Crítica | Doctor Who: A Bruxa do Tempo e Outras Histórias – Doctor Who Magazine #35 a 60

Aqui temos análises para todos os arcos e one-shots da Doctor Who Magazine, publicados entre junho de 1980 e janeiro de 1982. Estão centradas aqui todas as histórias sequencialmente protagonizadas pelo 4º Doutor na revista. Essa encarnação voltaria a aparecer em outras histórias no futuro, mas dentro da “era” de outros Doutores.
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Doctor Who and the Time Witch

DWM #35 a 38
estrelas 3
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Equipe: 4º Doutor, Sharon e K9 II
Espaço: Planeta Nefrin / TARDIS / Blank Dimension
Tempo: Indeterminado

Se o leitor comparar a relação entre o Doutor e Sharon aqui, com a que eles tinham na aventura imediatamente anterior, The Dogs of Doom, fica mais que óbvia a ocorrência de fatos que não foram narrados para nós, outras aventuras em que o Time Lord e sua nova companion estiveram e que infelizmente não foram marcadas nos quadrinhos.

A primeira indicação disso é a comunicação mais aberta entre eles, e a segunda, a necessidade de Sharon em mudar o jeito de pentear o cabelo. Steve Moore é esperto o bastante para colocar de forma orgânica e com total relevância o assunto do retorno de Sharon para sua cidade, sua escola e amigos, ao mesmo tempo que o Doutor — por um tipo de raro milagre — admite sem delongas que ele não sabe como retorná-la ao tempo correto. Como se não bastasse, ao final dessa história, Sharon (e o Doutor!) passarão por uma mudança interessante: o Crono-Compensador da nave não está funcionando e a aventura contra Brimo, a Bruxa do Tempo na Dimensão em Branco, fez com que eles acabasse envelhecendo fisicamente 4 anos. Para o Doutor isso não é nada, mas para Sharon, a mudança é óbvia e muito interessante, muito bem retratada pela arte de Dave Gibbons.

A aventura contra Brimo começa mais interessante do que termina, com uma punição dada à bruxa, no que parece ser o seu planeta natal, de passar a eternidade na cápsula do tempo. O leitor sente dó da personagem, principalmente pela solidão de milhões de anos passados ali, vendo tudo à sua volta morrer. Embora as ações dela não sejam justificáveis, não é difícil de entender que ela tenha ficado ainda mais biruta e perigosa do que já era antes (se é que era).

O enfrentamento de Brimo com o Doutor é meio bobo, assim como a armadilha que ele prepara para a bruxa, mas dá para aceitar a condição final. Ao final, Sharon olha em um espelho e percebe que de fato envelheceu. Esta não é uma informação solta na aventura, pois Steve Moore a usaria para fechar de forma bem interessante o drama da personagem logo mais adiante.

Doctor Who and the Time Witch (Reino Unido, junho – julho de 1980)
Roteiro: Steve Moore
Arte: Dave Gibbons

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Dragon’s Claw

DWM #39 a 45
estrelas 2,5
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Equipe: 4º Doutor, Sharon e K9 II
Espaço: China
Tempo: 1522

Uma história na China do século XVI com Sontarans ensinando monges a lutar contra os piratas japoneses poderia ter funcionado muito melhor do que o pequeno quase-desastre que aqui tivemos, e isso nada tem a ver com a arte de Dave Gibbons, que é boa — embora não brilhante ou memorável — do começo ao fim. O problema está no roteiro de Steve Moore.

Por um lado, é compreensível que uma história para uma revista como a DWM deveria ter um teor diferente nos anos 80, porque os arcos dependiam um pouco de como o público olhava para as produções da TV e a condução das histórias, de uma forma ou de outra, deveria conter este ou aquele modelo que fizesse maior sucesso, o que deveria irritar bastante ao roteirista e o que certamente explica a diferença de tom entre cada uma das partes que formam essa história.

As duas primeiras são as mais interessantes. Elas nos familiarizam com o cenário, trazem a estranheza de uma “arma fora de seu tempo” e marcam bem o início de uma nova aventura, com o Doutor, Sharon e K9 II utilizados de forma bem interessante. Mas a partir da terceira edição, quando espaços do cotidiano no Monastério começam a ser mostrados, as intrigas do falso abade surgem (ele quer ser tudo: abade, imperador) e a estranha investigação por parte do Doutor começa a ser feita, o leitor perde totalmente o interesse pelo que deve ou não deve acontecer e não vê logo a hora da história acabar.

Há uma linha de humor que pontua as lutas, mas isso não salva Dragon’s Claw da antipatia que acabamos nutrindo por ela. Talvez se houvesse uma maior participação dos Sontarans e não essa “figa” escondendo os vilões, a coisa poderia ser bem diferente.

Dragon’s Claw (Reino Unido, julho – outubro de 1980)
Roteiro: Steve Moore
Arte: Dave Gibbons

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Outras Histórias

Aqui abordarei brevemente as histórias menores da revista a partir da edição #46. Para efeito de melhor classificação, farei a listagem dos arcos ou one-shots comentados e os números da DWM em que eles estiveram, mais a data de publicação. Deixarei o título de cada aventura em negrito para que seja melhor encontrá-los no corpo do texto e colocarei logo após esse título, entre parênteses, a nota que atribuo à história, com o mesmo modelo de cotação utilizado acima, de 0 a 5 estrelas, só que com a diferença dessa avaliação estar em forma numérica.

  • The Collector (3,5/5)

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Edição #46 da DWM, esta história coloca o Doutor, Sharon e K-9 II em um lugar chamado Mother Ship, onde encontram um antropólogo de nome Varan Tak, que sequestrava humanos de diferentes momentos da História para estudá-los. Este é um dos casos mais interessantes de vilões, porque eles estão fazendo algo muito errado, mas não parecem ameaçadores e nem são tratados de forma demonizada pelo Doutor. A ação se passa em lugares diferentes da nave, com os viajantes da TARDIS passeando pelos séculos III e XVIII. As relações entre os personagens e a forma como o impasse se resolve são ótimos, pena que não há espaço para crescimento de nenhum deles, já que trata-se de uma história de uma única edição.

  • Dreamers of Death (3/5)

Edições #47 e 48. Uma história que elenca uma espécie de animal parecido com uma lontra e que permitiam aos habitantes do planeta Unicepter IV sonhar com o que queriam. O Doutor e Sharon chegam ao local e o Time Lord procura por antigos amigos. Um interessante drama inicial é desenvolvido, mas logo os bons sonhos começam a se tornar pesadelos e o final da história, especialmente as atitudes para barrar o vilão (os antes fofinhos bichinhos sonhadores) são simplesmente estúpidas. Aqui, Sharon fica com um jovem de Unicepter IV que conhecera em sua estadia. A brecha negativa do roteiro é o fato de não haver nenhuma indicação para um aviso do Doutor à família da moça, nada. Acho que será mais um caso de desaparecimento sem explicação. Que mancada, Doutor…

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  • The Life Bringer! (4,5/5)

Edições #49 e 50. O Doutor encontra Prometeu, que depois de éons aprisionado por Zeus em uma montanha, é libertado de suas correntes e manipula a TARDIS até o Planeta Olympus, onde pretende confrontar Zeus e ter seu perdão. O leitor fica esperando que em algum momento o homem que deu o fogo ao homem seja alguém ruim, mas são os outros deuses que possuem um comportamento questionável. A animação de Prometeu para com a geração de vida que não a divina é contagiante. Ao fim, chega a emocionar vê-lo pular da TARDIS no meio do nada, com as partículas de vida nas mãos, pronto para semear o Universo. Chega a ser poético o significado geral da história.

  • War of the Words (3/5)

Edição #51. O título dessa história é fielmente representado pelo simbolismo da guerra que acontece nesta única edição. Trata-se de uma batalha de décadas entre duas raças, na órbita do Planeta Biblios. O grande problema é que os robôs do Planeta — na verdade, um mundo-biblioteca (a maior de todo o Universo, com tudo o que acontece gravado em seu banco de dados) — não sabem o por quê aquelas duas raças resolveram batalhar logo na órbita de Biblios. Com o Doutor em cena, um certo evento fará com que o motivo se revele: busca por conhecimento e desejo de destruí-lo para que o inimigo não tenha acesso. O início e o desenvolvimento da história são bons, mas o plano final é um pouco bobinho demais para convencer.

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  • Spider-God (5/5)

Edição #52. Com certeza, o melhor roteiro de Steve Moore até agora. Que história sensacional! Ainda viajando sozinho com K-9, o Doutor chega ao planeta UX-4732 juntamente com uma equipe de exploração terráquea. Eles encontram um povo meio bobo, que não fala, apenas passa o dia comendo frutos, subindo em árvores e interagindo passivamente entre si e entre os visitantes. Em dado momento, o Doutor e os exploradores veem alguns nativos levarem animais para um tipo de altar, de onde sai uma aranha gigantesca e coloca esses habitantes em casulos. Começa então a grande lição moral da história, no melhor estilo instintivo da humanidade, que sempre destrói aquilo que não conhece e aquilo do que tem medo. A ideia de transformação apresentada na trama não é necessariamente nova, mas é muitíssimo bem executada. Uma inesquecível história de metamorfose.

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O retorno de um velho rostinho fofo e fatal.

  • Star Beast II (2,5/5)

Yearbook. Como o título sugere, essa aventura é a continuação de uma das primeiras tramas do 4º Doutor na DWM. Ela é bastante medíocre, mas seu significado canônico é grande e impactante. O Doutor está indo em direção a Unicepter IV, com um presente na mão e tudo, atendendo ao convite de casamento de Sharon (bonitinho, não é mesmo?). Ocorre, porém, um erro na TARDIS – nada de novo aqui – e ele vai parar na Terra, em 1995, onde Beep, o Meep, liberto da prisão depois de 15 anos (julgavam-no curado, após acreditarem que ele estava agindo sob forças de uma “estrela negra”), faz uma invasão a um cinema. O Doutor encontra Fudge (o adolescente que vemos com Sharon na primeira história), já adulto e resolve o caso de maneira boba, mas de certa forma inteligente (o paradoxo é legítimo, acreditem). Como disse no início, é uma história medíocre, mas seu significado canônico é bem grande.

  • The Deal (2/5)

Edição #53. Historinha ingênua que se passa durante as Millennium Wars. Um pouco da mensagem anti-belicista que o roteiro – bastante cruel! – nos traz é boa, mas fora esse lado, não se aproveita muito mais coisas aí. Em um primeiro momento, o trabalho em dupla, iniciado sem querer, do Doutor e um dos lados combatentes, é curioso, mas o Senhor do Tempo logo se dá conta de que está sendo usado para dar continuidade a um acordo de “se você matar, você recebe por isso” e desmaterializa a TARDIS. O final desesperançoso, mesmo que traga uma lição embutida, não foi o melhor final possível a ser escolhido.

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  • End of the Line (4,5/5)

Edições #54 e 55. Eu nunca imaginei que uma história de Doctor Who nos quadrinhos da DWM pudesse ser tão “pesada” ou ter um final tão desesperançado como o desta aventura. O Doutor materializa a TARDIS no subterrâneo de uma ferrovia, em um planeta não nomeado. Depois de quase ser morto por um trem, ele encontra um grupo de canibais e percebe que seus dias chegaram ao fim, inclusive fazendo piada com “terminar na quarta encarnação”. Ajudado por Angel e posteriormente conhecendo o sonho desses poucos humanos não canibais de que no final da linha do trem havia um lugar lindo, um campo belo, livre da radioatividade e poluição que a cidade possuía, o Doutor ajuda a programar o transporte para o destino almejado. Depois de derrotar um dos chefes dos canibais ele vai checar o campo. E aí a grande verdade aparece. Há um pouco da atmosfera de Planeta dos Macacos (1968) aqui, mas a realidade é muito mais cruel e violenta. Uma história realmente impressionante.

  • The Free-Fall Warriors (4/5)

Edições #56 e 57. Essa história apresenta uma das melhores artes de Dave Gibbons e um dos melhores processos de coloração que eu vi da DMW até agora (lembrando que todas foram publicadas originalmente em preto e branco e só anos depois, por ocasião do lançamento do Omnibus Gibbons, foi colorida). O Doutor está passando férias, jogando videogame e tomando sorvete no Festival of Five Planets e conhece o Doutor Ivan Asimoff (está na cara a quem ele faz referência, não é?). Eles encontram um grupo de pilotos modernosos e por uma aposta feita no “calor do momento”, acabam dentro de uma nave em alta velocidade, que também sem querer, cai no meio de um ataque ao planeta sede do Festival. É uma história boa, que mesmo perdendo qualidade no ato final, diverte. O ótimo trabalho artístico vale por tudo.

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  • Junk-Yard Demon (4,5/5)

Edições #58 e 59. Muito boa a arte de finalização mais livre assinada por Mike McMahon e Adolfo Buylla nessa história, que coloca uma excelente — e gigantesca — nave espacial, um tipo de coletora de ferro-velho pelo espaço, que pega a TARDIS e acha que pode adicioná-la à sua coleção. O suposto conflito inicial, do Doutor com os dois tripulantes da nave, dá lugar à uma história ligada aos Cybermen, mesmo que em escala menor. É uma aventura rápida, bem escrita e com ótima arte. Há contra ela apenas os momentos finais, que precisavam de um contexto maior para fazer mais sentido, mas fora isso, nada mais grave.

  • The Neutron Knights (2,5/5)  

Edição #60. Última edição corrente do 4º Doutor na DWM (ele voltaria a aparecer em linhas de outros Doutores, claro), mas uma história sem muito brilho ou coisas interessantes, apesar da premissa enganar e dar a entender que se trataria de um bom cenário de paradoxo temporal e mudança da História. O Doutor é chamado por Merlin, em um futuro muito distante da Terra, para defender o planeta de uma grande ameaça. A história envolve o Rei Arthur e uma viagem no tempo que sugere que os Cavaleiros da Távola Redonda que conhecemos, da Idade Média, são os mesmos desse Universo, mas tudo é muito vago e sem padrões reais. A arte, claro, é ótima, mas a história bastante medíocre.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.