Crítica | Doctor Who 9X07 e 8: The Zygon Invasion / The Zygon Inversion

estrelas 5,0

Leves spoilers!

E a 9ª Temporada de Doctor Who segue impressionando a todos. O arco The Zygon Invasion / The Zygon Inversion, formado pelos episódios 7 e 8, retoma a narrativa aberta em The Day of the Doctor, quando se estabeleceu o tratado de paz entre humanos e Zygons, e explora uma crise que já era imaginada, rememorando o advento da primeira invasão Zygon, na era do 4º Doutor e fazendo, mais uma vez, o Doutor e Clara encararem a morte.

Escrito por Peter Harness e Steven Moffat (apenas em The Zygon Inversion), o arco traz a UNIT de volta e problematiza a situação de Osgood, cuja participação aqui é incrível, dada a atuação de Ingrid Oliver, uma entre as grandes pérolas do elenco. Porém, mais do que qualquer problematização sobre a morte de uma das Osgoods em Death in Heaven, estes episódios são um excelente exemplo de como uma invasão alienígena poderia acontecer em nossos dias, concepção que o roteiro transforma em ação pura, mostrando diferentes lugares ao redor do globo e atribuindo missões específicas a cada grupo de personagens, culminando com um testamento antibelicista maravilhosamente bem escrito, um dos mais emocionantes discursos vistos em Doctor Who que teve a sorte de ter um ator como Peter Capaldi para interpretá-lo. Aquela sequência ficará na memória do público da série por muito, muito tempo.

A organização da narrativa aqui parte do macro para o micro, com uma tenência mais “road” no primeiro episódio, buscas e batidas, missões a serem cumpridas e indefinições de personalidade. O texto, nessa primeira parte, serviu como readequação do público para personas já bem conhecidas, tendo a partir dessa mudança melhor exploração de suas atitudes e pensamentos, destacando-se aqui o Doutor e Clara/Bonnie/Zygella, cuja interação alcança diversos níveis e mais uma vez, desde Under the Lake, insiste em uma reflexão sobre a morte, a separação, o fim de uma relação. A 9ª Temporada tem sido claramente um mergulho em situações extremas, mortais e mais perigosas do que normalmente o Doutor e alguma companion estavam acostumados a encarar. Isto e o fato de as tramas trazerem forte composição realista nos faz temer pelos personagens e digerir, compassadamente, a “crônica da morte anunciada” que parece permear todos os episódios e que terminará, como se sabe, com a despedida de Clara ainda nesta temporada.

O diretor Daniel Nettheim conseguiu um bom resultado ao opor dois ritmos para o arco, não apenas investindo na diferenciação estética, mas transpondo para cada um dos capítulos uma identidade diferente tanto de direção quanto na montagem interna e externa aos planos — e isso inclui uso de câmera na mão; predominância ou não de planos gerais; ligações cada vez mais frequentes entre espaços abertos e fechados e, por fim, criação de um ambiente de deliberação, quase como em 12 Homens e uma Sentença, onde só era possível sair daquele cômodo com um resultado em mão, independente de qual fosse.

Essa mão forte da direção é igualmente sentida nas interpretações do elenco, que passam de figurações explosivas e urgentes no primeiro episódio, para diálogos intimistas, reflexivos e filosóficos no segundo, funcionando até na retomada das duas Osgoods ao final — uma marca da genialidade do roteiro, que jamais deixou de lado o foco principal aqui, a busca pela humanidade (também explorada em The Woman Who Lived), pela paz, e a remodelação da identidade de uma pessoa ou um de alien — e na partida do Doutor e Clara, revestida de uma aura de urgência e pensamentos silenciosos.

O conflito que não termina tem uma justificativa bastante coerente: de novo, o Doutor se lembra da Time War e mesmo que ele tenha a memória clara de que conseguiu salvar seu povo, suas ações nesta guerra o marcaram de forma muito forte, lembranças que talvez sejam ainda mais dolorosas depois dos 900 anos de defesa de um planeta em The Time of the Doctor. O fato das duas Osgood Boxes terem o mesmo desenho da arma Moment e o fato de estarmos diante de uma grande crise na Terra (a construção do problema é impecável e nos faz sentir medo) traz tanto a emoção vinda com o histórico do Doutor quanto o impacto diante do público, que sabe o peso que teve a Time War e o paralelo que isso pode ter, guardadas as devidas proporções, para a humanidade no contexto do arco. Por isso temos “A” negociação da temporada e a exaltação máxima já vista de uma companion na série: os mais que merecidos créditos dados a Clara pela sua atuação, interferência, paixão, insistência e companheirismo ao lado e na mente do Doutor.

Eu gostaria muito de ver as expressões e discutir ponto a ponto deste arco com as pessoas que defendem com unhas e dentes o “machismo esmagador” em Doctor Who ou o “tratamento humilhante dado às companions” na série. Observem a estrutura de The Zygon Invasion / The Zygon Inversion e vejam que o verdadeiro brilho, o montante das ações, o foco textual e a motivação de resolução são das mulheres (Osgood, Clara, Kate, isso só para falar das protagonistas), tendo o Doutor apenas como diplomata experiente — a fenomenal sequência no Black Archive é a coroação disso, pois ao Doutor cabia o convencimento; a decisão, ali, era de Bonnie e Kate). Que forma incrível de colocar por terra argumentos que não levam em conta o contexto histórico de um arco/episódio e a necessidade dramática de um roteiro em tornar relevante este ou aquele personagem, como polemizamos no Plano Gallifrey #15: O Sexismo de Doctor Who. E que maravilhosa escolha em fazer este destaque em um arco e com um vilão que traz à tona o conceito de identidade para a humanidade?

Com diversas camadas políticas em seu enredo e com um discurso e temática perfeitamente conectados aos eventos que hoje marcam a Europa e o Oriente Médio — Estado Islâmico e Israel X Palestina principalmente, mas também a onda de imigrantes e refugiados no Velho Continente; o fortalecimento dos grupos separatistas; os grupos políticos marrons e sua ideia de purificação da população na Europa; a reconfiguração dos grupos paramilitares e do terrorismo em todo o mundo… — este arco desponta, até o momento, como o meu favorito da 9ª Temporada, um dos mais bem dirigidos da Nova Série e um dos melhores a tratar o tema da identidade, da coexistência pacífica e do antibelicismo em toda a história de Doctor Who.

Doctor Who 9X07 e 8: The Zygon Invasion / The Zygon Inversion (Reino Unido, 2015)
Direção: Daniel Nettheim
Roteiro: Peter Harness / Peter Harness e Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Ingrid Oliver, Jemma Redgrave, Jaye Griffiths, Cleopatra Dickens, Sasha Dickens, Nicholas Asbury
Duração: 45 minutos (cada episódio).

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.