Crítica | Doctor Who – 2X10: Love & Monsters

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Nem sempre as demandas de episódios de Doctor Who condiziam com a realidade do cronograma da equipe. Nos primórdios da Série Clássica, era comum que o Doutor ou um companion fossem mantidos fora de cena por algum recurso de roteiro, para permitir que os atores tirassem férias ou realizassem outros trabalhos. Surpreendentemente, em 2006, a série voltou a enfrentar este tipo de problema. A agenda de David Tennant e Billie Piper tornava impraticável gravar os treze episódios encomendados e mais o Especial de Natal no tempo delimitado pela BBC. Para resolver o problema, o showrunner Russell T. Davies propôs que um episódio fosse narrado do ponto de vista de uma pessoa comum, com participação mínima do time da TARDIS, permitindo que a produção conseguisse gravar dois episódios ao mesmo tempo. O conceito chamado de Doctor-Lite se tornou uma tradição da série, e o próprio Davies ficou responsável por escrever este episódio, que se tornaria o polêmico Love & Monsters.

Na trama, Elton é um rapaz que quando criança teve um traumático encontro com o 10º Doutor, crescendo obcecado em descobrir a verdade sobre o misterioso homem. Após conhecer Ursula na Internet, uma mulher que também possui teorias conspiracionistas, Elton é apresentado aos amigos da moça e, juntos, formam o LINDA, um grupo de investigação que visa descobrir os mistérios envolvendo o Doutor. Os membros do LINDA tornam-se grandes amigos, mas essa amizade é ameaçada com a chegada do misterioso Victor Kennedy, que pretende usar o grupo para localizar o Time Lord.
Desde sua exibição original, Love & Monsters se tornou um episódio impopular, e não sem razão. Não é exagero afirmar que os principais defeitos da série estão todos concentrados aqui, como veremos mais à frente. Mas ainda assim, o episódio parte de uma premissa simples, bastante atraente, que é relativamente bem executada por metade da narrativa, antes que a bobagem envolvendo Victor Kennedy e o sumiço dos membros do LINDA afundem a história.

A história, narrada em primeira pessoa por Elton através de Voice Over e de trechos de um diário em vídeo, acerta no desenvolvimento do protagonista, bem defendido por Marc Warren, e na dinâmica do grupo LINDA. Todos os membros são, à sua maneira, pessoas muito solitárias, que enfim se sentem parte de algo. E não por que todos têm um objetivo em comum, já que logo discutir as teorias em relação ao Doutor torna-se apenas uma desculpa para que Elton e seus amigos se reúnam, até o ponto em que o Time Lord deixa de ser assunto das reuniões para dar lugar a outras discussões envolvendo problemas pessoais e mesmo a uma banda montada pelo grupo.

A amizade dos membros do LINDA reflete o interesse de Davies pela vida mundana de seus personagens, algo que ganha ainda mais destaque pela forma como o roteiro explora Jackie. A mãe de Rose ainda é uma personagem cômica e toda a sua interação com Elton, onde ele mentalmente planeja seduzi-la para extrair informações sobre Rose — só para ser surpreendido pela rápida investida da Sra. Tyler — é hilária. Ao mesmo tempo, a cena seguinte, onde vemos a personagem triste depois de receber uma ligação da filha, expõe a mesma solidão que pode ser percebida em Elton e seus amigos, o que dá a toda a sequência um significado maior, que vai além do potencial cômico. A participação de Jackie, embora pequena, é o melhor trabalho de Camille Coduri na série, equilibrando a natureza caricatural da personagem com a humanidade proposta pelo roteiro. A cena também é um ponto de virada para Elton, revelando o seu próprio caráter e de como a sua relação com as pessoas tornou-se mais importante do que descobrir qualquer coisa sobre o Doutor.

Quando está focado nestes aspectos mundanos, Love & Monsters traz ótimos momentos de comédia e trabalho de personagem digno de nota, mas quando Davies insere a figura de Victor Kennedy, disfarce que esconde o alienígena Absorbaloff, toda a estrutura do episódio desaba diante de uma série de conceitos visuais e narrativos equivocados, para dizer o mínimo. A partir deste trecho, o episódio comete praticamente todos os erros apontados pelos detratores da série. Está tudo lá: mortes de personagens que são contornadas por uma espécie de sobrevida, Deus Ex Machina (concentrados principalmente na figura da Chave de Fenda Sônica), vilões com planos absurdos e efeitos especiais e maquiagem risíveis. Nada disso seria necessariamente um problema se o roteiro soubesse lidar com tudo. Mas não é o caso.

Embora a comédia esteja presente em todo o roteiro, a morte/absorção de cada membro do LINDA ser tratada como uma piada recorrente não só afeta a lógica interna da narrativa — já que nenhum dos outros personagens parece perceber que todos que ficam para ter uma conversa com Kennedy, somem –, como também não se comunica com a parte inicial da trama. Se o público deve rir da morte dessas pessoas, por que passar tanto tempo desenvolvendo-as como grupo? Tal escolha poderia até ser relevada se o clímax não levasse o humor em cima da tragédia do LINDA para uma direção ainda mais patética. Era necessário botar o rosto de Bliss no traseiro do Absorbaloff? Isso pra não falar do destino final de Ursula, reduzida a um rosto em um pedaço de concreto vivendo no quarto de Elton. Mais uma vez, essa passagem final do episódio poderia ser relevada, se observada com um olhar mais inocente, mas o roteiro destrói qualquer possibilidade disso, ao sugerir sem espaço para dúvidas que Elton e Ursula praticam constantemente sexo oral. Como tudo na segunda parte do episódio, a redução de Ursula a essa condição absolutamente dependente de Elton é tratada como uma piada, o que não condiz com todo o esforço criado anteriormente para que tivéssemos empatia pela moça.

O vilão da trama também traz uma série de problemas, começando pelo seu plano. Ao longo dos anos, aceitamos planos bastante mirabolantes dos vilões da série, mas o plano do Absorbaloff ultrapassa o limite do aceitável. Por que uma banda de porão seria realmente de alguma ajuda pra localizar o Doutor? O visual do personagem é lamentável, e foi literalmente feito por uma criança de nove anos de idade, em uma competição de desenho de um programa infantil da BBC, cujo vencedor teria o monstro que criou transposto para as telas em Doctor Who. Talvez funcionasse no papel, mas decididamente não em live action, resultando em um monstro de visual genérico, barato e bastante ridículo pelos rostos das vítimas mal distribuídos pelo corpo. A atuação mega afetada de Peter Kay como o Absorbaloff — com direito a língua de fora e risada maléfica — também não ajuda o personagem, que não funciona nem como monstro assustador e nem como ameaça cômica.

Love & Monsters revela-se um episódio de extremos. Quando se concentra nas interações humanas, pessoas normais cujas vidas são afetadas apenas colateralmente pelo mundo fantástico do Doutor, temos uma história delicada com um humor delicioso, calcado na ironia e na inocência de seus personagens. Mas quando se entrega a um humor bobalhão, com elementos de sci-fi bagaceiro, leva Doctor Who a alguns dos níveis mais baixos já alcançados em sua história. Essa dicotomia acaba concedendo ao primeiro Doctor Lite da Nova Série uma posição interessante na história do programa. Apesar de ser facilmente encontrado em qualquer lista de piores episódios da história do show, Love & Monsters não é só um episódio ruim que o público odeia. É um episódio ruim que as pessoas amam odiar. É um desastre, mas aquele desastre ao qual não se pode ficar indiferente, o que deve querer dizer alguma coisa.

Doctor Who- 2×10. Love & Monsters (Reino Unido, 17 de Junho de 2006).
Direção: Dan Zeff
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Camille Coduri, Peter Kay, Mark Warren, Shirley Henderson, Simon Greenall, Moya Brady, Kathryn Drisdale.
Duração: 45 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.