Crítica | Doctor Who: Agent Provocateur

estrelas 3,5

Equipe: 10º Doutor, Martha Jones
Espaço-tempo: Wisconsin, 1958 / Costa del Centauri VI / Korovoa V.3 Milk Bar, Estação Espacial na Via Láctea, século 42 / Reino Unido, 18 de setembro de 1957 e 1974 / New Savannah, 4.999.999.999 / Planetas Omphalos e Kas, 5.000.000.000 / Planeta Nyrruh 4 / Egito, 3000 a.C. / Planeta Mere

O maior problema da minissérie Agent Provocateur é que seu roteiro trabalha com duas propostas de organização narrativa contrastantes. Num primeiro momento, Gary Russell brinca com a ideia de colocar o Doutor e Martha Jones em uma série de “passeios de férias”, todos regados a milkshakes de chocolate. Uma dessas viagens inclui até a passagem da dupla pelo México dos Astecas, algo que no passado já tinha dado ao Doutor o seu primeiro noivado, na viagem que ele fizera para esta antiga civilização ao lado de Ian, Barbara e Susan.

Em paralelo a esse divertimento temos eventos um tanto malucos acontecendo em planetas diferentes de todo o Universo. Populações inteiras desaparecem, ficando para trás apenas um indivíduo, uma espécie de testemunha ocular, um link afetivo. Como nenhuma dessas histórias parecem ter relação entre si no primeiro momento da aventura, o leitor fica confuso e levemente irritado: afinal, Agent Provocateur seria uma minissérie de crônicas ou essa desconexão era apenas um recurso irritante do roteirista no início da saga?

A arte funciona muito bem, já o roteiro…

Bem, a resposta é a segunda opção. O drama dos desaparecimentos, o encontro do Doutor e Martha com alguém que não esperavam e o enigmático e deslocado episódio das esculturas de areia dão indícios de uma unidade geral à trama. Contornos épicos apontam no horizonte do enredo e é exatamente por esse caminho que Gary Russell guia o seu texto. No entanto, aí temos o nosso problema.

O início claudicante de uma aventura desse porte certamente atrapalharia de forma terrível o andamento da história em algum ponto e… surpresa surpresa… esse momento foi justamente o final, quando mais precisávamos de uma estrutura textual menos cheia de nós para que apreendêssemos o que de fato acontecia. Ou seja, o início simples e despreocupado é pautado progressivamente pelo caos e pela crescente incompreensão do espectador em relação ao que acontecia! De diálogos pequenos e modestos adentramos para uma verborrágica sequência de quadros repletos de explicações disfarçadas, forçadas e quase incompreensíveis.

É guerra!

Mas se há algo que funciona bem durante todas as seis edições de Agent Provocateur é a arte. Talvez por passar pelas mãos de diferentes artistas ou talvez porque o roteiro de compleição épica escrito por Gary Russel funciona realmente bem para criação de belas imagens mas não como unidade em si, o fato é que os ambientes alienígenas, os interiores de naves, paisagens de alguns planetas e cenas de batalha são maravilhosamente ilustradas pelo time de artistas e recebem um igualmente elogiável trabalho de cores. Particularmente gosto mais dos quadros com desenhos de grandezas diferentes (quando aparece o Panteão ou algum de seus membros), imagens do limbo galáctico ou raças alienígenas diferentes ocupando o mesmo espaço. Das feições conhecidas no desenho, Martha é a que mais sofre, em algum sentido, não por bizarrices em relação à semelhança mas porque recebe uns primeiros planos fazendo caretas que nos fazem rir quando não deveríamos.

O público consegue ler sem esforços hercúleos e até gostar de Agent Provocateur, mas será preciso muito boa vontade para enfrentar os enormes textos explicativos da fase final, uma tentativa rápida de explicar algo que poderia ser facilmente desenvolvido aos poucos no decorrer das edições caso o criador da minissérie não tivesse a intenção de começar tudo como um programa de férias que deu errado.

Esperamos que Gary Russell tenha aprendido a lição.

Doctor Who: Agent Provocateur (Reino Unido, 2008)
Minissérie em 6 edições
Roteiro: Gary Russell
Arte: Nick Roche, Jose Maria Beroy, Stefano Martino, Mirco Pierfederici
Cores: Charlie Kirchoff, Tom Smith
26 páginas (cada número)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.