Crítica | Doctor Who – 8ª Temporada (2014)

estrelas 5,0

Spoilers, sweetie

A oitava temporada de Doctor Who trouxe não apenas a mudança de um Doutor, em sua mais nova encarnação, como dezenas de aperfeiçoamentos em nível técnico, uma nova abertura e um tom completamente diferente para a história. O surpreendente é como, ao contrário da mudança do décimo para o décimo primeiro, menos de um ano se passou. De The Time of the Doctor para Deep Breath, episódio de abertura da Era Capaldi uma nítida evolução tomou conta da série, refletindo um avanço similar àquele visto na transição ocorrida em 2010 com a troca de showrunners. Mas nem todos, é claro, ficaram felizes com a mudança de um jovem senhor do tempo para um velho rabugento.

Alfinetando justamente tais pessoas, Steven Moffat nos traz um capítulo inicial que procura lidar com a mudança física do protagonista, um episódio sobre máscaras e nosso “eu” interior. Here we go again diz Madame Vastra em uma evidente referência ao Brigadeiro Lethbridge-Stewart, que dissera o mesmo em Planet of the Spiders, que marcou a mudança do Terceiro para o Quarto, apenas evidenciando sua casualidade em relação à metamorfose do Doutor. Enquanto Clara Oswald, representando a comunidade whovian ainda ligada a Matt Smith, se recusa a acreditar que aquele se trata de seu amigo de longa data. A temporada, então, progride e esse questionamento inicial adquire mais profundidade, ganhando forma logo em Into the Dalek.

Am I a good man?

A indagação do Time Lord para Clara define toda a linha narrativa da temporada. Transforma essa viagem pelo tempo-espaço em uma jornada de autodescobrimento, autoafirmação. Moffat, é claro, não deixa fácil para o espectador e a cada capítulo nos faz realizar o mesmo questionamento. Vemos um Doutor, aparentemente, mais frio, que não hesita em sacrificar algumas vidas para salvar outras. Falamos, naturalmente, de uma encarnação resultante de uma longa guerra em Trenzalore, mas será que a própria constituição do protagonista teria se alterado? A resposta é um não gradual. Capaldi garante o intimismo da temporada com sutis demonstrações de desconforto, melancolia a cada vida deixada para trás. Ele, sim, é o mesmo Doutor e mais que nunca ele deve estar pronto para escolher entre apenas escolhas ruins.

Esse é o fio que garante a coesão de uma temporada sem episódios duplos (à exceção do finale), gerando uma linha narrativa que constrói não uma grande trama por trás de tudo (sim, temos Missy e chegaremos nela em breve), mas personagens. Temos a elaboração da relação entre Oswald e Pink, do próprio Doutor, que custa um ano inteiro para se reencontrar e, é claro, de sua postura em relação ao universo, algo que, evidentemente irá transbordar para a nona temporada. Dessa forma podemos dizer que, sob o comando de Moffat, este é o ano mais “controlado” de Doctor Who. E mesmo o finale não peca pelo exagero, trazendo uma experiência que não busca o fantástico e sim o desesperador, o desconforto do espectador diante de seu tom sombrio.

E tal encerramento, marcado pelo único duplo da temporada – Dark Water e Death in Heaven – é cuidadosamente construído ao longo do ano. Missy, que já aparece desde Deep Breath é uma vilã formidável e suas intenções perfeitamente se encaixam com o leit motif estabelecido desde a abertura. Vejam como ela não pretende destruir o mundo, ou dominá-lo e sim entregar um exército nas mãos de seu velho amigo/ inimigo. Com esse twist, o showrunner une todas as peças cuidadosamente posicionadas em seu tabuleiro, fazendo dessa uma temporada que ganha perspectivas completamente diferentes se assistida em um curto período de tempo ou ao longo de inúmeras semanas e que, portanto, merece ser vista, ao menos, duas vezes.

Evidentemente o sucesso de tal estratégia é fortemente dependente no elenco principal e Jenna Coleman, ao lado de Peter, dá um verdadeiro show de interpretação, nos fazendo sentir cada briga, indignação e estupefação. Do encontro com Robin Hood ao conflito em Kill the Moon sentimos uma verdadeira entrega dos atores ao ponto de suas dúvidas, hesitações e acessos de fúria se tornarem os nossos próximos. E o humor de Capaldi se destaca pela forma rabugenta como o Doutor é encarnado, sempre reclamando de algo ou sendo completamente intransigente, como em The Caretaker (soldados não podem ser professores de matemática). Um ano que efetivamente nos aproxima de cada personagem e que nos faz querer ver mais de suas interações do que paisagens exóticas e planetas misteriosos. E por trás de tudo, o fúnebre caminhar da morte que parece acompanhar o Doutor onde quer que ele esteja.

Criativas decupagens, ainda garantem identidades únicas a cada episódio, e não um trabalho pasteurizado, como se cada capítulo representasse uma visão de um diferente diretor sobre Doctor Who. Basta pegarmos para análise as cenas iniciais de cada um, comparemos os súbitos Listen com o start the clock de Mummy on the Orient Express com o nervosismo romântico de Dark Water (que se transformaria logo após em tragédia) ou com a urgência de Flatline. Essas diferenças permitem uma bem-vinda pluralidade à série, que irradia também das problemáticas escolhidas, uma muito diferente da outra, não se resumindo apenas a uma invasão alienígena ou à Tardis indo parar onde não deveria (ou, sim, deveria). Narrativas bastante diferentes umas das outras – quem esperava um roubo a um banco, como em Time Heist? – tiram o espectador do lugar comum e trazem o deslumbramento necessário a cada semana ao mesmo tempo que mantém o ritmo que leva ao arco final. Ritmo este que, infelizmente, sofre pequeno abalo por In the Forest of the Night, capítulo que, evidentemente, teria sido melhor posicionado no início do ano, antes de nos aprofundarmos na escuridão que marcaria Death in Heaven.

Preenchendo todo esse cenário, garantindo uma liga a esses bem posicionados tijolos, temos a trilha do infalível Murray Gold, que já acerta no tema de abertura ao se apoiar fortemente na série clássica em conjunto do badalar do relógio, metaforizando a chegada da meia-noite (ou meio-dia), a décima segunda hora por assim dizer. A Good Man, nova melodia do Doutor é especialmente cativante, trazendo todo o heroísmo inerente ao personagem, que perfeitamente assume o palco central em diversos episódios, coroando muitos dos clímax e, em segundo plano, respondendo a pergunta feita em Into the Dalek.

Com todos esses acertos e um pequeno deslize, a oitava temporada de Doctor Who facilmente se classifica como uma das melhores de toda a série, trazendo uma coesão única que prefere explorar seus personagens a tramas intrincadas, complexas ou confusas. Essa é uma temporada sobre o Doutor, sobre quem ele é e o que ele deve fazer e Peter Capaldi acerta em cheio em sua representação que em muito se apóia naquela de Jon Pertwee. Agora, se não gostou deste ano, siga meu conselho e assista tudo novamente o mais rápido possível, eu certamente apostaria na sua mudança de perspectiva.

Doctor Who – 8ª Temporada (Reino Unido, 2014)
Showrunner:
Steven Moffat
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Samuel Anderson, Michelle Gomez, Tom Riley, Neve McIntosh, Dan Starkey, Catrin Stewart, Joivan Wade, Chris Addison, Ingrid Oliver, Jemma Redgrave
Duração: 60 min (Deep Breath) entre 43 e 46 (os demais)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.