Crítica | Doctor Who: A Cidade no Fim do Mundo, de Christopher Bulis

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Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Tempo: Futuro Distante
Espaço: Planeta Sarath, Cidade de Arkhaven

Quando escreveu o romance O Aprendiz de Feiticeiro para a linha Missing Adventures, o autor Christopher Bulis mostrou entender muito bem os personagens que compõem a tripulação original da TARDIS, além de conseguir reproduzir a atmosfera da 1ª Temporada da Série Clássica com precisão. Por outro lado, embora fosse uma história muito divertida, o livro anterior de Bulis estrelado pelo 1º Doutor acabava reproduzindo também muitos dos vícios negativos da Era Hartnell, e em uma crítica menor minha, perdia a oportunidade que o formato literário oferece de explorar os personagens da TV de uma forma que não era possível em 1963. Por isso, quando soube que Bulis voltou a escrever uma aventura pra esse time da TARDIS para a linha Past Doctor Adventures, fiquei muito curioso para conferir se o autor conseguiria evoluir o que tinha feito em O Aprendiz de Feiticeiro. A resposta felizmente é positiva, embora o livro ainda apresente percalços.

Situado entre os arcos The Reign of Terror e Planet of The Giants, A Cidade no Fim do Mundo tem início com a chegada da TARDIS no planeta Sarath, em um futuro distante, materializando-se no alto de uma torre em ruínas. Inicialmente, Barbara e Ian ficam receosos em explorar o ambiente alienígena, mas são convencidos pelo Doutor. Mas enquanto eles desciam a torre, uma chuva de meteoros atinge o planeta, enterrando Barbara viva junto com a TARDIS e deixando Susan gravemente ferida. Para piorar a situação, o Doutor e Ian são informados pelo prefeito de Arkhaven, cidade onde eles se encontram, que Sarath está condenado, pois sua Lua saiu de órbita e se encontra em rota de colisão com o planeta. O Doutor e Ian agora devem correr contra o tempo para resgatar Barbara e sair do planeta, mas a cidade de Arkhaven guarda mais segredos do que aparenta inicialmente.

A Cidade no Fim Do Mundo trabalha com conceitos muito básicos da ficção científica em seu retrato da cidade de Arkhaven, e digo isso no melhor dos sentidos. Arkhaven é uma cidade futurista, com direito a carros flutuantes e tudo, mas a sua estrutura social se assemelha a um regime medieval, onde as famílias de “Sangue Nobre” e o clero são privilegiados diante da população comum. Com o fim do mundo se aproximando, a cidade passa a investir todas as suas esperanças em um gigantesco foguete que será usado para evacuar as pessoas do planeta. A questão é que não há espaço para todos e conseguir uma passagem para dentro do veículo de fuga torna-se o sonho de todos aqueles que não são privilegiados pela política, sobrenome ou igreja.

Desta forma, Bulis constrói uma interessante alegoria para a velha questão da luta de classes, mas sem deixar que seus personagens caiam na caricatura. Deve-se parabenizar o autor também por conseguir trabalhar uma variedade de temáticas muito interessantes como a reação da igreja diante do surgimento de alienígenas e a questão filosófica da consciência das máquinas A.I. O autor vai inserindo estas discussões ao longo da trama com relativa fluidez e naturalidade, sem com isso tirar o ritmo da narrativa. A ambientação é outro grande acerto do livro, já que a prosa do escritor nos faz visualizar muito facilmente a cidade de Arkhaven, com suas torres luminosas, contrastando com as escuras e estranhamente desertas ruas da cidade. O grande foguete é uma presença visual frequente, como um lembrete constante de que o relógio está correndo e de que uma Lua logo se chocará com o planeta.

Devo confessar que apesar da boa ambientação, as primeiras páginas de A Cidade no Fim do Mundo podem soar um pouco enfadonhas, pois tirando a equipe da TARDIS, os personagens originais não são cativantes. Não que eles sejam mal escritos, ou mesmo unidimensionais, mas eles fazem muito mais do que cumprir a sua função dramática, não conseguindo cativar o leitor. Percebe-se que Bulis é muito mais um autor de trama do que um autor de personagens, por que esse início lento é necessário para estabelecer a dinâmica da cidade de Arkhaven para além dos olhos dos visitantes, mas torna-se enfadonho sem personagens originais mais fortes.

Passado os trechos de introdução, o romance entra em um grande crescendo, equilibrando muito bem as subtramas. Desde o início percebemos que há algo de muito errado em Arkhaven, quando o Doutor e Ian tentam resgatar o motorista de um carro durante a chuva de meteoros que sucede à sua chegada só para descobrirem que se trata de um manequim. Esta é apenas a ponta do iceberg de uma trama muito maior, que vai sendo revelada aos poucos, até a chegada das sessenta páginas finais, onde a narrativa adquire um ritmo alucinante com reviravolta em cima de reviravolta que deixara o leitor totalmente sem fôlego. O autor escorrega apenas no final, ao acrescentar um último twist envolvendo o supercomputador Monitor, que embora não esteja fora de contexto com o que havia sido apresentado antes, soa bastante atravessado na narrativa.

Falando dos personagens da série, Bulis retrata o 1º Doutor no que parece ser um estado de transição. Embora mais uma vez seja a sua curiosidade que coloca os seus companheiros em perigo, o Time Lord está pronto pra assumir tal responsabilidade aqui, e sente grande culpa pelo grave estado de saúde de Susan e pelo desaparecimento e possível morte de Barbara, embora não deixe tal culpa ficar no caminho de sua praticidade. Este é um Doutor que também consegue simpatizar com a situação desesperadora dos cidadãos de Arkhaven, diferente do insensível Time Lord do começo da série, mas sua prioridade ainda é a segurança de sua neta e de seus amigos humanos, e a única coisa que o impede de deixar o planeta em primeira instância é o roubo da chave da TARDIS, quando um ladrão o ataca, desesperado para encontrar algo de valor a fim de comprar uma passagem para o foguete.

Ian é muito bem aproveitado, conseguindo ser mais do que apenas o cara que faz o trabalho braçal para o Doutor. Ian passa boa parte do livro preocupado em resgatar Barbara, perdendo cada vez mais a esperança de achá-la viva à medida em que o romance avança. O livro apresenta um Ian que começa a ver a colega como algo mais do que uma amiga, embora se mostre ainda bastante confuso em relação aos seus sentimentos. É um arco dramático simples, mas Bulis faz funcionar. Acho apenas que o autor perde uma chance de criar uma tensão que seria muito bem-vinda entre Ian e o Doutor, mesmo que esse fosse um momento em que a relação dos dois estava mais harmonizada. Mas como o próprio Ian diz, não havia nada que ele pudesse dizer que fizesse o velho Gallifreyano se sentir pior do que já estava se sentindo.

Embora passe boa parte da história em um estado de semiconsciência devido aos ferimentos que sofreu na queda da torre, os trechos focados em Susan são muito interessantes. O autor adota uma prosa quase febril e não sabemos se o que a moça vê e ouve é delírio ou realidade, como por exemplo, o fato se ver em locais onde o leitor, a princípio, sabe que ela não está. O momento em que a jovem chega às portas da regeneração devido aos seus ferimentos ainda no começo do livro é digno de nota, pois mesmo que eu soubesse que a Time Lady não ia regenerar, a prosa de Bulis foi envolvente o bastante pra me deixar apreensivo. E ter Susan pensando desesperada “Eu não Quero Mudar!” acaba se tornando um belo fan service involuntário.

Barbara acaba sendo a personagem mal explorada do time da TARDIS. Sua trama se resume a ficar rastejando pelos esgotos da cidade, apenas para cair na subtrama mais desinteressante do livro, que é a dos alienígenas inimigos do povo de Arkhaven (embora essa subtrama seja o estopim para o ótimo 3º ato do livro, em uma excelente reviravolta que me deixou de queixo caído). Ainda assim, Barbara tem muito pouco a fazer, parecendo ser subexplorada pela história.

Com seus erros e acertos, A Cidade no Fim Do Mundo é um bom romance de ficção científica que lida muito bem com os clichês do gênero. O Doutor e seus companions são muito bem retratados e o espírito da Era Hartnell é capturado com primor, em uma trama cheia de reviravoltas e bons pontos de discussão. Peca apenas pela falta de personagens originais mais marcantes e por uma única reviravolta atravessada no final. Mas com certeza é uma boa leitura, tanto para fãs de DW quanto para quem curte histórias de ficção científica da velha escola.

Doctor Who: A Cidade No Fim Do Mundo (City at World’s End) Reino Unido. 06 de Setembro de 1999.
Autor: Christopher Bulis
Publicação: BBC Past Doctor Adventures #25
Páginas: 266

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.