Crítica | Doctor Who 8X07: Kill the Moon

estrelas 4,5

Um dos pontos mais instigantes de Doctor Who é que trata-se de uma série que consegue jogar bem com o fator mercadológico mutável e a qualidade de suas temporadas, um jogo que vem fazendo muito bem já há 5 décadas. Se considerarmos apenas o período da Nova Série, iniciado em 2005, temos dois estilos diferentes de concepção para o programa, um proposto por Russell T. Davies e outro por Steven Moffat. Em ambos os casos encontramos reformulações internas e modelos de produção que tentam atrair novos espectadores – elemento fixado na 7ª Temporada mas que funciona de maneira fechada nesta 8ª Temporada – e ao mesmo tempo contar uma história ampla e de sentido particular para espectadores veteranos.

Esta temporada inicial do 12º Doutor mostra que é possível termos um programa de ficção científica que busca referenciar suas origens de meio século atrás e, ao mesmo tempo, contar uma história fechada em si a cada semana, expondo elementos que se ligam no decorrer dos capítulos e claramente rumam para uma explosiva (e, pelo menos no meu caso, temida) season finale. É aí que entra Kill the Moon. Como pouquíssima gente constatou, este é um episódio redondo em qualidade em si mesmo mas que só poderemos entender o seu real papel no corpo geral da temporada após a exibição do díptico Dark WaterDeath in Heaven.

Até o presente momento (e já se foram 7 de 12 episódios!), a 8ª Temporada de Doctor Who não fraquejou uma única vez. Mesmo com alguns elementos fracos em certos episódios, temos até agora uma unidade louvável na produção e um amadurecimento progressivo das personagens ao longo dos capítulos, buscando no passado da série o máximo de referências que se enquadram no atual momento e projetando para o futuro aquilo – seja lá o que “aquilo” for – que a fará ficar no ar por mais… digamos… um milhão de anos.

Kill the Moon marca a primeira quebra real entre Clara e o Doutor desde Deep Breath, quando a companion sinalizou que “desconhecia” o seu amigo de viagens e foi, na ocasião, moralmente estapeada por Madame Vastra em um diálogo feito sob medida para viúvas do 11º Doutor e para a sub-raça de whovians que ainda não entenderam que DW é uma série sobre mudanças.

O episódio, maravilhosamente escrito por Peter Harness (em sua primeira contribuição para a série), polarizou os fãs pela internet afora. Os dois temas mais abordados são: 1) “o Doutor não deveria ter ‘abandonado’ Clara à sua própria sorte?” e 2) “Clara foi muito infantil e inconveniente ao agir daquela forma, chutando o Doutor”.

Embora os dois lados tenham um pouco de razão em seus questionamentos e respostas apaixonadas, temos que ter em mente que o texto de Harness procurou mostrar de uma vez por todas que este ano da série é sobre amadurecimento de personagens e, principalmente, fez valer aquilo que Peter Capaldi já havia anunciado em sua vinda ao Brasil como lema a temporada: não confie em ninguém. Nós já havíamos sido avisados e, no nosso podcast sobre Listen, ressaltamos novamente isso: haverá quebra de confiança e abandono tanto do lado do Doutor quanto do lado de Clara, isso sem contar com as ainda enigmáticas participações de Missy e Danny Pink no montante da temporada.

Kill the Moon, portanto, tem um papel gigantesco na criação de um significado canônico para a série. Lembram-se de todas as citações do , 10º e 11º Doutores sobre o Império Humano? De onde isso veio? Ora, nós sabemos que, na timeline da série, em 2039, os mexicanos foram à Lua tentar extrair minérios. Em 2049, uma missão desesperada foi até o satélite com uma nave modificada de um museu, porque os humanos não se importavam mais com a exploração o espaço. E depois da descoberta de que a Lua era o ovo de um dragão ou libélula espacial gigante, a humanidade voltou novamente os seus olhos para os céus. Percebam a importância do capítulo na continuidade de uma mitologia construída nessa nova fase do show! E o mais interessante: há algo muito misterioso em todo o discurso do 12º Doutor ao fim. Ele não parece muito feliz em constatar o que acontece após essa “redescoberta dos céus” pelos seres humanos. Há ainda muita coisa para ser explorada a partir daqui.

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Breves comentários e outras referências

a) O compositor Murray Gold entrega aqui um tema belíssimo para o episódio, com destaque absoluto para a suíte que ouvimos no momento em que o Doutor, Clara, Courtney Woods (que nesse episódio está incrível, tanto a personagem quanto a atriz que a interpreta) e a equipe terráquea saem do ônibus espacial em direção ao solo lunar/casca de ovo. Além dos notáveis efeitos especiais, a música é arrebatadora e, sob a competente direção de Paul Wilmshurst, ganharam ótima figuração na tela — perceberam a interessante composição de ângulos e planos usados pelo diretor nas tomadas externas?

b) O fato de a libélula ou dragão espacial gigante botar um ovo logo após nascer (chocar) é muito estranho, mas… ora… não se trata de um alienígena? Quando falamos de séries sci-fi e aliens existem, de fato, coisas absurdas mas que são plenamente aceitáveis dentro dessa dinâmica. É estranho para os nossos padrões humanos, leis da física e conhecimentos de biologia, etc., mas é inútil negarmos que funciona perfeitamente dentro das possibilidades da ficção.

c) Kill the Moon foi, acima de tudo, um episódio de discussão moral. O Doutor exerce aqui a sua “face sombria” ao deixar os humanos decidirem algo que (digam o que disserem, mas tenho certeza que ele sabe – ou pelo menos intui – o que está por vir, por isso mesmo não quis interferir) fará parte de seu futuro como espécie.

d) O episódio foi uma adorável referência a toda a era do 2º Doutor e suas viagens à Lua ou problemas advindos dela. O 12º Doutor chega a dizer uma das frases marcantes desta encarnação: When I say ‘run’… run! É curioso notarmos que, tudo o que aconteceu na Lua após 2049, na série, aconteceu na “Nova Lua”, um ovo que se chocará daqui a alguns milhões de anos. Ou seja, quando o 2º Doutor pisa pela primeira vez no satélite, em The Moonbase, ele já está em um novo ovo!

e) Há uma referência direta ao ioiô do 4º Doutor.

f) Assim como em Blink, a TARDIS é levada até o Doutor através de um DVD inserido no console.

g) O que Danny Pink quis dizer exatamente com “um dia ruim”?

Doctor Who 8X04: Kill the Moon (Reino Unido, 2014)
Direção: Paul Wilmshurst
Roteiro: Peter Harness
Elenco: Jenna Coleman, Peter Capaldi, Samuel Anderson, Ellis George, Hermione Norris, Tony Osoba, Phil Nice, Christopher Dane
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.