Crítica | Doctor Who 8X04: Listen

estrelas 4

  • Ouça o nosso podcast sobre Listen.

Se você viu Listen apenas uma vez, eu sugiro que separe mais 45 minutos do seu tempo para vê-lo novamente. O episódio é mais um labirinto de explodir mentes escrito por Steven Moffat e, nas palavras do próprio amado e odiado showrunner, quis mostrar algo que o Doutor cria quando ele não está fazendo nada.

A história tem uma excelente concepção e adota um ótimo caminho se a olharmos em blocos distintos, mas acaba perdendo-se nos meandros narrativos do roteirista. Particularmente vi uma construção textual muitíssimo semelhante à de Blink, e creio que foi justamente aí que Moffat encontrou pedras no caminho. No primeiro caso, ele tinha o 10º Doutor e Martha distantes da ação principal, o que não acontece com o 12º Doutor e Clara em Listen. Se fosse um episódio de 60 min., talvez o tsunami de informações fosse aliviado e o autor tivesse deixado menos pontas soltas e recuado nas reticências, duas coisas que embora não sirvam para tornar o episódio ruim (longe disso, Listen é um episódio muito bom!), tira-lhe muito do brilho.
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Question!

A premissa de Listen é algo que pode nos fazer gostar ou não do episódio. O espectador precisa ter em mente que todo o drama do “bicho papão em baixo da cama” é um medo antigo do Doutor. Ele está sozinho na TARDIS e se reencontra com esse medo. Então começa a se fazer perguntas e teorizar a respeito. O próximo passo é procurar em livros os registros que corroborem sua visão desse medo, dessa possível ‘criatura’ com quem falamos quando estamos sozinhos ou que nos assusta à noite. Insatisfeito com o resultado de suas fontes, o Doutor resolve procurar Clara (aumentando ainda mais a lista de “lugares apertados para se materializar a TARDIS). A ideia era que a companion o levasse até um dia de pesadelo em sua infância e ele então pudesse ver o que havia debaixo da cama dela.

Mas as coisas não saem exatamente como esperado.

Levando pelo ponto de vista estritamente literário, Listen é um episódio que estampa bem a qualidade de “falso-simples”. Entendida sua premissa, tudo se torna [aparentemente] límpido. Os meandros só aparecem quando a relação entre passado, presente e futuro emergem na tela e algumas confusões – sobre as quais falaremos por muito tempo – são plantadas em nossa mente.

Moffat então conseguiu fazer um episódio poderoso, mas que, curiosamente, só ganha verdadeira força pela sua surpresa final. Não que o roteiro para o restante tenha sido mal escrito, mas porque ele divide o enredo em esquetes bem distintos de ação e, convenhamos, não dá a devida importância a todos eles.
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Once upon a time.. The End

Levando em consideração o propósito desta temporada (já comentado em Into the Dalek e na estreia do nosso podcast), Listen cumpre muitíssimo bem o seu papel de reencontro do Doutor consigo mesmo e novo entendimento do mundo à sua volta. Chegamos a mais uma camada de autodescoberta do Doutor e conhecemos um ponto traumático de seu passado, o pesadelo decisivo de sua infância. Esse acontecimento o acompanhou durante toda a vida e até a frase “Fear makes companions of us all”, dita aqui em Listen, vem de An Unearthly Child, o primeiro arco do 1º Doutor, mostrando-nos um longo ciclo de medo e reflexão sobre o que é temer algo que não se vê.

O diretor Douglas Mackinnon dá instigante vida ao roteiro de Moffat, mas faz pouca coisa para compensar técnica ou esteticamente as vazões do roteiro — e não digo isso como cobrança de respostas imediatas, até porque muita coisa posta aqui faz parte da linha de mistérios da temporada — mas no sentido de não deixar tudo para o público lidar sozinho. Essa entrega de interpretação inteiramente ao bel prazer dos espectadores tem se revelado um incômodo perigo em Doctor Who desde a 4ª Temporada da Nova Série.

Mas se a direção dá as mãos ao enigma do roteiro, o mesmo não acontece com a fotografia de Suzie Lavelle (responsável pelo excelente trabalho visual de Cold War). Sua iluminação e modelo de trabalho imagético são soberbos, ajudando a criar a atmosfera de terror psicológico pretendida pelo texto e com momentos verdadeiramente inspirados, com destaque para o restaurante onde Clara e Danny se encontram; o quarto de Rupert Pink; a nave de Orson Pink e todas as tomadas dentro da TARDIS. Meu único impasse com o trabalho da fotógrafa foi a pouca inventividade na reveladora sequência do celeiro, um problema também observado na edição de Selina Macarthur (que volta à série depois de Journey to the Centre of the TARDIS).
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Fear can make you kind

Após todos os forninhos caírem na cabeça do fandom de Doctor Who, veio o vazio existencial das especulações, não aquelas saudáveis e normalmente misteriosas feitas em episódios como Deep Breath ou Robot of Sherwood, por exemplo, mas especulações de ordem estrutural, nas quais, como já disse, vejo o elo fraco deste episódio. Por mais divertido e animador que seja especular, algumas dessas questões podem não ser respondidas ou serem completamente pisoteadas no futuro, o que nos deixa um pouco em alerta para o que está por vir.

Aprendemos em Listen que o Doutor tem medo do escuro, que ele sempre teve o medo como companion e que é um soldado sem armas (algo justificável depois da Time War e sua versão guerreira). A comparação com o bonequinho de Rupert Pink é imediata e fica a pergunta: onde estará o tal bonequinho, já que Clara deu de presente a ele, por ocasião de sua visita ao celeiro?

Também nos fica a eterna pergunta: afinal, havia ou não havia um monstro debaixo do cobertor, no quarto de Rubert? Algumas fotos circularam na internet mostrando que era um Sontaran embaixo do cobertor (lembram-se que ele o tira por alguns segundos?). Se forçarmos um pouco a barra é até possível aceitar que seja um Sontaran mesmo. O Doutor, quando acorda, profere uma frase de sua 4ª encarnação (Sontarans perverting the course of human history) e, considerando todo o lance de Dan, o soldado, talvez possamos atribuir o treinamento de Rupert/Danny Pink a um Sontaran, que é uma raça guerreira por excelência.

As outras formas de olharmos o monstro é que na verdade não havia monstro algum, que era só uma imaginação coletiva do Doutor, Clara e Rupert. Ou que era uma criança do orfanato. Ou ainda, um outro tipo de monstro que jamais saberemos. Ou que só saberemos no futuro. Percebam que, por mais coadjuvantes que sejam esses detalhes, se levarmos em consideração a construção do episódio, tais interrogações servem como uma rachadura de qualidade.

Moffat prova mais uma vez que pode acender debates calorosos e nos mostrar pontos de vista e medos da forma mais criativa e instigante possível. Mesmo que tenha se desequilibrado ao arquitetar a trama de Listen, ele sem dúvida contribui para tornar a 8ª Temporada de Doctor Who ainda mais interessante e dar ainda mais importância à sensacional Clara [Boss]wald, cuja timeline alterada pelo Doutor passa a ser, novamente, objeto de especulações.

Doctor Who 8X04: Listen (Reino Unido, 2014)
Direção: Douglas Mackinnon
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Samuel Anderson, Robert Goodman
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.