Crítica | Doctor Who 9X10: Face the Raven

estrelas 5,0

Spoilers!

A partida de algum acompanhante do Doutor é sempre algo grande em Doctor Who. Nós sabemos que nem todos são amados e que muitas vezes há uma grande expectativa para que alguém diferente passe a fazer parte das aventuras, mas no caso de partidas bem feitas, como é o caso desta que temos em Face the Raven, uma marca sentimental e o contexto de toda uma vida parecem vir à tona e dialogar conosco, um diálogo intenso e ao mesmo tempo muito simples que o roteiro de Sarah Dollard consegue desenvolver sem tropeços, partindo de uma aventura em andamento do Doutor e Clara fugindo do “segundo mais belo jardim em todo espaço-tempo” e chegando a uma rua-armadilha em Londres, espaço que acabou fazendo alguns fãs se lembrarem do Beco Diagonal da saga Harry Potter…

Antes de mais nada é preciso dizer que este não é um episódio finalizado. Praticamente nada aqui dá sinais de que terminou: Clara voltará, de uma forma ou de outra, no final da temporada (e talvez no futuro da série) e Ashildr certamente ganhou um inimigo na pessoa do Doutor e é bem provável que mais cedo ou mais tarde ela retorne. Por fim, fica o questionamento de quem são “Eles”, as pessoas/criaturas que fizeram um acordo com Ashildr e solicitaram o teletransporte do Doutor para um lugar misterioso.

Para evitar guiar esse texto sob hipóteses de futuros retornos da Clara ou sobre a continuação dos eventos aqui iniciados, vou me ater apenas ao que ocorreu entre o início do capítulo e a partida do Doutor. Acho importante destacar isso porque abri uma janela de hipóteses no outro parágrafo e talvez o leitor tenha a impressão errada do que vou construir daqui para frente, levando em consideração algumas possíveis mudanças no que temos, por enquanto, como fato consumado.

Sarah Dollard parece ter feito uma boa pesquisa para tomar como início uma ação do Doutor e Clara nos moldes do que vínhamos tendo desde meados da 8ª Temporada, abrindo inúmeras portas para o Universo Expandido. Desse ponto, a adição de Rigsy (Flatline) parece acontecer dentro do mais orgânico processo, sem nada deixado por explicar. Para um início de episódio, tudo acontece bem rápido em Face the Raven, e mesmo com novas informações a serem consideradas, o espectador entende rapidamente a proposta que se constrói. Passamos da máxima alegria em tomadas durante o dia — com fotografia que nos mostra calma ao mesmo tempo que nos desperta para a aventura; uma paleta entre entre o azul e o amarelo — e passamos para a noite, com o natural escurecimento e o proposital aumento de contraste na imagem, em uma espécie de hiper-realidade onde a tragédia acontece.

Percebam como a trilha sonora do episódio é empregada do início ao fim seguindo exatamente os mesmos passos dramáticos da direção de fotografia, principiando com porções descritivas de peças heroicas (quando destaca a quase loucura da companion em assumir muitos riscos); contemplativas (quando aborda o drama de Rigsy, o injustamente acusando que foi atraído para um campo de refugiados alienígenas com um filtro de percepção que os disfarça de humanos — isso tem tantas interpretações que daria um artigo enorme!) e reconfortantes (quando nos mostra variações para o tema de Clara, criado na 7ª Temporada).

O que faz desse episódio um dos mais simbólicos e mais instigantes em termos de “encontre o significado” é o fato de termos praticamente tudo entregue de bandeja para nós, mas há tantos MacGuffins que não prestamos a devida atenção em tudo. Reparem o caminho natural da passagem do dia para a noite (vida para morte, no caso de Clara; paz para guerra, no caso do Doutor) e o cumprimento de seu ‘primeiro ciclo’, de “homem bom” para “homem mau” (entendam que faço referência ao dilema desta encarnação na temporada passada), persona que  volta a manifestar ecos do Guerreiro que ele foi na Time War e em Trenzalore. O ritmo da direção de Justin Molotnikov é também essencial para abstrairmos esse processo, pois ele passa de um início histérico para um final que é urgente pela contagem regressiva da tatuagem-sentença-de-morte, mas que nós e o Doutor não queremos que chegue rápido. Percebem o jogo temporal?

You will save Clara and you’ll do it now or I will rain hell on you for the rest of time.

Um ciclo menor, também simbólico, acontece dentro do próprio episódio. Percebam que a primeira coisa que temos, logo na sequência de abertura, é a conversa dos viajantes sobre uma aventura em um jardim e isso não é à toa. A simbologia do jardim é bastante ampla e pode ser um lugar de proteção e alegria (Jardim do Éden) ou de contemplação, introspecção e preparo para a morte (Jardim do Getsêmani), dentre muitas outras coisas. A passagem deste cenário da alegria como vivência e contemplação como sentimento em direção a uma cidade com uma rua-armadilha, símbolo da estabilidade, da passagem de um estágio da vida para outro (segundo o pensamento medieval, da Cidade de baixo para a Cidade de cima) era praticamente a “crônica de uma morte anunciada”: Clara não ia sair de lá. Isso, aliado ao símbolo máximo do episódio, o Corvo, representante de maus presságios e um dos motivos iniciais da “Grande Obra” da Alquimia (e isso é importantíssimo em uma temporada onde a transformação de um Híbrido é esperada) torna tudo mais interessante. A Sombra Quântica ganha ares mitológicos e sci-fi a partir desse uso inteligentíssimo do símbolo com os elementos básicos da série.

Rememorando a morte de Danny Pink no final da 8ª Temporada e dando um grande significado para a morte de Clara na série — e digo isso em curto e longo prazo — Face the Raven abre a trilogia de episódios interligados que trarão o desfecho desse 9º ano de Doctor Who. Após o Doutor ser teletransportado para o tal lugar misterioso, nós ficamos do outro lado da tela secando as lágrimas e implorando para a semana passar o mais rápido possível. Heaven Sent está chegando e nos mostrará um Time Lord raivoso e sozinho. Pense na tensão que nos espera.

Doctor Who 9X10: Face the Raven (Reino Unido, 21 de novembro de 2015)
Direção: Justin Molotnikov
Roteiro: Sarah Dollard
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Maisie Williams, Joivan Wade, Naomi Ackie, Simon Manyonda, Simon Paisley Day, Letitia Wright, Robin Soans, Angela Clerkin, Caroline Boulton
Duração: 45 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.