Crítica | Doctor Who – 1X06: Dalek

doctor-who-161-dalek-s1e06-plano critico doctor who dalek plano critico

Os Daleks são os vilões mais emblemáticos de Doctor Who. Criados por Terry Nation para o arco The Daleks, em 1963, na primeira temporada da Série Clássica, os monstros do planeta Skaro tem sido uma das maiores constante do programa. Companheiros vêm e vão, Doutores se regeneram, mas os Daleks estão quase sempre lá, sendo os únicos vilões a aparecer em ao menos uma história de cada Doutor. Portanto, era inconcebível trazer Doctor Who de volta sem trazer também os Daleks.

Os monstros causaram impacto em 1963, através do seu visual completamente alienígena e de sua representação metafórica do ódio nazista. Entretanto, ao longo dos anos, eles perderam a aura ameaçadora e passaram a ser motivo de piada. Compreensível, já que eles parecem saleiros gigantes que usam um desentupidor de pia como braço. O desafio da Nova Série era grande; convencer o publico moderno que esses seres de voz esganiçada eram a raça mais mortal do universo. Felizmente o excelente roteiro de Robert Shearman, a ótima direção, e o elenco afiadíssimo cumprem o desafio com louvor.

A história tem início com Rose e o Doutor respondendo a um sinal de socorro que os leva até 2012, em uma base subterrânea no estado americano de Utah. Lá, eles conhecem Henry Van Statten, um bilionário que coleciona tecnologia extraterrestre. Ao descobrir que Van Statten mantém um alienígena vivo em cativeiro, o Doutor logo se prontifica a ajudar a criatura. Entretanto, tudo muda quando o Time Lord descobre que o prisioneiro do bilionário é um Dalek.

Dalek é um grande episódio. Uma bela homenagem a maior criação de Terry Nation. Mas diferente do que o início do episódio possa dar a entender, onde o Doutor e Rose se materializam em um museu e encontram a cabeça de um Cyberman exposta, não se trata de uma trama que apela para a nostalgia. Essa é de fato uma das histórias mais sombrias da temporada, onde os pecados do Doutor voltam para assombrá-lo. Um dos trunfos do episódio é a forma como conduz a jornada dramática do 9º Doutor á um ponto de virada, ao desconstruir a figura do Time Lord e de seu nêmesis. Até este momento da série, Russell T. Davies havia nos dado pequenas amostras dos traumas causados ao Doutor pela Time War. Aqui, tais traumas são personificados na figura do Dalek.

O roteiro de Shearman constrói o Dalek como uma ameaça letal. O Doutor afirma em certo ponto do episódio que aquele único Dalek pode matar toda a população de Salt Lake City, e a trama faz com que acreditemos nisso. O Dalek não é só um assassino capaz, mas também um grande estrategista, capaz de eliminar um esquadrão paramilitar. Shearman ainda apresenta vários fatores que fizeram do vilão motivo de piada e os subverte, de modo a deixar claro que o medo que o Doutor sente em relação à criatura é plenamente justificado. Dalek também consegue algo que a Série Clássica nunca conseguiu: fazer do Dalek um personagem com camadas. O Dalek aqui é uma criatura confusa e assustada. Este é um ser que acaba de descobrir que é o ultimo de sua espécie, um soldado sem ter de quem receber ordens, o que vai contra toda a sua cultura e herança genética. O episódio não nos faz apenas temê-lo, mas também ter empatia por ele. Nicholas Briggs, que já havia dublado os Daleks em áudios da Big Finish, merece os parabéns aqui por seu trabalho de voz, conseguindo transmitir os conflitos da criatura, mas sendo extremamente fiel a voz clássica do personagem.

A grande colaboração que a história traz para a longa relação de confrontos entre o Doutor e os Daleks é mostrar o quanto os traumas de guerra tornaram os dois inimigos mais parecidos do que o Time Lord gosta de admitir. Em episódios anteriores, o Doutor estava pronto pra oferecer clemência para a Consciência Nestane ou para os Gelth, mas tudo que ele quer do Dalek é que ele finalmente morra, dando fim de uma vez por todas a raça de Skaro. Assim como o último dos Daleks só consegue sentir ódio e medo do Doutor, o mesmo pode ser dito em relação ao protagonista.

Grande parte da força do episódio se deve ao trabalho de Christopher Eccleston, que tem aqui um de seus melhores momentos na pele do Nono Doutor. O Doutor de Eccleston talvez seja uma das versões mais trágicas do personagem, excetuando talvez o War Doctor. Seus antecessores podiam apresentar certa melancolia em alguns momentos, e seus sucessores também sofreriam com as cicatrizes psicológicas da Guerra do Tempo, mas as feridas do Nono Doutor ainda sangram, e o reencontro do Time Lord com seu mais odiado inimigo traz seus demônios interiores à tona. É quase com sadismo que o Doutor informa ao Dalek que sua raça está morta, e quando tenta assassinar o monstro acorrentado a sangue frio, não é por uma situação extrema, mas por vingança pura e simples. Eccleston retrata de forma soberba o conflito do Nono Doutor que, ao mesmo tempo em que vê todo o seu ressentimento contra os Daleks aflorar, sente o peso da culpa de suas ações na Guerra do Tempo, já que descobrimos que o Doutor é o responsável pela destruição de Gallifrey, e pela extinção tanto dos Daleks quanto dos Time Lords (ou assim se pensava na época).

Ao explorar a faceta mais sombria do protagonista, Dalek ressalta a importância dos companions na Nova Série, que é lembrar ao Doutor qual é a sua verdadeira natureza, quando o Time lord ameaça se esquecer disso. Com o Doutor cego de ódio, é Rose que funciona como a luz de esperança da história, agindo com misericórdia e dando ao Dalek o benefício da dúvida. A luta de Rose neste episódio acaba não sendo apenas pela própria sobrevivência, mas também pela alma do Doutor. Este papel desempenhado pelas companions é um ponto que seria frequente na Nova Série, tanto na Era Davies quanto na era Moffat, mas que surge pela primeira vez aqui.

Henry Van Statten é outro fator que ajuda a garantir os paralelismos que a história busca construir entre o protagonista e o Dalek. O soldado do planeta Skaro pode ser aquele que até o fim do episódio mata duzentas pessoas, mas Van Statten é o grande responsável, já que por motivos absolutamente mesquinhos, não se importa em sacrificar sua equipe ou torturar o Dalek e o Doutor para conseguir o que quer. Corey Johnson consegue viver este personagem odioso sem cair na caricatura total, o que é digno de nota. O episódio também introduz Adam Mitchell, um jovem funcionário de Van Statten que faz amizade com Rose, e ao fim da história, é convidado para viajar na TARDIS.

O diretor Joe Ahearne também merece crédito pela qualidade do episódio. A edição valoriza o trabalho dos atores, enriquecendo os momentos de maior intensidade emocional, enquanto a decupagem enquadra a figura do Dalek é de forma imponente, e cada quadro funciona como uma verdadeira expressão da criatura, capaz de demonstrar quando o Dalek representa mistério, perigo, ou fraqueza. A fotografia é competente, mas sem chamar a atenção demais para si, auxiliando na construção da atmosfera da trama.

Dalek se revela uma das melhores histórias da série a trazer as criações de Terry Nation, talvez a melhor. Um episódio que reintroduz e atualiza com sucesso o mais icônico vilão do programa, ao mesmo tempo em que traz um ponto de extrema importância na jornada dramática do Nono Doutor, dando a Eccleston a chance de nos presentear com a sua interpretação mais intensa do lendário Time Lord. Dalek se tornou a prova definitiva de que Doctor Who havia voltado para ficar.

Doctor Who- 1×06. Dalek (Reino Unido, 30 de Abril de 2005).
Direção: Joe Ahearne
Roteiro: Robert Shearman
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, Nicholas Briggs, Corey Johnson, Bruno Langley, Anna Louise Plowmam
Duração: 45 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.