Crítica | Doctor Who – 1X09 e 10: The Empty Child / The Doctor Dances

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É curioso que dentre todos os episódios exibidos na 1ª Temporada da Nova Série, seja justamente um arco ambientado em um dos momentos mais sombrios da história britânica, aquele que traz o desfecho mais otimista, e que lance a luz mais positiva sobre o protagonista. Não que a estreia de Steven Moffat como roteirista do programa traga uma história boba, ou mesmo descontraída, pois se trata de uma narrativa possui uma forte atmosfera de terror e não omite o desespero causado pelas bombas que choviam sobre a capital britânica durante a 2ª Guerra Mundial. Mas a trama é envolta por um tom de fábula que mostra que mesmo diante do cenário de devastação da guerra, a esperança pode encontrar uma forma de florescer.

A história tem início com o Nono Doutor e Rose perseguindo um OVNI roxo pelo Vórtex do Tempo, já que segundo o Doutor, roxo é a cor Universal de alerta de perigo (menos na Terra, onde inexplicavelmente usamos vermelho). A perseguição leva a TARDIS até a Londres de 1941, durante uma noite de bombardeio alemão. No caos que se segue, a dupla acaba se separando, e enquanto o Doutor se envolve em um mistério envolvendo uma praga relacionada a um fantasmagórico menino mascarado, Rose conhece outro viajante do tempo chamado Capitão Jack Harkness.

Como dito acima, o arco formado pelos episódios The Empty Child e The Doctor Dances é uma espécie de fábula. O roteiro de Moffat, como muitos de suas histórias posteriores para Doctor Who explora medos infantis, que aqui surgem inseridos dentro do contexto da guerra. No caso, esse medo vem de um sussurro infantil na noite, vindo de uma criança vestindo uma mascara de gás que lhe cobre o rosto inteiro, e que pergunta insistentemente pela mãe O visual ameaçador do menino gera um incômodo contraste com a aparente inocência da pergunta feita na voz infantil, criando uma figura assustadora que parece saída de uma história de fantasmas. A história traz ainda um leve grau de Body Horror, através dos efeitos da praga que transformam o rosto das vítimas em máscaras iguais àquela usada pela criança que dá título ao primeiro episódio do arco, em uma variação bastante criativa da típica praga zumbi.

Mas nem tudo é terror. Das quatro histórias escritas pelo então futuro showrunner dentro da era Davies, The Empty Child/The Doctor Dances talvez seja a que melhor ilustre as diferenças com que cada um dos dois produtores encara a série e seu protagonista. Davies parece gostar de ver o Time Lord como este ser semi-divino, traumatizado por uma guerra que foge à nossa compreensão e, justamente por isso, um ser mais distante. Moffat por sua vez, prefere enxergar o Doutor como um alienígena muito mais afinado com os pequenos dramas da humanidade, mesmo que não os compreenda completamente, e cujas aparições na vida das pessoas não coincide apenas com ameaças alienígenas, mas com conflitos de natureza mais intima. É como se para Davies Doctor Who fosse a versão contemporânea do mito grego, e para Moffat, a do conto de fadas, abordagem que o segundo aplicaria principalmente durante seus anos iniciais no comando da série, mas que ele experimenta pela primeira vez neste arco.

Nancy, a jovem que cuida de um grupo de crianças abandonadas, e que invade as casas abandonadas por famílias ricas durante os bombardeios para alimentar essas crianças, parece ela mesma saída de uma fábula, e seu encontro com o 9º Doutor em um destes banquetes só reforça essa impressão, já que o Time Lord praticamente se materializa na mesa de jantar. A relação de Nancy com a criança mascarada, que a moça afirma ser o fantasma de seu irmão Jamie acaba sendo a chave para deter a ameaça da trama, pois mundo só pode ser salvo quando a garota reúne a coragem para assumir a posição que sempre quis, na interessante reviravolta final. E isso só é possível devido ao incentivo do Doutor, que pela primeira vez, consegue terminar uma aventura sem absolutamente nenhuma baixa. O Doutor age aqui como uma figura de consciência, que mais do que vencer o monstro, ajuda as pessoas a superarem seus medos, e quando o Time Lord faz seu movimento final para salvar as vítimas da praga, em uma passagem que o faz lembrar um mago de contos de fada, ele mal se contém de felicidade, em uma interpretação acertadamente efusiva de Christopher Eccleston, que entende o que uma vitória sem mortes, ainda mais em um cenário de guerra, significa para este Doutor.

O arco introduz um novo companion na figura do Capitão Jack Harkness, e o personagem tem aqui uma excelente estreia. Jack foi o primeiro personagem abertamente pansexual da história do show, já que gay não é exatamente a palavra para se referir ao Capitão, visto que ele basicamente está disposto a transar com tudo o que respira (e algumas que não respiram também), homem, mulher, alienígena, robô, tudo é válido para este ex-agente do tempo vindo do século 51. Embora a libido do personagem seja a fonte da maior parte do humor que o envolve, ele não é limitado a isso, e ganha aqui um arco dramático simples, mas eficaz, do homem que redescobre a própria nobreza escondida atrás de seu egoísmo. A atuação de John Barrowman faz de Jack um sujeito galante, que mantém um constante sorriso no rosto, remetendo ao arquétipo do homem de ação (parecendo fortemente inspirado em James Bond) contrastando com o tipo mais cerebral e alienígena do Doutor, o que cria uma dinâmica instigante.

A presença de Jack também bota em foco um ponto da relação do Doutor e Rose que vinha sendo sutilmente sugerido em episódios anteriores, que é a tensão romântica (e por que não, sexual) existente entre a dupla. Diferente do Doutor, Jack sente-se absolutamente confortável em flertar com a jovem, o que acaba elevando a tensão romântica entre a dupla protagonista de forma bastante divertida. A Série Clássica sempre evitou qualquer tipo de sugestão que pudesse haver qualquer coisa além de amizade entre o Doutor e suas companions (excetuando o filme de 1996 com Paul McGann). Em tempos mais cínicos, a questão não poderia ser ignorada, mas a Nova Série a encara através de uma divertida metáfora no segundo episódio do arco, The Doctor Dances. O termo “Dançar” surge na história com múltiplos significados, e um deles é o ato sexual. Em uma cena hilária, Rose e o Doutor discutem o assunto, sem realmente discuti-lo, e ele parece sinceramente ofendido quando a garota sugere que ele nunca “dançou”. Moffat escreve a cena onde Rose tenta convencer o Time Lord a dar alguns passos de dança como uma metáfora da sedução que parece determinar como o protagonista encara o assunto. O Doutor tem mais de oitocentos anos, então já “dançou” algumas vezes, mas embora não se oponha ao ato, “dançar” claramente é algo totalmente terciário na vida dele, como fica claro quando o Time Lord rapidamente se distrai em sua dança com Rose.

O arco é dirigido por James Hawes em seu primeiro (e melhor) trabalho para a série. O diretor conduz bem as sequências de suspense e horror, usando com sabedoria a câmera subjetiva, e planos mais fechados para ampliar a tensão de determinadas cenas. O diretor também se vale do fato da história inteira se passar durante a noite para driblar o baixo orçamento do programa, e realmente consegue colocar o público dentro da Londres de 1941, através de um competente trabalho de fotografia e sonoplastia. Claro, a sequência que mostra Rose sobrevoando Londres pendurada em um dirigível, força um pouco os limites dos recursos técnicos da série, mas vale pela piada visual de ter a garota usando uma camiseta com a bandeira britânica no meio de um ataque aéreo alemão.

The Empty Child/The Doctor Dances é o tipo de história que se encerra deixando um sorriso no rosto do publico. Um arco que com muito suspense e bom humor, traz a maior vitória do Nono Doutor, a estreia de um importante personagem para a mitologia da Nova Série, e os primeiros roteiros assinados por um dos escritores mais importantes da história da série, em uma estreia que, parafraseando o Doutor de Eccleston é “Fantástica!”.

Doctor Who- 1X09 e 1X10. The Empty Child / The Doctor Dances (Reino Unido, 21 de Maio de 2005 / 28 de maio de 2005).
Direção: James Hawes
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, John Barrowman, Florence Hoath, Richard Wilson, Damien Samuels, Joseph Tremain.
Duração: 90 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.