Crítica | Doctor Who: A Cela de Sangue, de James Goss

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estrelas 2,5

Equipe: 12º Doutor e Clara
Espaço: A Prisão
Tempo: Indeterminado, porém, se passa claramente depois do século XXI

A Cela de Sangue (The Blood Cell — e sim, o duplo sentido com “célula” existe no texto) foi o primeiro de três livros lançados em setembro de 2014 pela BBC Books sob o selo BBC New Series Adventures. Escrito por James Goss (do ótimo Quando Cair o Verão), a obra traz um intrigante e inicialmente interessantíssimo cenário para onde o Doutor vai com uma missão: salvar vidas que estão condenadas. Mas como é de costume, os meios que levaram o Time Lord à temida Prisão, instalada em um asteroide nos confins do espaço, não são os mais sociáveis. E nem se tornariam sociáveis com o passar do tempo.

Uma das características principais da escrita de James Goss, a negação (ou denúncia? É difícil saber ao certo, com o autor) das aparências, serve como fio a meada para o “grande plano” da história. O drama é inicialmente construído com um pouco de humor — uso também recorrente em suas produções, mesmo em enredos onde não há espaço para riso — e é trabalhado organicamente nos três ou quatro capítulos iniciais. O encarceramento do Doutor e o mistério do por quê ele foi encarcerado são chamadas fortes o bastante para nos prender à leitura e é aproveitando-se disso que o autor nos faz conhecer melhor O Governador, o homem que gerencia A Prisão.

Depois que nós descobrimos o real motivo da construção do complexo e entendemos a relação entre as pessoas que ali estão, há um tipo de alumbramento curioso, como se nos déssemos conta de que as pistas estavam lá o tempo inteiro mas nos faltava conhecer o passado dos guardas androides e do Governador para ligarmos os pontos e termos uma visão completa dos “por quês” de cada coisa.

A dinâmica entre o Doutor e o Governador é primorosa, pelo menos até a entrada de Clara em cena. Os diálogos sempre provocativos e irônicos que o Doutor trava com seu “carcereiro-mor”, as escapadas que sempre acabam em uma repreensão para a qual o gallifreyano não dá a mínima, a tentativa dele fazer com que o Governador ouça as advertências e evite mortes, tudo se passa em um turbilhão muito interessante de coisas, até o momento em que Clara começa a aparecer para visitar o Doutor. Aqui, vale dizer que o relacionamento entre eles se mostrava cada vez mais à beira do perigo, um fator que pouco tempo depois, em Listen (esta trama se passa entre os eventos do livro O Terror Rastejante e o episódio citado), colocaria Clara em uma crise emotiva e talvez de consciência em relação ao seu amigo alien, culminando em uma breve separação entre eles mais adiante.

Ver a companion assumindo grandes riscos e se indignando com certas posturas do Doutor são uma espécie de prenúncio para o que depois se veria entre eles na TV. Mas a obra não fica apenas nos tropeços do relacionamento, claro. Há uma grande cumplicidade entre os dois e momentos muito bonitos, inclusive o finalzinho da história, pela qual entendemos o motivo da narrativa em primeira pessoa, vinda do diário do Governador.

A Cela de Sangue é uma mistura de interessantes conceitos de política (como a complexidade e fragilidade da democracia e dos “golpes brancos” e “antros de corrupção” na gerência dos Estados), de indústria farmacêutica e epidemias como uma espécie de arma para convencer ou condenar alguém. Apesar de ser ambientada no futuro — não tão distante assim, mas definitivamente depois do século XXI — há muita semelhança com padrões e crimes que vemos em nosso tempo, o que dá maior credibilidade ao enredo e até nos ajuda a fazer paralelos com produções que trazem temas semelhantes como V de Vingança (os quadrinhos e o filme) ou a série britânica Utopia. O que estraga a maioria dessa boa leva narrativa, mas assim, estraga MESMO, é a interação entre a “criatura” chama O Juiz, o Governador, Clara e o Doutor.

O ponto de impacto de A Cela de Sangue aparece quando o leitor já riu bastante com citações ao quanto Candy Crush é irritante; à série de “bebês e bicicletas” (Call the Midwife); aos horrores de uma prisão onde nada era perguntado e todas as regras eram pétreas e pouco ou nada humanas; e a mortes e estranhezas demais para que ainda houvesse espaço para uma linha narrativa explorando conflitos internos d’A Prisão, contrariedades e um “infiltrado” mandado para exterminar.

Saber o passado do Governador e dos outros prisioneiros foi uma ótima colocação da reta final, mas tomar as consequências desse passo como um drama em continuidade tornou a parte final da obra chata, sentimento ainda mais forte quando percebemos que os que agiam nas sombras e os motivos pelos quais agiam não eram tão interessantes quanto pareciam ser. Eis o clássico caso de livro que começa bem, tenta ganhar ainda mais em cima de coisas já criadas e exploradas até o limite exato, perdem o passo e comprometem a qualidade da obra inteira.

A despeito desses tropeços, temos um final caloroso, como já citei antes, com o Doutor cozinhando, rindo e brincando com Clara e o Governador. Pelo menos nesse aspecto, Goss não deixou o texto cair e nos entregou um final que clama por redenção, uma perfeita ironia vinda de um chefe de prisão que tinha uma concepção cega e nebulosa de justiça e jamais acreditava em perdão ou recuperação de um criminoso. Percebem o quão polêmico e interessante A Cela de Sangue pode ser (importante citar que o título original tem duplo sentido, tando podendo se referir à Cela de Sangue — a do “andar oculto” — quanto à Célula de Sangue, ou Glóbulo, lembrando da epidemia que levou o Governador da prisão a ser o Governador da prisã0) trazendo temas atuais e moralmente complexos à tona? Mesmo sendo um livro mediano, ele é bastante relevante para falar de certas coisas a partir do Universo de Doctor Who.

Doctor Who: The Blood Cell (Reino Unido, 2014)
Autor: James Goss
Editora: BBC Books
256 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.