Crítica | Doctor Who 8X02: Into the Dalek

estrelas 5,0

SPOILERS!

Se você gostaria de entender melhor os elementos da conquista galáctica empreendida pelos Daleks, o seu processo de criação até a manufatura de naves espaciais e complemento ou alternativa ao que foi trabalhado nas duas fases de Doctor Who, sugerimos a leitura dos artigos abaixo.

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Futuro distante. Uma guerra está em curso. Os Daleks lutam para invadir a nossa Galáxia e as Galáxias em torno. A Combined Galactic Resistance, uma aliança encabeçada pelos humanos, é a linha de frente na luta contra os vilões. A ex-nave-hospital Aristóteles está escondida atrás de um meteoro e é para lá que o 12º Doutor leva Journey Blue, após salvá-la de uma explosão. O melhor episódio com os Daleks desde 2005 tem aí o seu potente início.

Dirigido pelo dinâmico Ben Wheatley (Deep Breath) e escrito por Phil Ford (The Waters of Mars) e Steven Moffat, Into the Dalek adiciona mais alguns degraus na escalada para uma promissora 8ª Temporada épica. O roteiro parte de uma ideia bastante curiosa para a presença dos vilões, mas a conquista espacial que citei no início é apenas uma premissa para um caminho completamente diferente. O foco central da trama é ampliar a discussão sobre quem é o Doutor (elemento apresentado de forma metalinguística em Deep Breath) e nos entregar pequenas pistas sobre o que é possível esperar deste ano do show, algo que, se mantido, será uma das poucas verdades que Steven Moffat já revelou em entrevistas sobre o curso de seus planos para a série: estamos diante de um novo Doctor Who (e sim, há uma implicação dual nessa frase).
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Aristóteles

A escolha para o nome da ex-nave-hospital não foi gratuito. O roteiro brinca com a ideia-base da filosofia aristotélica, que é o impulso que o “ser” tem em desvendar os mistérios do Universo após superar o assombro diante de perguntas sem resposta. Essa, inclusive, é a atitude do Doutor e acaba se tornando a atitude do Dalek Rusty após ser lincado à mente do Time Lord (há vislumbres de Nightmare in Silver aqui).

Se nos perguntarmos qual é o ponto fundamental do estudo do conhecimento humano (gnosiologia) em Aristóteles, teríamos uma resposta angular para o que defendemos aqui: o “ser”.

E avida? — alguns perguntariam. Bem, para Aristóteles, a vida sem o ser/essência, é apenas uma forma oca, portanto, não é o que de fato importa.

Ora, não é exatamente a frieza e indiferença do Doutor frente a morte de Ross e Gretchen — o descartar da vida para se chegar a uma vitória do “ser”: “Ele já estava morto, eu estava apenas nos salvando!” — que faz com que a essência dele e de Rusty, Clara, Blue e Morgan venha à tona? A vida, nesse episódio, é um brinquedo frágil desimportante e o novo Doutor lida muito bem com isso porque ele não vê mais as coisas com um quê de paixão inocente. Ele amadureceu.

Não podemos nos esquecer que entre o 11º Doutor (cerca de 900 anos) e o 12º Doutor (cerca de 2000 anos) temos um longo salto de tempo – pós eventos em Trenzalore –. Estamos falando agora de um homem de dois milênios de vida, que teve muito tempo para pensar e que, após séculos defendendo um planeta, adotou uma linha de autorreflexão que procura entender o que ele é (“Clara, seja minha companheira e me diga: eu sou um homem bom?”) e a essência de tudo à sua volta. Nós tivemos um episódio inteiro para comprovar isso no plano físico simples (Deep Breath) e outro para comprar isso no plano ético-moral (Into the Dalek).

A Dalek so damaged it’s turned good. Morality as malfunction. How could I resist?
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Transtorno de Estresse Pós-traumático

Após o meta-episódio de abertura da temporada, Ben Wheatley se viu livre para dar vida a um capítulo ágil e perfeitamente bem fechado. Contando com a precisa montagem de William Oswald (que imprime um ritmo sensacional nas batalhas contra os Daleks, dentro ou fora da Aristóteles), o diretor faz um jogo dinâmico na exibição dos blocos narrativos, brincando com um ciclo de ação paralela e alinear, esta última, destinada à apresentação do ex-soldado e professor Danny Pink, colega de trabalho de Clara Oswald na Coal Hill School.

Eu não consigo segurar a minha alegria ao ver a atmosfera dos tempos de Ian e Barbara voltando à série. Como parte da reformulação conceitual prometida, percebemos um inteligente retorno à Era Clássica e a valorização de elementos da Nova Série, um cerco à mitologia do programa jamais visto nas produções regulares pós-2005 (fora delas, citamos o pacote de celebração do aniversário de 50 anos).

A apresentação de Danny Pink já surge com um ponto crítico. O Doutor não gosta de soldados – ele rejeitou Journey Blue por esse motivo – e sabemos por anúncio da BBC que Mr. Pink (Tarantino gostou disso) será o novo companion. Há até uma piadinha latente sobre isso no diálogo final entre ele e Clara.

Mas para além da “regra contra soldados/militares” do Doutor (Sara Kingdom, Ben Jackson, Brigadeiro Lethbridge-Stewart, Jack Harkness mandaram lembranças!) temos em Mr. Pink um mistério. Ele sofre de estresse pós-traumático (a ponto de chorar na frente de uma sala cheia de alunos ao ser questionado sobre “matar alguém que não seja um soldado”) e vê no “militarismo moderno” um aspecto moral. Isso não soa algum sino na cabeça de vocês? E, por favor, não se esqueçam o que o glorioso Peter Capaldi disse como resumo da série por ocasião de sua vinda ao Brasil: não confie em ninguém.

Parágrafo de especulações: Um ponto curioso a ser destacado (e talvez a relação não seja direta, mas ela existe) é que o professor Pink é apresentado a Clara como um “lady killer” (conquistador) o que se mostra uma verdadeira mentira já que ele mal consegue manter um diálogo básico com a colega de profissão. Fica a pergunta: o roteiro está nos indicando que o moço é, literalmente, um “lady killer” (assassino de mulher)? E, levando em consideração que a misteriosa Missy está no Paraíso, seria ela uma de suas vítimas? Outro ponto interessante é que Mr. Pink é um professor de matemática que passa o final de semana lendo e que recusa a sair com uma garota porque tem “livros pra ler”. Nem Clara, que é professora de Literatura Inglesa lê tanto! Será que tem coisa aí?

I was a soldier. There were other soldiers and some of them weren’t on our side. I’ll leave the rest to your imagination.
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I am not a good Dalek. You are a good Dalek

Além da acertada e ágil direção e de um roteiro deliciosamente clássico, tivemos aqui um primor no uso dos efeitos especiais em favor da história, delineando melhor o texto e nos ajudando a construir uma teia de ligações com outros episódios e arcos da série.

O primeiro exemplo é o conceito de diminuição dos personagens para entrarem no Dalek. Estava claro que dois caminhos deveriam ser seguidos visualmente, o primeiro, a sensação de claustrofobia (que nos remete ao ambiente de Journey to the Centre of the TARDIS), o segundo, as questões morais implícitas nessa missão de ajudar um Dalek contaminado por radiação, ver o plano falhar, aprender uma lição após um bom tapa na cara e dar-se conta de que não se conhece a si mesmo. O aprendizado surgido daí é ainda mais denso do que aquele visto em The Day of the Doctor, mas, surpresa surpresa, o ponto de partida é exatamente o mesmo: Clara empurra o Doutor para pensar certo. Mais uma vez ela é o ponto de partida para a salvação do dia. E, finalmente, vemos um novo rumo dramático surgir para sua personagem após os eventos de The Name of the Doctor.

Junto a isso, temos vislumbres exemplares de diversos momentos em que vimos miniaturas em DW, começando na Série Clássica com Planet of Giants, The Invisible Enemy e Carnival of Monsters e seguindo até a Nova Série com Let’s Kill Hitler e The Wedding of River Song. Aliás, existe uma boa lembrança da dinâmica do Teselecta nesse episódio.

Fantastic idea for a movie. Terrible idea for a proctologist.

12º Doutor, aludindo ao filme Viagem Fantástica, de 1966.

Dentro do Dalek, o Doutor encontra um “poço de meleca orgânica” igual ao da baleia espacial em The Beast Bellow, e as referências não param por aí. No diálogo com Rusty (um nome carinhoso que segue o caminho do 11º Doutor ao batizar a cabeça de um Cybermen de Handles), temos um retorno de imagens do final da 4ª Temporada e lembranças da primeira visita do Time Lord a Skaro em The Daleks. Até o trato do 12º Doutor com Rusty lembra o “Fator Humano” que o 2º Doutor tentou aplicar aos vilões em The Evil of the Daleks.

O ponto alto aqui pode ser observado na comparação com o episódio Dalek, do 9º Doutor. Definitivamente, a parte mais tocante e moralmente importante do episódio, algo que faz todo o roteiro ter sentido (pois fecha ciclo) e nos faz entender a crise de identidade ou de reeducação do gallifreyano nessa nova encarnação.
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You’re not my boss, you’re one of my hobbies

Com um excelente uso dos 45 minutos, concepção inovadora para a presença dos Daleks (sem rebater na tecla do “vamos invadir tudo, é tudo nosso”) e precisa direção de Ben Wheatley, Into the Dalek marcou o definitivo início do 12º Doutor à ação. Após a sua adaptação ao novo corpo em Deep Breath, era hora de vermos uma aventura não-meta e fico realmente contente em observar que isso aconteceu e que pelo menos até agora tivemos a presença de componentes da mitologia da série sem a ausência de novas criações. É fácil perceber que há uma tese sendo construída e ela vai além de Missy, que, aliás, volta a aparecer no episódio, salvando Gretchen exatamente do modo como o Doutor salvou Blue: segundos antes da morte.

Essa salvação de última hora talvez reacenda a ideia de que o Paraíso é uma TARDIS e nos mostra uma novidade: Missy não está “recrutando” apenas pessoas/seres do lado negro da força. Outro ponto a ser levado em consideração é que até agora, ela teve contato com duas pessoas que morreram e, em ambos os casos, pessoas que morreram na presença do Doutor. O que isso significa? Pelo amor de Rassilon, quem é essa mulher?

Para finalizar, quero destacar o importante papel da fotografia na criação dos cenários emotivos dentro do Dalek (destaque para os simbólicos usos do azul, vermelho e verde), e da direção de arte em espalhar rabiscos, quadros, anotações e elementos misteriosos em boa parte dos cenários, com destaque para a lousa rabiscada dentro da TARDIS e os painéis dentro da sala de matemática do Mr. Pink. E também não podemos esquecer das inúmeras fotos de Roma vistas em um dos painéis da Coal Hill School. Será que uma outra cidade italiana pode ser a próxima parada?

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Em tempo: em Doctor Who Extra 1X02, vemos mais um exemplo do quão Capaldi é fã e adorador da série. Na entrevista, ele comenta que a gravação de suas cenas seriam apenas no meio da tarde, mas ele fez questão de chegar no set de filmagens no início da manhã para acompanhar todas as sequências de batalha entre o pessoal da nave Aristóteles e os Daleks. Esse Doutor não é simplesmente incrível?

Doctor Who 8X02: Into the Dalek (Reino Unido, 2014)
Direção: Ben Wheatley
Roteiro: Phil Ford (baseado em uma ideia de Steven Moffat).
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Samuel Anderson
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.