Crítica | Doctor Who: A Guerra dos Daleks, de John Peel

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Equipe: 8º Doutor, Sam Jones
Espaço: Cargueiro Espacial Quetzel, Antalin, Skaro
Tempo: Futuro não Especificado

Em uma série onde viajar no tempo é comum, o uso de retcons está longe de ser incomum. Peri Brown morre em Mindwarp só pra ser trazida de volta á vida em The Ultimate Foe. Por quase dez anos acreditou-se que o planeta natal do Doutor havia sido destruído, só para Gallifrey ser resgatada em The Day of The Doctor. Então, quando o planeta Skaro, lar dos Daleks foi destruído em Remembrance of The Daleks, muitos já sabiam que poderia levar anos, mas Skaro voltaria. O planeta ensaiou um retorno em Doctor Who: O Senhor do Tempo, mas aquele seria um momento anterior à destruição do planeta no conflito entre Davros e o Sétimo Doutor. Coube ao autor veterano John Peel a missão de realizar o retcon que restauraria Skaro no universo de Doctor Who, resultando em um dos mais polêmicos livros da linha EDA, A Guerra dos Daleks.

Na trama, o Oitavo Doutor juntamente com sua companion Sam Jones, realiza reparos nos sistemas de defesa da TARDIS, em pleno espaço sideral, onde supostamente seria seguro. A nave, entretanto, é recolhida pelo Cargueiro Quetzel, que coleta lixo espacial. Logo, o Doutor e Sam descobrem que a equipe do Quetzel está muito intrigada com uma misteriosa cápsula recolhida recentemente e que ainda não conseguiram abrir. Mas antes que o Time Lord tenha tempo de analisar a cápsula, o cargueiro é abordado por velhos conhecidos do doutor, os Thals, que revelam que a cápsula guarda ninguém menos que Davros, o criador dos Daleks, que sobreviveu à detonação da Mão de Ômega. Mas estes Thals são bem diferentes daqueles que o Doutor conheceu no passado, e planejam usar Davros para encerrar a sua longa guerra contra os Daleks. E há uma tropa de Daleks a caminho, com seus próprios planos para Davros.

Com A Guerra dos Daleks, Peel tinha muitas tarefas a cumprir. A primeira era reintroduzir Davros e os Daleks no universo de Doctor Who, já que após o fim da Série Clássica, problemas de direitos autorais entre Nation, criador dos personagens, e a BBC, impediram que eles participassem de histórias do Universo Expandido (podendo ser apenas citados) sendo este o primeiro romance original com a presença dos guerreiros de Skaro. Além da citada restauração de Skaro, Peel foi incumbido de encerrar o arco da Guerra Civil Dalek, iniciado em Destiny of The Daleks, e que se desenrolou até quase o fim da série, encerrando-se aparentemente com Remembrance of The Daleks. Tratava-se de uma demanda ambiciosa e, nesse sentido, John Peel parecia a opção certa, já que apesar de seus defeitos como escritor, falta de ambição nunca foi um deles. Mas A Guerra dos Daleks é o típico caso em que a ambição do autor é posta acima da qualidade da história.

É preciso reconhecer que Peel é um dos poucos autores de DW que consegue dar vida aos ambientes onde se passam suas tramas, com uma riqueza de detalhes que nunca soa prolixa. O prólogo, onde acompanhamos uma batalha campal entre Daleks e Thals no planeta Antalin, é cheio de emoção, e o autor não só nos apresenta aos principais personagens do núcleo Thal, como faz uma verdadeira homenagem á criação de Terry Nation, fazendo um desfile de todo o tipo de Dalek e arma Dalek que havia aparecido na série até o momento, inclusive os Daleks coloridos dos filmes estrelados por Peter Cushing, e acreditem, os Daleks-aranhas que teriam sido utilizados caso a Fox tivesse aceitado produzir uma Série completa com o Doutor de Paul McGann. Este prólogo está entre as melhores coisas da obra, pois não só conta com uma ação bem conduzida, como apresenta o atual estágio da cultura dos Thals, séculos depois de seu último encontro com o Doutor (do ponto de vista deles) em Planet of The Daleks.

Passado esse prólogo, temos alguns momentos divertidos entre o Doutor e sua companion Sam (cujo meu primeiro e único contato é neste livro). Peel faz um trabalho muito melhor em captar o 8º Doutor aqui, com sua ironia fina e cavalheirismo quase galante do que em O Legado dos Daleks. O autor também sabe dar ritmo á obra. A Guerra dos Daleks é o tipo de história que não para, com os acontecimentos se sucedendo rapidamente, mas ainda assim posicionando bons momentos para respiração.

Mas o maior mérito do autor é a sua abordagem dos Thals. É curioso que ao longo da Série, encontramos os Thals em momentos muito diferentes de sua história. Em The Daleks, eles eram um povo tribal e pacífico, praticantes da não-violência, e que são praticamente forçados a lutar pelo 1º Doutor. Em Planet of The Daleks, eles já são um nobre povo guerreiro com um rígido código de honra, enquanto em Genesis of The Daleks, vemos Thals bélicos que escravizam prisioneiros e que só não se tornaram os Daleks por que Davros estava do outro lado da linha inimiga. Neste livro, encontramos os Thals vivendo em guerra há tanto tempo que o conflito se tornou seu meio de vida. Eles estão tão obcecados em destruir os Daleks que não se importam com danos colaterais ou mesmo exigir que Davros os aprimore geneticamente para que se tornem superior aos Daleks em combate, em um macabro sinal de que a história pode se repetir.

Tais conflitos são representados por Delani, e por sua segunda em comando, Aiaka. Delani é um comandante fanático, disposto a sacrificar tudo e todos por sua missão. Aiaka por sua vez, torna-se a melhor personagem da obra, tendo a sua honra e orgulho militar chocando-se com suas noções de certo e errado. A ironia é que foi o Doutor em sua primeira encarnação que ensinou os Thals a pegar em armas. Tal aspecto da trama gera um ótimo conflito para o protagonista, que em mãos mais capazes poderia ter rendido um belo exercício de reflexão, mas que infelizmente é superado com algumas palavras de Sam.

O autor também apresenta um dos retratos mais interessantes de Skaro visto em qualquer mídia. A passagem em que o Doutor e Sam são levados à sala do trono do Imperador Dalek, que lhe dá uma visão panorâmica da cidade Dalek fará a imaginação de qualquer Whovian fervilhar, com Daleks flutuando como em uma verdadeira colmeia. O próprio Imperador Dalek é um vilão muito bem trabalhado, e como na TV, mostra-se um adversário intelectual á altura tanto para o Doutor quanto para Davros, já que o Imperador parece ter um plano de back-up para cada situação. O seu movimento final para encerrar a Guerra Civil Dalek não se limita apenas a executar Davros, mas desacreditar completamente o cientista Kaled como um líder diante de suas criações através de um julgamento onde temos um interessante diálogo entre criador e criatura.

Mas se a história tem qualidades, por que é tão polêmica, e por que a nota baixa? Vamos começar pelo retcon. No romance, descobrimos que no tempo em que dominaram a terra em The Dalek Invasion of Earth os Daleks tomaram conhecimento da possível destruição de Skaro pelo uso de Davros da Mão de Ômega. Por isso, eles terraformaram o Planeta Antalin (sim, o autor usa o mesmo nome para dois planetas diferentes na trama sem motivo algum) para que se assemelhasse com Skaro, e assim fosse Antalin a ser destruída pela Mão de Ômega. Um plano simples para os padrões de DW, que poderia ter perfeitamente explicado a sobrevivência de Skaro. Mas o autor cria um longo e desnecessariamente complicado enredo que envolve todas as histórias Dalek exibidas nos anos 80. Basicamente, Peel nos diz que a guerra Dalek-Movellan, o vírus Movellan, e a ascensão de Davros a imperador eram parte de uma farsa montada pelo Imperador Dalek para fazer Davros acreditar que Antalin era Skaro, provocando assim a destruição do primeiro planeta. Os Movellans inclusive eram robôs a serviço dos Daleks. Aqueles familiarizados com essas histórias possivelmente se sentiram enganados ao perceber que todos aqueles arcos eram mentiras elaboradas. Mentiras mal contadas ainda por cima, já que nenhum daqueles arcos parece dar qualquer sustentação à história de Peel.

Se este fosse o único problema, poderíamos dizer que A Guerra dos Daleks foi uma boa história que pecou pelo excesso de ambição. Mas existem mais tombos e tropeços na narrativa. A prosa de Peel muitas vezes soa ingenuamente grandiloquente, como na cena em que Sam descreve o Doutor como tendo a aparência de um poeta do Século XIX, uma alma ingênua num mundo frio e cruel, lutando para dar algum sentido a tudo isso. A própria Sam é uma personagem problemática. Aqueles que acham que Rose Tyler é uma companion ciumenta e possessiva, ainda não conheceram Sam Jones. Não só a garota é dona de alguma das piores linhas, como se melindra de absolutamente qualquer outra mulher que se aproxime do Time Lord, e tem pouca função prática. Como essa é a única história que li com Sam, não sei dizer se Peel escreve a personagem muito mal ou se ela é chata por natureza e o autor só seguiu o protocolo.

Temos ainda a presença de subplots que não levam a lugar nenhum. Em certo ponto, temos um único personagem que não está sendo mantido prisioneiro pelos Thals a bordo do cargueiro espacial. Ele está armado e sedento por vingança, mas é descartado sem demora. Mais pra frente, já em Skaro, o Imperador Dalek faz um acordo com o 8º Doutor. Se algo der errado durante o julgamento e Davros escapar, o Gallifreyano deve matar o cientista Kaled, em troca de um passe livre para fora do planeta para si mesmo, Sam, e os sobreviventes do cargueiro. Mas o Doutor nunca chega sequer perto de ter que enfrentar tal conflito, o que leva o leitor a perguntar por que o autor o apresentou.

No frigir dos ovos, não dá pra dizer que A Guerra dos Daleks não é um livro divertido. Ele lida bem com os personagens título, traz uma das mais interessantes descrições da civilização Dalek, tem um ritmo alucinante, fecha o longuíssimo arco da Guerra Civil Dalek com elegância no debate entre Davros e o Imperador Dalek, e lança uma abordagem corajosa, e coerente para os Thals. Mas muitas dessas qualidades são completamente sublimadas por imperícias do autor, que comete uma série de erros bobos que poderiam ser facilmente evitados com uma revisão mais acurada. Peel tem ambição narrativa, e eu o respeito por isso, mas infelizmente suas habilidades como escritor nunca parecem atingir as suas ambições.

Doctor Who: A Guerra dos Daleks (War of The Daleks) — Reino Unido. 06 de Outubro de 1997.
Autor: John Peel
BBC Eight Doctor Adventure # 5
Publicação: BBC Books,
277 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.