Crítica | Doctor Who 9X01 e 2: The Magician’s Apprentice / The Witch’s Familiar

estrelas 5,0

A aguardada 9ª Temporada de Doctor Who começou com um arco de dois episódios, The Magician’s ApprenticeThe Witch’s Familiar, cuja finalidade foi colocar o Doutor diante de um dilema moral que o vinha atormentando desde Genesis of the Daleks, em sua 4ª encarnação. Após a busca frenética para encontrar-se, na 8ª Temporada, o Senhor do Tempo enfim redescobriu quem é; redescobriu o valor da amizade, entendeu que mentir e esconder o rosto às vezes é preciso e, como um bônus do Universo, reencontrou a única pessoa de sua espécie que, pelo menos até agora, sabe-se fora de um Gallifrey congelado no tempo e perdido em algum lugar do cosmos. Isso posto, que melhor maneira de fazer o Doutor voltar senão colocando-o de frente para coisas familiares, para grandes inimigos e velhas perguntas?

Steven Moffat acertou com precisão exterminadora o tom deste arco, escrevendo a melhor abertura de temporada de toda a Nova Série até o momento, além de trazer uma das melhores aventuras com os Daleks desde o reboot do show, lembrando-nos de ótimas abordagens como as de Dalek e Into the Dalek e acrescentando um frescor à nova fase dos vilões que poucas vezes se viu antes, seja na Série Clássica ou na Nova Série. Tendo como princípio canônico a aparência de uma nova gênese dos Daleks e uma paráfrase de Asylum of the Daleks, o presente arco torna mais claro para o espectador o novo caminho que o Doutor tem percorrido desde The Day of the Doctor e principalmente após os 900 anos que ele passou protegendo Trenzalore. As muitas lembranças de Gallifrey e o questionamento vindo do próprio Davros sobre o motivo pelo qual o Doutor deixou seu planeta natal tornam claras possibilidades para o futuro e isso pode vir com a adição de Gallifrey novamente à série, ou de coisas relacionadas ao planeta.

Um bom roteiro de uma série de ficção científica pode ser medido facilmente pela capacidade de mesclar gêneros e sub-gêneros dentro de sua proposta, aplicar e inventar tecnologias, manipular o tempo e usar e abusar de seu próprio cânone. Se falha em uma dessas partes, principalmente se estivermos falando de uma série do porte de Doctor Who, o resultado final pode ser um pouco decepcionante. O que este arco nos traz é justamente o melhor de todos esses aspectos, do alívio tragicômico envolvendo Missy e Clara, passando pelo drama filosófico envolvendo o Doutor e Davros, pelo aspecto puramente vilanesco dos Daleks (em inúmeras “encarnações”, inclusive em restos mortais) até a manipulação do tempo que coloca o 12º Doutor diante do pequeno Davros, em Skaro, ainda no início da Guerra dos Mil Anos. Sem precisar “desenhar”, Steven Moffat traz a explicação de origem e função do “EXTERMINATE!” dos Daleks e por que, em algum momento, eles podem estar suscetíveis a algum tipo de compaixão, se tiverem a “influência certa”. E antes que alguém pouco informado vá reclamar de “mudança de paradigma”, saiba que isto não é nada novo na série. O Doutor vem progressivamente fazendo esse processo, em gerações diferentes dos vilões, desde a sua 2ª encanação, no arco The Evil of the Daleks.

Com um roteiro tão bem azeitado como este, a diretora Hettie Macdonald não teve dificuldades em explorar o seu estilo favorito de guiar episódios, conseguindo elevar o trabalho em mídias e a agilidade típica dos filmes ou séries de ação a um nível bem mais robusto que o de Blink, seu primeiro trabalho em Doctor Who. Perceba que a direção parte de um princípio bastante agitado, com a sequência em Skaro e o congelamento dos aviões em The Magician’s Apprentice e aos poucos vai cortando as cenas como se fossem parte de uma conversa bastante longa que precisasse ser reproduzida do ponto de vista de todos os interlocutores. O roteiro não nos dá tempo para respirar e a direção demonstra isso de forma orgânica e jogando entre simplicidade e complexidade estéticas, nunca cansando o espectador. A montagem dos dois episódios passa pela mesma orientação, com exceção do poderosíssimo diálogo entre o Doutor e Davros em The Witch’s Familiar, que ganha extrema ternura e compassada urgência na trilha sonora de Murray Gold e tem um ritmo mais calmo, como a sequência exigia.

Lançando mão de atributos cinematográficos, grandes efeitos especiais, ritmo interno e externo bem orquestrados e um elenco de tirar o fôlego — as interpretações já vinham em um nível bastante alto desde os primeiros episódios da 8ª Temporada, mas este arco de abertura da 9ª Temporada traz um novo status para o elenco de Doctor Who, o status de “vamos fazer seu queixo cair até o pé” –, Steven Moffat e toda a equipe de produção envolvida na série cumprem a promessa de que nós deveríamos esperar por uma temporada de alto nível, bem maior que o da temporada anterior. E depois de uma abertura dessas, não dá para duvidar da promessa, ao mesmo tempo que nos faz esperar com ansiedade mortal pelo turbilhão que está por vir. Afinal de contas, estamos apenas no primeiro arco da temporada.

Notas sobre o arco

  • A sonic screwdriver não vai mais voltar? Só teremos a “tecnologia vestível” em forma de óculos escuros, agora?

Bom, é preciso ser muito ingênuo para achar que a chave de fenda sônica não vai mais voltar. Mas ao que tudo indica ela vai passar um tempinho fora de circulação. O Doutor não parece muito feliz em ter contribuído para a criação de uma mania em Davros e mesmo que ao final ele tenha tentado ensinar uma lição sobre compaixão ao garoto — que é mau, mas ainda não sabe disso — a história não foi reescrita e tudo o que sabemos ainda irá acontecer para ele. O que é diferente agora é o nosso conhecimento de que muitas coisas, inclusive a “falha de caráter que Davros não conseguiu tirar dos Daleks” tem uma origem. E esta origem se chama 12º Doutor.

  • Missy tem uma filha? Onde ela está?

Sim e não. Não há resposta definitiva para esta pergunta porque a informação acabou de aparecer na série. Naquela frase, Missy poderia estar mentindo, apenas para irritar ou perturbar Clara. Mas também a afirmação pode ser verdade e, se for, nós ainda não sabemos nada sobre a tal filha.

  • Tem mesmo uma referência a Star Wars no episodio?

Sim. Ao Episódio VI: O Retorno de Jedi. A frase de Davros, que diz que queria olhar nos olhos do Doutor mais uma vez, é a mesma que Darth Vader fala para Luke no filme.

  • Moffat inventou o Hostile Action Displacement System para a TARDIS apenas para trazê-la de volta e não precisar criar uma nova?

Não. Isto foi criado por Robert Holmes, em 1968, no arco The Krotons, na era do 2º Doutor.

Apenas a referência, ou uma espécie de eco. Mas existe também a referência ao que Ian Chesterton fez no arco The Daleks, na era do 1º Doutor, que foi disfarçar-se dentro do um Dalek. O processo que Missy realiza aqui é mais cruel e intrusivo, mas a ação é a mesma que tivemos na série clássica e, ao que parece, em Asylum.

  • Tem mesmo outros Doutores nesse episódio? E que história é essa de macacos vampiros?

Sim. Missy conta uma história de como o Doutor se livrou de um grupo de androides invisíveis (a história serve para explicar como ela sobreviveu ao final de Death in Heaven e como ela e Clara sobreviveram ao final de The Magician’s Apprentice) e, durante a projeção em preto e branco, vemos o 1º e o 4º Doutor passando pelas pilastras. Já sobre os macacos vampiros, é mais um favor que Steven Moffat faz para o Universo Expandido, canonizando os quadrinhos da Doctor Who Magazine. Os Vampire Monkeys são uma espécie humanoide que vemos no arco Tooth and Claw (1997), publicado na Doctor Who Magazine #257 a 260.

Doctor Who 9X01 e 02: The Magician’s Apprentice / The Witch’s Familiar (Reino Unido, 2015)
Direção: Hettie Macdonald
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Michelle Gomez, Jami Reid-Quarrell, Julian Bleach, Jemma Redgrave, Jaye Griffiths, Harki Bhambra, Daniel Hoffmann-Gill, Joey Price, Nicholas Briggs, Barnaby Edwards, Clare Higgins, Kelly Hunter, Nicholas Pegg
Duração: 50 min. / 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.