Crítica | Doctor Who 8X05: Time Heist

estrelas 4

Que tipo de produção teríamos se misturássemos 11 Homens e um Segredo e 2001: Uma Odisseia no Espaço? A resposta a essa pergunta está no episódio Time Heist, a terceira contribuição de Steve Thompson para Doctor Who (as outras duas foram The Curse of the Black Spot e Journey to the Centre of the TARDIS).

Nesta história, o Doutor e Clara se tornam ladrões do banco mais seguro – e mortal – do Universo, o Banco Karabraxos. Usando os vermes de memória (aqueles que apareceram em The Snowmen), um misterioso homem denominado “O Arquiteto” criou um intricado plano de roubo que envolverá não só o Doutor e sua companion mas outros dois parceiros de crime: Psi, um cyber-humano, e Saibra, uma metamorfa.

Douglas Mackinnon assina a direção do episódio, e seu trabalho muda completamente em relação a Listen, especialmente no que diz respeito à montagem interna das cenas, o que obviamente gera um problema de ritmo. Mesmo que não seja algo absurdamente grave, sentimos isso de forma bastante forte nas pontas do episódio, exatamente porque há coisas demais para serem trabalhadas e Steven Moffat disse “não” aos arcos de dois episódios antes do finale.

Assim, temos blocos com cenas bastante longas para o padrão geral e outros com cortes abruptos e transições que nos saturam tão rapidamente de cenários maravilhosos (os efeitos especiais e desenho de produção são louváveis) que acabamos por esquecer o problema e aceitar o andamento das coisas como são.
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Basically, it’s the eyebrows

O roteiro de Time Heist é bastante fluído e move linhas temporais de maneira orgânica e bem-humorada, conseguindo deixar claro para o público não só a independência louvável do capítulo em relação aos seus pares mas também sua importância como componente da linha narrativa da temporada, mesmo que seus seus segredos, por enquanto, sejam apenas isto mesmo. Segredos.

O mistério da mulher que deu o telefone da TARDIS para Clara vem novamente à tona e, desta feita, com um plano de fundo intrigante. Algumas pessoas suspeitam de Madame Karabraxos, mas convenhamos que se ela fosse a “mulher da loja”, Clara certamente se lembraria quando a visse. A não ser que se trate de uma Time Lady regenerada ou alguém que se disfarça muito bem.

Nessa linha de relações e posturas pessoais, temos algo muito importante a ser destacado: pela primeira vez em muito tempo – ao menos na série regular – o Doutor é o motor central da intriga a ser resolvida, e eu vejo isso de duas formas em Time Heist, a primeira, como uma proposta maravilhosa do roteiro (o Doutor é o vilão e o herói no sentido de movimentação da trama); e a segunda, como uma queima desnecessária de cartucho da parte dos roteiristas, que poderiam muito bem deixar “O Arquiteto” como um personagem misterioso.

Com Peter Capaldi dominando o texto e a temporada em alto estilo, o episódio ganhou duas boas linhas de ação, com direito a vários “calem a boca”, provocações do tipo “depois do que acontecer aqui procure um ombro pra chorar, mas agora você precisa de mim” e uma ótima química entre o Doutor e Clara (cada vez mais impagáveis juntos) e claro, os simpáticos e maravilhosos Psi e Saibra, personagens que espero ver regularmente na série, muito mais do que a Paternoster Gang, de quem gosto muito mas que agora ganharam concorrentes absurdamente mais interessantes.

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Big scarf. Bow tie. Bit embarrassing

Em termos conceituais, há uma coisa em Time Heist que pode dar uma impressão errada, confundir ou irritar a um espectador desatento ou ignorante em relação à amplitude de Dcotor Who e seus spin-offs: o quadro de vilões e ladrões de banco que Psi escaneia para sua memória a fim de atrair o the Teller, a nova e sensacional criatura telepática da série. Na cena em questão, vemos aparecer a seguinte lista de personagens do Universo Who (e vejam o quão divina está a ligação desta 8ª Temporada não apenas com a Série Clássica mas com todo o universo expandido):

a) Sensorite, do arco de mesmo nome, criatura prima dos Oods e que não é um vilão – era o 1º Doutor;

b) Androvax, dos arcos Prisoner of the Judoon e The Vault of Secrets, da série The Sarah Jane Adventures;

c) Gunslinger, do episódio A Town Called Mercy, e que também não é necessariamente um vilão – era do 11º Doutor;

d) Terileptil, do arco The Visitation – era do 5º Doutor;

e) John Hart, parceiro em vários sentidos de Jack Harkness na 2ª Temporada de Torchwood;

f) Abslom Daak, sensacional e complexo personagem dos quadrinhos que aparece pela primeira vez em Abslom Daak… Dalek Killer e que encontra o 7º Doutor pela primeira vez em Nemesis of the Daleks;

g) Skaldak, o Ice Warrior que aparece em Cold War – era do 11º Doutor;

h) uma família de Slitheens – surgem na era do 9º Doutor;

i) Weevil, os terríveis vilões que surgem na 1ª Temporada de Torchwood;

j) The Trickster, o alien extra-dimensional que pertence ao Panteão da Discórdia e aparece pela primeira vez na 1ª Temporada de The Sarah Jane Adventures.

As referências são ótimas e canonizam (aplausos!) um ótimo personagem dos quadrinhos da série, além de trazer oficialmente para DW vilões originais de SJA e TW. Além disso, somos presenteados com duas bem humoradas e angustiantes (pelo momento em que aparecem) citações ao cachecol do 4º Doutor e à gravata borboleta do 11º Doutor, mais dois itens para a grande lista de meta-valorização do show neste ano.

Time Heist é o tipo de eficiente “episódio de ligação” com um roteiro sem muitos meandros e com visíveis ingredientes a serem recolhidos ao longo da temporada. Mesmo com tropeços na montagem e uma lombada aqui e ali no roteiro, trata-se de um bom capítulo, mais um ponto positivo para o orgulho dos whovians em relação a este 8º ano do show.

Doctor Who 8X05: Time Heist (Reino Unido, 2014)
Direção: Douglas Mackinnon
Roteiro: Steve Thompson, Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Jonathan Bailey, Pippa Bennett-Warner, Keeley Hawes, Mark Ebulue, Trevor Sellers, Junior Laniyan, Ross Mullan
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.