Crítica | Doctor Who – 1X04 e 5: Aliens of London / World War Three

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Aliens Of London/ World War Three é um arco curioso. Ele é uma síntese de muitas das temáticas trabalhadas por Russel T. Davies durante o seu mandato como showrunner. Há no roteiro um forte tom satírico dirigido às figuras políticas e à mídia, que seria uma constante na Era Davies, além do flerte com um cenário onde a existência de alienígenas em um mundo contemporâneo é reconhecida. Mas estes episódios, principalmente, definem a abordagem que o produtor daria as principais companions da série. De volta a Powell Estate, Rose e o Doutor acreditam que estiveram fora por só doze horas, mas ao reencontrar sua mãe, a companion descobre que sumiu por um ano. Enquanto Rose tenta se explicar para a mãe e para o antigo namorado, uma nave alienígena cai no Tâmisa. Com o Primeiro Ministro desaparecido, o Doutor inicia uma investigação que o conduz para uma conspiração no coração do governo britânico.

Uma das grandes diferenças da Série Clássica em relação à Nova Série é que a Clássica não se preocupava em explorar a vida dos companions fora da TARDIS, ou o impacto que as viagens ao lado do Doutor tinham na vida real daquelas pessoas. A Nova Série, por outro lado, fez deste impacto parte importante do desenvolvimento das companions. Este processo começa em Rose, que se esforçou para construir um panorama da vida da jovem antes de conhecer o Doutor. Aliens Of London e World War Three funcionam como uma “prestação de contas”, com o Doutor tendo que ouvir dos entes queridos de sua companheira o que eles pensam sobre o estilo de vida para o qual ele a levou. Isso faz com que não só Rose e sua família sejam levados para o mundo fantástico do Doutor, mas que ele também seja levado para o mundo mundano deles.

O início de Aliens Of London é hilário ao trazer as reações de Jackie às tentativas do Doutor de explicar o que ele e Rose andaram fazendo. Todas as perguntas com as quais o Doutor é confrontado, inclusive a suspeita de que teria levado Rose como Sexual Companion, surgem totalmente coerentes tendo em vista as condições em que a garota desapareceu. As preocupações de Jackie em relação a Rose claramente consternam o Doutor por ser de uma normalidade que ele não está acostumado a lidar. Mesmo a colisão de uma nave com o Big Ben colabora no mergulho do Time Lord neste “mundo de normalidade”, pois, incapaz de chegar ao local da queda, ele acaba acompanhando os eventos pela TV, como alguém normal faria.

Infelizmente, a trama central da conspiração alien é claudicante. O humor é o principal motor do arco, o que não é problema, mas as piadas não funcionam bem. Os antagonistas da história, os Slitheen, uma família criminosa da raça Raxacoricofallapatorian, já são personagens cômicos por si só. Eles se disfarçam como políticos gordos que não conseguem controlar os gases, e peidam o tempo todo. É engraçado de uma forma quase escatológica em um primeiro momento, mas se torna uma piada repetida a exaustão. Harriet Jones, vivida pela ótima Penelope Wilton, é uma personagem carismática, mas isso se deve mais aos esforços da atriz do que ao texto, que parece tentar pintá-la como uma caricatura. A piada recorrente onde ela pede desculpas por repetir a palavra peido é francamente irritante.

Como dito antes, os dois episódios fazem uma sátira à mídia e à política que é muito interessante. Os Slitheen são uma caricatura clara a certos tipos de políticos que existem por aí, utilizando a burocracia para os seus próprios fins. A forma como a mídia é transformada pelos vilões em um instrumento de medo contra a população também é um movimento inteligente do roteiro, pois o ataque dos Slitheen é mais midiático do que físico. Não por coincidência, a nave é lançada contra um grande símbolo britânico. O resultado é terror generalizado alimentado pela mídia, seguido de xenofobia. O roteiro ainda aborda o passado do Doutor como Consultor Científico da Terra, quando ele é convocado ao escritório do Primeiro Ministro para ajudar nas investigações sobre a queda da nave. Existe mesmo uma interessante sequência mostrando um sistema de informações que procura informar ao governo britânico quando o Doutor está na Terra. A UNIT faz a sua estreia na Nova Série neste arco também, embora em um papel ridiculamente pequeno.

Aliens Of London é o episódio mais eficiente do arco ao focar mais na interação do Doutor com a vida trivial de Rose. O mistério envolvendo a queda da nave alienígena e a infiltração dos Slitheen no gabinete do primeiro ministro é relativamente bem conduzido, embora tropece aqui e ali. Mas em World War Three, o ritmo da trama desanda, não conseguindo equilibrar a tensão e a comédia propostas pelo roteiro, embora ainda traga bons momentos, como a ótima sequência onde o Doutor usa cada detalhe que encontra para identificar a raça dos Slitheen e encontrar uma fraqueza.

O arco dá a chance de Eccleston exercitar a veia mais cômica do Nono Doutor, embora ainda traga sequências que destacam a vulnerabilidade emocional do personagem, como a sua compaixão com um assustado porco transmutado abatido por soldados, e a sua hesitação no clímax da história em explodir o escritório do Primeiro Ministro por temer perder Rose no processo. Falando na dupla, a tensão sexual existente entre Rose e o Doutor se torna um pouco mais evidente neste arco, embora ainda algo bem longe daquela que seria vista entre Rose e a versão de David Tennant.

Falando dos coadjuvantes, Jackie e Mickey são melhor explorados aqui do que em sua primeira aparição. Em Rose, a mãe e o namorado da moça eram apresentados como caricaturas quase desagradáveis, em uma manobra um pouco preguiçosa pra fazer com que o público visse a decisão de Rose de abandonar a sua vida para viajar na TARDIS como uma decisão óbvia. Aliens Of London e World War Three corrigem esse erro dando mais consistência ao núcleo de Powell Estate. Jackie ainda é uma figura muito divertida, mas é levada além da caricatura ao expressar preocupações sinceras e absolutamente coerentes com a filha. Ela quer saber o que ela faz viajando sozinha com um homem esquisito, quer saber se o Doutor realmente é capaz de manter Rose em segurança em suas aventuras. Apesar do jeito maluquinho, Jackie é uma mãe de verdade, o que concede humanidade á personagem de Camille Coduri.

Mickey, por sua vez, tem um crescimento maior ainda, depois de ser apresentado como o namorado egoísta e covarde de Rose no piloto da Nova Série. Diferente de Jackie, ele tinha alguma ideia sobre que aconteceu com Rose, mas claro, ninguém acreditaria nele. Mickey não apenas perde a namorada, como é acusado pela polícia e pela própria Jackie de ser responsável pelo desaparecimento da garota. Portanto, ele não está muito feliz com o Doutor. Mickey tem um crescimento fantástico como personagem, e assim como Rose, na estreia da temporada, ele descobre uma força que não sabia que tinha e acaba salvando o mundo. Por fim, apesar das sabotagens do roteiro, Harriet Jones é uma personagem bastante carismática, e seu jeito meio estabanado cria um contraste legal com os outros políticos vistos no episódio. E realmente acreditamos que ela possa trazer uma “era de ouro” para a Inglaterra, como o Doutor prevê.

O arco é competente em seus aspectos técnicos. O visual dos Slitheen consegue transitar entre o ameaçador e o ridículo, principalmente através das expressivas carrancas de bebezões, enquanto os momentos que trazem os monstros abandonando os corpos humanos e assumindo suas verdadeiras formas são bobos, de uma forma genial; afinal, eles usam zíperes na testa. A direção de Keith Boak, que também dirigiu Rose, está longe de ser espetacular, mas também não compromete, pois aproveita bem os momentos de maior impacto visual, embora pareça não saber trabalhar tão bem com os momentos de tensão.

O primeiro arco de dois episódios da Nova Série é irregular e um pouco problemático, mas ainda contém momentos muito divertidos. Ele desenvolve os principais personagens de apoio muito bem e cresce ao lidar com as questões mais pessoais da narrativa, mas a trama principal não se sustenta tão bem. Traz ideias e críticas muito inteligentes, mas que surgiriam de forma semelhante no futuro da Era Davies, e de maneiras bem melhor trabalhadas.

Doctor Who 1×04 e 1×05. Aliens Of London/World War Theee (Reino Unido, 2005).
Direção: Keith Boak
Roteiro: Russel T. Davies
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, Camille Coduri, Noel Clarke, Penelope Wiltonn, Rupert Vansittart, David Verrey, Annete Badland
Duração: 90 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.