Crítica | Doctor Who 8X11 e 12 – Dark Water / Death in Heaven

death in heaven

estrelas 5,0

SPOILERS!

Quem já estudou teoria de cinema ou teatro sabe muito bem o quão hercúleo é o esforço para finalizar de forma coesa e empolgante um texto sobre um evento muito longo, especialmente se tem um cânone a ser respeitado ou referenciado. Em séries de TV (esta, a mídia que se apropriou das técnicas de escrita para o palco e para a grande tela), temos dois caminhos básicos para seguir e realizar isso, o primeiro, das séries procedimentais — famosos “casos da semana” — e o caminho das serializações (ou não-procedimentais) — famosos “casos principais da temporada” –. [Caso queira ter uma discussão ampliada neste caminho de análise, sugiro a leitura deste artigo.]. Neste 8º ano de Doctor Who, tivemos o modelo serializado em destaque, embora pincelado com nuances procedimentais. E como se não bastasse esse mix de gêneros, o showrunner Steven Moffat investiu em uma intensa rede de referências à Série Clássica, tornando ainda mais difícil o caminho para o finale.

Na escrita de roteiros com grande pano de fundo a ser considerado, decisões importantes precisam ser tomadas, sacrifícios precisam ser feitos e novos padrões para o futuro precisam ser ensaiados. Programação de TV em tempos de internet é comandada pelo extremo dinamismo, portanto, é necessário que eventos chocantes e promessas de novidades imperdíveis marquem o final das temporadas, caso contrário, a série corre o risco de cair na lista negra dos produtores executivos, o que nunca é um bom sinal. Mas quando se trata de Doctor Who, este não deveria ser um problema, afinal, para um programa tão longevo, a palavra de ordem, evidentemente, teve que ser o dinamismo e o nunca ter medo de correr riscos e realizar mudanças. É aí que entra a coesão do arco final desta 8ª Temporada da Nova Série, composto pelos episódios Dark Water e Death in Heaven.

Dirigido por Rachel Talalay (Continuum 1X06: Time’s Up) e escrito por Steven Moffat, o díptico trouxe a festejada revelação sobre Missy e fechou a trama de Danny Pink (possivelmente Handles?) e Clara, três pontos de grande expectativa. Em Dark Water, fomos introduzidos a uma nova versão dos Cybermen, criados por Missy, e no episódio final os vimos efetivamente em ação, trama que parece não ter agradado uma parte do púbico, em tese, porque o desfecho de sua história, com a explosão da nuvem polinizadora, foi desinteressante e “impossível”, dentro do ambiente da série.

Embora não discorde inteiramente dessa opinião, devo dizer que olho com certo desprezo opiniões que fixam um padrão único para qualquer coisa dentro de Doctor Who. Basicamente resumo tal comportamento em uma frase: é falta de Série Clássica na vida. Mas nesse caso, é falta de atenção ou má fé mesmo. Porque desde o retorno da série, em 2005, pudemos ver versões diferentes e com diferentes funções e comportamento de alguns vilões do Doutor. Por que então os Cybermen da Missy não poderiam voar ou criar uma nuvem polinizadora? A questão do dispositivo utilizado pelo Cyber-Comandante-Danny, no final, entra no mesmo pacote. No próprio episódio percebemos a ligação de Missy com o aparelho e a intenção verdadeira dela, revertida pelo Doutor. Ora, por que não seria possível a explosão e o uso futuro para trazer o garoto afegão de volta?

Desde Deep Breath estivemos temerosos pelo que Steven Moffat poderia fazer no desfecho da temporada, especialmente porque ele não errara, de verdade, uma única vez durante ano. Se olharmos friamente para o título dos episódios finais e para as propostas deste ano — fixar a personalidade do novo Doutor, problematizar sua relação com a companion herdada do passado e lançar as sementes para a volta de Gallifrey e/ou sua mitologia, algo já anunciado desde The Day of the Doctor — em quê Dark WaterDeath in Heaven falham? Trago à tona, mais uma vez, a questão da dificuldade de se escrever um roteiro com esse nível de autorreferências e como as migalhas da temporada são recolhidas. A morte de Osgood; a revelação de Missy como o Mestre; o aparecimento do Brigadeiro Lethbridge-Stewart em forma de Cybermen; a volta do garoto afegão através do bracelete-portal; a despedida propositalmente anti-climática de Clara; as pistas sobre Gallifrey; a explicação do por quê Danny era tão apegado a crianças (lembram-se de In the Forest of the Night?); a “mulher da loja”; a Nethersphere como a Matrix; SEB; tudo isso ganha destaque e referências estéticas e narrativas no arco final. Acreditem: existem poucos roteiristas que conseguiriam fazer isso com a qualidade e parcimônia (considerando quem é) que Moffat fez aqui.

Rachel Talalay dá dois tons levemente diferentes para os dois episódios. Em Dark Water, a diretora apostou em pouca exploração de ambientes, focando mais nos atores. Foi um episódio mais intimista, que ganhou um tratamento de mistério e proposital incompletude. Em Death in Heaven, ela não negligenciou o formato épico do roteiro e dirigiu os atores e o episódio para que tivessem realmente essa constituição. Assim, vemos cenários amplamente explorados, cenas-isca para revelações posteriores, dinâmica interna dos quadros alternada entre ágil e lânguida dependendo da atmosfera dramática, e acertada liberdade para os atores, que ganharam do texto de Moffat um raro presente: a capacidade macabra de uma linha cômica em um brutal final de temporada. Se em Dark Water as cenas de destaque centraram-se no vulcão-sonho (poderosas atuações de Capaldi e Coleman!) e no mausoléu da 3W, em Death in Heaven o leque se abre ao máximo. No topo da lista fica a excelente Michelle Gomez, atriz que torcemos para que permaneça por muitos ano no papel de Missy. Em seguida, Peter Capaldi (definitivamente, o Doutor mais rico em nuances dramatúrgicas desde Christopher Eccleston), Jenna Coleman (como ela cresceu em qualidade desde a 7ª Temporada!) e Samuel Anderson, que teve um final angustiante, heroico e emocionante ao mesmo tempo.

O tom parecido com o de Torchwood: Children of the Earth, misturado com o universo de James Bond — até na trilha sonora, que, aliás, é uma revelação sinfônica nos dois episódios, com destaque para o tema de Missy, de estrutura melódica totalmente inspirada em Carmen, de Georges Bizet — e estética propositalmente criada para referenciar The Tomb of the Cybermen e o icônico The Invasion, fizeram deste arco final um exercício criativo denso, triste e explosivo, marcado por uma fotografia permeada de filtros bem aplicados e louváveis efeitos especiais.

Como não percebi nenhuma colocação fora do padrão construído no decorrer da temporada ou que não tivesse espelho em algum evento passado, não assumo como exageradas as mortes ou decisões de Steven Moffat. Quando faz sentido, não tem por quê não ser feito. É claro que isso irá encontrar cada espectador de forma diferente, mas aí entramos no campo do gosto pessoal, ou seja, um outro universo.

As questões-chave da 8ª Temporada foram acertadamente respondidas, respeitadas e infladas em Dark WaterDeath in Heaven. Steven Moffat nos deixou estratégicas pontas soltas para o 9º ano do show e provou que o caminho em direção a um certo planeta vermelho está só começando. E em grande estilo.

Doctor Who 8X11 e 12 – Dark Water / Death in Heaven (Reino Unido, 2014)
Direção: Rachel Talalay
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Michelle Gomez, Samuel Anderson, Chris Addison, Andrew Leung, Joan Blackham, Sheila Reid, Ingrid Oliver, Jemma Redgrave, Sanjeev Bhaskar, James Pearse, Nicholas Briggs
Duração: 45 min. (Dark Water) e 55 min. (Death in Heaven).

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.