler é retratada como alguém igualmente deslumbrada e assombrada pela situação surreal em que se encontra. Afinal, passado o encantamento inicial, a garota começa a se dar conta de que aceitou viajar com um alienígena desconhecido para um futuro que mal compreende. A cena em que Rose emocionada, fala com sua mãe pelo telefone é bastante ilustrativa, afinal, ela está falando com uma mulher que tecnicamente esta morta há bilhões de anos. Esta cena é importante também para estabelecer a dinâmica que Davies estabelece aos companions da Série. Assim como os companions da Série Clássica, Rose abandona a vida que conhecia para viajar com o Doutor. O que Davies frisa, entretanto, é que essa vida normal continua lá, representada na figura de Jackie Tyler, que lava roupa inocentemente, enquanto a filha assiste ao fim do mundo, cinco bilhões de anos no futuro.

Se em Rose, o Nono Doutor era um grande mistério, esta aventura já nos dá uma compreensão maior sobre quem é o Time Lord de Christopher Eccleston. Não que Davies nos revele completamente a história por trás do Nono Doutor. De fato, continuamos recebendo informações em doses homeopáticas. Neste episódio, descobrimos que o planeta natal do Doutor (que em momento algum é chamado pelo nome) foi destruído em uma guerra, e que ele se tornou o último de sua raça. Davies continuaria dando pedaços de informação até que o público realmente tivesse noção do que foi a Guerra do Tempo, em um processo de storytelling bem competente, a meu ver.

Mas não precisamos saber os detalhes para perceber quanto sofrimento este Doutor está carregando dentro de si. Embora nenhuma encarnação do personagem fosse adepta de falar sobre o que passou, o Nono Doutor é especialmente sensível a esse respeito. Ele reage de forma quase agressiva quando Rose lhe questiona sobre o seu passado, por que há muita dor lá, e o Doutor simplesmente não quer lidar com isso. Curiosamente, de todos os lugares no tempo e espaço que o ele poderia ter levado Rose em sua primeira viagem, ele escolhe justamente o momento da destruição do planeta da jovem. Parece que, inconscientemente talvez, o Doutor quisesse partilhar o seu segredo com ela, em uma contradição curiosa e instigante. Os coadjuvantes, além de terem o seu próprio brilho, funcionam como grande apoio para o crescimento dos protagonistas. A alienígena Jabe, uma forma de vida vegetal, estabelece uma conexão muito bonita com o Doutor e, de certa forma, o ajuda a confrontar o seu trauma, em uma cena sutil e delicada, que termina com uma única lágrima caindo pelo rosto do Time Lord.

Já a vilã Lady Cassandra, apesar de se auto proclamar a última humana, lembra muito pouco um ser humano, como Rose observa. Basicamente, após prolongar a própria vida através de vários procedimentos cirúrgicos, Cassandra foi reduzida a uma tira de pele falante. Isso faz com que o racismo da personagem contra os chamados “mestiços”, torne-se ainda mais abjeto e, ao mesmo tempo, risível. Vale observar ainda o agrado que Davies dá aos fãs da Série Clássica, ao traçar paralelos entre Cassandra e Sil, o carismático vilão de Vengeance On Varos, inimigo do Sexto Doutor que, assim como a última humana, também pedia o tempo todo para seus capangas hidratá-lo. O desfecho do confronto do Doutor com Cassandra é muito esclarecedor sobre o momento vivido pelo personagem. Ao praticamente condenar a vilã à morte, o Time Lord declara que tudo tem seu tempo e tudo morre. Sim, é um ato de vingança dele pelas mortes causadas por Cassandra por motivos absolutamente mesquinhos. Mas também reflete o remorso do Doutor de estar vivendo além de seu tempo, como a própria Cassandra.

A direção do episódio ficou por conta de Euros Lyn, em seu primeiro de muitos trabalhos para a série. Lyn conduz o episódio de forma competente, com uma decupagem que valoriza tanto a atuação dos atores quanto os efeitos especiais e a cenografia. O dinheiro investido no episódio realmente valeu a pena, gerando quadros visualmente impressionantes para uma série de TV de 2005, como as cenas em que o Doutor e Rose observam a Terra destruída. O CGI usado para criar Cassandra já não envelheceu tão bem, mas não chega a incomodar, estando dentro dos padrões aceitáveis para a série. O episódio ainda apresenta a primeira aparição do Papel Psíquico, que se tornaria quase tão indispensável para o Doutor quanto a Chave de Fenda Sônica, além de marcar a primeira aparição do Face Of Boe, personagem que ganharia importância no futuro da série. No fim das contas, The End Of The World é uma ótima história, que dosa de forma equilibrada bom humor e o drama de seus personagens, trazendo diversão e reflexão, além de ser mais um passo para mostrar as novas audiências o que a TARDIS ainda era capaz de fazer. O fim do mundo foi apenas o começo.

Doctor Who 1X02: The End Of The World (Reino Unido, 2005)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russel T. Davies
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, Yasmin Bannerman, Zoe Wanamaker, Camille Coduri, Jimmy Vee, Beccy Armory, Sara Stewart, Silas Carson
Duração: 45 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.