Crítica | Doctor Who – 2X01: New Earth

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estrelas 4

Mais longe do que já fomos antes“. A primeira fala do Doutor neste episódio resume plenamente o significado da 2ª Temporada dentro da Nova Série de Doctor Who. Do mesmo modo, depois de uma história envolvendo versões assassinas do bom velhinho, uma árvore de Natal programada para matar ao som de Jingle Bell e um Time Lord sofrendo com a “Síndrome da Bela Adormecida”, New Earth funciona como um verdadeiro episódio de introdução para o Décimo Doutor ao dar um vislumbre das enormes possibilidades dessa nova fase do show.

Por uma ironia do destino (ou pela famosa restrição orçamentária), nenhuma das histórias até aqui se passaram fora da órbita da Terra. Por uma ironia ainda maior, o primeiro episódio a quebrar esse tabu tem como pano de fundo o planeta Nova Terra, ou mais especificamente a cidade de Nova Nova York, onde o serviço de saúde gerenciado por gatas antropomórficas parece avançado demais.

A tosqueira dos efeitos especiais, grande marca registrada de Doctor Who, continua presente, porém é louvável o esforço contínuo da produção para fazer o melhor com o baixíssimo orçamento, criando cenas visualmente agradáveis, como a visão panorâmica de Nova Nova York. A construção dos ambientes do episódio também merece destaque. Finalmente saímos do cenário de Estação Espacial/galpão da temporada passada e ganhamos algo novo. Por outro lado, não há apenas melhoras e alguns momentos continuam particularmente penosos de se assistir, como as cenas em câmera lenta da contaminação pelo toque dos doentes e seus efeitos especiais risíveis.

As referências à cultura pop são um dos pontos mais presentes no episódio. Passando por elementos menos evidentes como o nome de Nova Nova York, numa provável citação à famosa sitcom animada Futurama, e continuando com referências mais claras a Matrix e a filmes clássicos de zumbi, o episódio também faz homenagens à Série Clássica com diversas cenas semelhantes ao arco The Tomb of The Cybermen, além da referência visual das Irmãs da Plenitude que muito se assemelham com a aparência felina dos Cheetah People de Survival.

A atuação de David Tennant é simplesmente brilhante (não, não foi intencional). É notável a facilidade do ator em desenvolver uma nova personalidade para o Doutor em tão pouco tempo, a ponto de já demonstrar um enorme conforto logo em seu segundo episódio. Billie Piper está igualmente fantástica (agora sim foi intencional), conseguindo demonstrar sua evolução como atriz (não vamos esquecer que o trabalho em Doctor Who foi o primeiro grande trabalho da cantora na área da atuação) ao fugir de sua zona de conforto, algo já visto em Father’s Day e que seria bem mais recorrente nesta temporada.

New Earth traz ainda um importante debate social por meio da reflexão sobre a ética na utilização de animais em pesquisas científicas, usando de ironia na colocação de animais antropomórficos conduzindo os experimentos em cobaias humanas. Também é interessante constatar como o episódio dita o ritmo crítico da temporada, que tratará de temas como o machismo, o abuso doméstico, além de pincelar o debate sobre a escravidão.

Uma das melhores surpresas do roteiro foi o retorno de personagens de The End of The World, que garantem uma segurança maior para o espectador em meio às mudanças da série e colaboram muito para o sentimento de continuidade da história. Continuidade essa que se torna mais evidente no Rosto de Boe, personagem que vai ganhando cada vez mais importância até culminar em sua próxima aparição no episódio Gridlock.

Sem dúvida, o retorno mais comemorado é o da vilã Cassandra. A última humana ainda demonstra toda a presunção e o egocentrismo que a tornaram memorável; porém, o roteiro consegue torná-la muito mais simpática (graças, principalmente, à atuação de Billie Piper). A evolução no caráter da personagem por meio da pureza de sentimentos dos híbridos que ela tanto desprezava é tocante e, o final, com a personagem aceitando a morte e literalmente morrendo em seus próprios braços, consegue encerrar o episódio de uma maneira muito poética.

Assim como Rose estabeleceu a ideia geral de mistério e descobertas da 1ª Temporada, New Earth consegue lançar as bases para um novo ano cheio de desenvolvimento para os personagens e mudanças no ritmo da série, mantendo o espírito de unidade e renovação presente nos mais de 50 anos de Doctor Who.

Doctor Who – 2X01: New Earth (Reino Unido, 2006)
Showrunner:
Russel T. Davies
Direção: James Hawes
Roteiro: Russel T. Davies
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Camille Coduri, Noel Clarke, Zoë Wanamaker, Sean Gallagher, Doña Croll, Michael Fitzgerald, Lucy Robinson, Adjoa Andoh, Anna Hope, Simon Luders, Struan Rodger
Duração: 45 min.

DENILSON AMARAL . . . Whovian, potterhead, trekker em treinamento e nerd por maioria de votos. Assisto, leio e jogo o que o tempo permite e o que o orçamento possibilita, aliás, você já agradeceu à internet por permitir que você assista sua série favorita hoje? Nintendista de coração (mais especificamente o direito), adoro jogos antigos e seus pixels destacados. Sustos são legais, mas prefiro evitar o gênero terror. Na verdade, sou a segunda figura mais medrosa que você vai conhecer nesse universo (terceira se você contar o Scooby-doo). Não sou o melhor reviewer, mas me esforço para chegar lá, se quiser me acompanhar nessa empreitada, é só começar a ler.