Crítica | Doctor Who – 2X05 e 6: Rise of the Cybermen / The Age of Steel

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Depois do sucesso alcançado com o retorno dos Daleks na 1ª Temporada da Nova Série, Russell T. Davies já planejava um regresso de iguais proporções para os segundos vilões mais famosos da série. Para executar essa tarefa, o showrunner recorreu ao mesmo artifício utilizado com os saleiros, buscando inspiração nos audiodramas publicados pela Big Finish, mais especificamente em Spare Parts, uma história de Marc Platt que retrata a origem dos Cybermen no planeta Mondas. Para adequar as ideias da história ao seu conceito para a Nova Série, que primava pela retirada do excesso de bagagem trazido da versão clássica, T. Davies reutilizou conceitos vistos anteriormente no arco Inferno, ambientando a história em uma Terra paralela com versões alternativas dos personagens, e chamou Tom MacRae para escrever o roteiro que gira em torno de John Lumic, dono e fundador da gigante Cybus Industries, e um plano para o prolongamento de sua vida que acaba originando os Cybermen do universo paralelo onde o Doutor, Rose e Mickey acabam presos acidentalmente.

Um dos principais responsáveis pelo sucesso de Rise of the Cybermen e The Age of Steel está justamente na ideia de reboot que paira sobre os episódios. Tom MacRae e Russell T. Davies conseguem transmitir com imensa propriedade as mudanças sociais ocorridas desde a década de 60, substituindo os debates sobre órgãos artificiais por uma crítica à obsolescência programada e à obsessão da sociedade moderna no desenvolvimento e aprimoramento cada vez mais rápido de novas tecnologias. Em diversos momentos o roteiro faz uso da metalinguagem, criando cenas em que os personagens demonstram conhecimentos sobre ficção científica e universos paralelos, além de brincar com o conceito de universo paralelo, criando diversas reimaginações, como a presença dos zepelins, itens fortemente presentes nos mundos paralelos da cultura pop, e a substituição da figura de um primeiro-ministro por um presidente negro.

Durante os episódios, uma dos pontos mais presentes é o desenvolvimento de Mickey. De início, o autor estabelece uma ligação com Father’s Day, deixando claro que Rose teria um papel de destaque na história, porém o roteiro acaba seguindo de modo diferente, fazendo o público refletir por meio dos diálogos entre o Doutor e Rose sobre como Mickey tinha sido subexplorado e sobre como a própria série tinha menosprezado o personagem até aquele momento. A revelação do seu passado e de como ele ainda se culpava pela morte da avó junto com a evolução considerável que ele passa após presenciar a morte do seu eu paralelo acabam moldando o personagem para uma figura muito mais independente e segura de si.

Além do retorno de famosos inimigos, esses dois episódios marcam a volta de Graeme Harper, que já havia dirigido os arcos The Caves of Androzani e Revelation of the Daleks, o que faz dele o primeiro (e até o momento único) diretor a trabalhar em ambas as versões da série. Muito do primeiro episódio se deve ao trabalho primoroso de Harper, que opta por uma revelação gradual e uma forte associação dos ciborgues com o som de suas passadas, o que reforça mais a ideia de homogeneidade dos Cybermen. A qualidade na construção das cenas é sublime e o diretor consegue transmitir as mais diversas sensações, misturando o terror com humor negro na cena em que o Sr. Crane se sente incomodado pelos gritos das pessoas passando pelo processo de conversão e pede para tocar a faixa 19 com a música The Lion Sleeps Tonight para abafar o som ou ainda transformando o clima claustrofóbico dos túneis na cena emocionante em que o Doutor e a Sra. Moore descobrem a fraqueza dos Cybermen por meio de uma noiva moribunda que estava às vésperas de seu casamento.

Como é de se esperar, durante os episódios não faltam referências a histórias anteriores dos Cybermen: em momentos do primeiro episódio é possível ver a St Paul’s Cathedral, cenário icônico de The Invasion; o mesmo arco é mais tarde referenciado durante a cena em que mendigos são atraídos para um caminhão da International Eletromatics, empresa de forte participação na história de 1969; outra referência está na presença do aniversário de 40 anos de Jackie, que também serve como comemoração dos 40 anos dos Cybermen. Saindo um pouco do tema dos ciborgues, a primeira parte da história marca a estreia do terno do 10º Doutor, que estaria presente em outros eventos desastrosos nos episódios The Lazarus Experiment e Voyage of the Damned, além da primeira menção ao número adequado de pilotos para uma TARDIS, durante a cena do pouso forçado na Terra paralela.

Com um final emocionante e importantes pontes para o final da temporada, Rise of the Cybermen e The Age of Steel surgem como uma interessante proposta de recontar a origem de um dos mais antigos vilões de Doctor Who, nos entregando não apenas um importante capítulo para a série, mas uma triste e inesperada despedida de um importante personagem.

Doctor Who – 2X05 / 2X06: Rise of the Cybermen / The Age of Steel (Reino Unido, 2006)
Direção: Greame Harper
Roteiro: Tom MacRae
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Camille Coduri, Noel Clarke, Shaun Dingwall, Roger Lloyd-Pack, Andrew Hayden-Smith, Don Warrington, Mona Hammond, Helen Griffin, Colin Spaull, Paul Antony-Barber, Adam Shaw, Andrew Ufondo, Duncan Duff, Paul Kasey, Nicholas Briggs
Duração: 45 min

DENILSON AMARAL . . . Whovian, potterhead, trekker em treinamento e nerd por maioria de votos. Assisto, leio e jogo o que o tempo permite e o que o orçamento possibilita, aliás, você já agradeceu à internet por permitir que você assista sua série favorita hoje? Nintendista de coração (mais especificamente o direito), adoro jogos antigos e seus pixels destacados. Sustos são legais, mas prefiro evitar o gênero terror. Na verdade, sou a segunda figura mais medrosa que você vai conhecer nesse universo (terceira se você contar o Scooby-doo). Não sou o melhor reviewer, mas me esforço para chegar lá, se quiser me acompanhar nessa empreitada, é só começar a ler.