Crítica | Doctor Who 9X09: Sleep No More

estrelas 4

Todo mundo enlouqueceu. A ira parece ter sido o sentimento mais comum nos espectadores ao final de Sleep No More, nono episódio da nona temporada de Doctor Who. Escrito por Mark Gatiss, que é praticamente uma persona non grata em termos de roteiros para a série (apesar de ser tremendamente elogiado pelo docudrama An Adventure in Space and Time), o episódio traz uma mudança bastante intensa no ritmo da temporada, na forma de contar as histórias deste ano do show e nas escolhas narrativas, ou seja, revelou-se muito pouco e deixou-se muito para especulação, o que parece ter sido um grande pecado para (pelo menos) metade dos espectadores, em especial aqueles que gostam de roteiros límpidos e detalhadamente explicados.

Sendo o primeiro capítulo uno de uma temporada formada por arcos de pares, Sleep No More carrega a estranheza do isolamento em relação à continuidade de uma grande trajetória, construída desde The Magician’s Apprentice, e este é, a meu ver, o verdadeiro ponto fraco da aventura. Mas fora isso, não existe nada (à parte o gosto pessoal de cada um) que justifique tamanho ódio em relação à trama, ou talvez possamos considerar também a necessidade patológica de explicação imediata que alguns espectadores possuem ou ainda, em alguns casos, o esquecimento de que novos modelos de se contar uma história e a ocorrência aventuras isoladas ou ‘de passagem’ dentro das temporadas são práticas recorrentes na série — no caso da primeira opção, uma das justificativas do por quê Doctor Who já dura 52 anos.

A história se passa no século 38, na órbita do planeta Netuno, e traz alguns elementos e dados curiosos para o programa:

  • Pela primeira vez tivemos um episódio do gênero found footage.
  • Pela primeira vez tivemos um episódio sem o tema e créditos de abertura, apenas um acróstico de dados com os nomes de todos os personagens e da estação espacial Le Verrier (referência ao matemático francês, especializado em mecânica celeste e famoso por prever a existência e a posição de Netuno apenas através de cálculos).
  • Pela primeira vez tivemos um episódio com uma atriz transgênero, Bethany Black, que interpreta 474.

Embora deslocado da linha geral da temporada — mas não completamente estranho a ela, basta lembrarmos da dinâmica de câmaras criogênicas e equipe de trabalho no futuro mostradas no arco Under the Lake / Before the FloodSleep No More funciona quase sem problemas dentro de seu formato e assume toda a carga de terror que tínhamos na Série Clássica, com duas grandes referências que justificam muito as escolhas do roteiro e da direção de Justin Molotnikov: a forma moderna de fazer uma ponte com The Ark in Space  — e por tabela, com o filme Alien, o Oitavo Passageiro — e a citação da ‘Grande Catástrofe’, que apareceu pela primeira vez em Frontios (1984), na era do 5º Doutor.

O ponto principal do episódio foi mostrar uma aventura “por acaso”, como muitas outras do Doutor e Clara, que chegam da maneira mais natural possível na Estação Espacial e aos poucos são engolfados pela ameaça cultivada pelo Projeto Morpheus. Mesmo assim, as indicações para a morte que ronda a personagem de Jenna Coleman estão presentes e o Doutor (com Capaldi praticamente carregando todo o episódio nas costas no quesito dramaturgia) não perde a oportunidade de fazer breves observações sobre elas, como tem feito desde o primeiro arco da temporada, o que novamente coloca em xeque a afirmação de completa separação de Sleep no More com a proposta da temporada. Como apontei no início, a trama está deslocada da sequência a que estávamos acostumados até The Zygon Inversion, mas em termos de conteúdo transversal e experimento de formato, não existe uma separação completa nem com a temporada nem em relação à série.

Justin Molotnikov transforma o roteiro de Gatiss em uma história sobre como fazer uma história. Aliás, o roteiro é claramente metalinguístico e o enigma que temos ao final abre as portas para uma possível continuação ou uma abordagem distante que relacione as consequências dessa transmissão em um outro cenário. A alternância entre o sistema de câmeras, os monólogos de Rassmussen e as ações do Doutor e da equipe de resgate talvez tenham cansado alguns espectadores, mas foram capazes de mostrar muitos pontos de vista para uma mesma história, o que particularmente achei bem concebido e bem representado. Em alguns pontos, a dinâmica dos games de tiro em primeira pessoa toma a tela e dá um outro ponto de apoio para a ação. Em momento algum me senti entediado ou tive a impressão de que o episódio se arrastava, muito pelo contrário, mas entendo que a percepção desses aspectos irá variar de espectador para espectador, dependendo de seu gosto ou paciência para o gênero em questão. O que não se pode negar é o fato da execução aqui ser tecnicamente bem feita e que sustenta bem a sua proposta do começo ao fim. Gostar ou não dela vai de cada um.

Sem trilha sonora e com uma “história de percurso” em uma temporada mais ou menos alinhada em um propósito básico, Sleep No More está agora pagando por sua ousadia e, dada a frustração das expectativas gerais — nota: o vilão aqui é assustador e muito bem feito, assim como os efeitos especiais e visuais, mas eles não são tão assustadores quanto a sinopse e os teasers nos fizeram crer –, certamente será massacrado pelos espectadores que esperavam outra coisa ou pelos que não conseguem lidar com mistérios e hipóteses para serem respondidos no futuro. Parece que desta vez Mark Gatiss plantou uma poderosa semente da discórdia no canto do olho de parte do público. Mal posso esperar pelo próximo episódio dele na série.

Doctor Who 9X09: Sleep No More (Reino Unido, 14 de novembro de 2015)
Direção: Justin Molotnikov
Roteiro: Mark Gatiss
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Reece Shearsmith, Elaine Tan, Neet Mohan, Bethany Black, Paul Courtenay Hyu
Duração: 45 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.