Crítica | Doctor Who Annual – Quadrinhos (2006 – 2010)

Após o cancelamento dos Yearbooks (que foram os anuários de Doctor Who publicados pela Marvel britânica nos anos 90), nenhuma publicação do gênero — ou seja, no formato de revista ou coletânea anual — foi lançada. Esse tipo de publicação da série voltou apenas em 2006, com o revival do programa, tendo Chris Eccleston no papel do 9º Doutor.

O presente grupo de textos traz críticas para todas as histórias em quadrinhos desta fase, publicadas entre 2006 e 2010. A publicação dessas revistas esteve a cargo da BBC Children’s Books e da Penguin Group. É importante ressaltar que não se deve confundir os anuários da BBC com os da IDW, publicados a partir de 2010. No segundo caso, não trata-se de uma revista com puzzles, reportagens e matérias em geral sobre a série, trata-se de uma publicação anual APENAS com histórias em quadrinhos.

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Mr Nobody

DW Annual 2006
estrelas 4

Equipe: 9º Doutor e Rose
Espaço-tempo: Londres / Nave Vandosiana, 2005

Meu nome não é Shogalath, o destruidor do Império Vandos” poderia ser o subtítulo desta história e talvez daria um bom título de filme B, uma comédia brasileira com alguém bem ruim no elenco…

Eis aqui um ótimo retorno para os anuários de DW! A história começa em Londres, com um rapaz de 26 anos chamado Phil Tyson e que tem uma vida de cão, trabalhando num restaurante qualquer e sendo maltratado diariamente pelo patrão. Até que ele é teletransportado para uma nave Vandosiana, na órbita da Terra, para ser julgado por crimes galácticos.

Tudo nessa aventura tem um gosto especial de retorno e uma atmosfera que captura perfeitamente as atitudes do 9º Doutor; seu senso de humor, sua relação com os aliens que enfrentou, sua postura carrancuda e muitas vezes rude. Por outro lado, Rose tem uma ótima participação aqui, tendo um papel essencial na história, não apenas servindo de companion observadora.

Valores morais, possibilidade de reencarnação, dúvidas whovians, humor e tensão marcam o ótimo texto de Scott Gray, que na reta final exagera um pouco, complicando os elementos que levariam à resolução do caso, mas mantendo a qualidade geral da história. A arte de tonalidade azulada de John Ross também realiza seu papel muito bem, contextualizando dramaticamente esse julgamento injusto. Um ótimo recomeço para o Doutor!

Roteiro: Scott Gray
Arte: John Ross

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Down the Rabbit Hole

DW Annual 2007
estrelas 2,5

Equipe: 10º Doutor e Rose
Espaço-tempo: Terra: parque temático animado, após 2025.

Com temas fantasiosos e literários — Alice no País das Maravilhas, Branca de Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho — essa história tinha todos os ingredientes para ser bem melhor do que acabou se tornando. O Doutor e Rose começam a história tentando se adaptar a um lugar bonito e sem ameaça alguma à vista, o que deixa a companion bastante inquieta. O Doutor sabe que estão no Planeta Terra, mas não exatamente onde ou quando, se bem que com uma indicação dada por ele mesmo, temos certeza de que esta história se passa após o ano de 2025.

A narrativa vai bem até o ponto em que a paz o local é alterada e um potencial vilão aparece. O grande problema é que não se trata de um vilão propriamente dito. A revolta do garoto aqui parece algo mais justificável do que qualquer outra coisa e a fala do Doutor para Rose, nos quadros finais da história, chega a ser meio constrangedora em relação ao rumo que a aventura tomou. Começamos em um parque temático, passamos para uma possível piada do Doutor sobre a ação do garoto vilão da história e daí para citações de Shakespeare e afins. Definitivamente Jacqueline Rayner tem problemas em manter foco narrativo.

Roteiro: Jacqueline Rayner
Arte: John Ross

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Myth Maker

DW Annual 2008
estrelas 2,5

TMMEquipe: 10º Doutor e Martha
Espaço-tempo: Escócia, Idade Média

Mitos, dragões, medo de uma população que não sabe lidar com o que está acontecendo, coisas do tipo. A história aqui tem um teor histórico tão bacana, que é uma pena o roteiro de Davey Moore falhar em contextualizar melhor os dragões na Terra e de fato como o Doutor conseguiu contato tão rápido com os pais do bebê. Sem contar o sumiço dos bodes montanheses, que acabam não fazendo muito sentido, considerando a narrativa do pobre comerciante que á carona para o Doutor e Martha.

Além dessas questões, não dá para parar de se perguntar como eles conseguem andar meio dia de charrete e em apenas dois quadros voltarem para perto da TARDIS. Como disse antes, é realmente um apena que esses buracos no texto atrapalhem uma história tão interessante e com bom apelo familiar e histórico-sociológico, por assim dizer. E para completar, já dentro da TARDIS, o diálogo final entre o Doutor e Martha não tem graça algum — e pior que o roteirista quis ser engraçado — destoando totalmente do teor das conversas que tiveram na aventura. Que desperdício!

Roteiro: Davey Moore
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

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Swarm Enemies

DW Annual 2008
estrelas 3

Equipe: 10º Doutor e Martha
Espaço-tempo: New Colorado

Mesmo tendo algumas características infantis e de contexto pouco desenvolvido, essa história acerta bastante no tipo de situação de corporações corruptas, tentativa de ganhar uma causa através de boicote e impossibilidade de ação por parte das vítimas. Em relação ao local, sabemos que se passa em New Colorado, mas só isso. Não é possível saber ao certo se New Colorado é nos Estados Unidos do futuro ou se é uma colônia terráquea em um outro planeta.

A participação do Doutor e Martha na história é perfeitamente plausível e só perde pontos porque não completa o ciclo de interações com os trabalhadores do início da história, que tentam capturá-los. Mais uma vez temos uma população assustada por algo sobre o qual não possuem controle algum. A única diferença é que aqui eles acabam sendo bastante agressivos com qualquer tipo de visitante, fator que serve de motor para a incursão dos viajantes na história, mas que tende a mudar de figura com o passar das páginas.

Roteiro: Davey Moore
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

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The Greatest Mall in the Universe

DW Annual 2009
estrelas 3,5

Tgmiu

Equipe: 10º Doutor e Donna
Espaço-tempo: Planeta-shopping Liater

Donna quer ir fazer compras. Como sempre, a companion deixa claro para o Doutor que quer fazer coisas fora da agenda do Time Lord, sem aventuras assustadoras e coisas do tipo. E como sempre o Doutor cede e a leva para conhecer lugares onde vão apenas se divertir. Ao menos em tese.

O planeta-shopping que o Doutor chega aqui parece um lugar normal, quase um Frenko Bazar da era do 2º Doutor: tudo parece funcionar muito bem à primeira vista, há muitas espécies aliens fazendo compras por todos os lados e o lugar é interessante, mas não demora muito e a sua verdadeira face se revela.

O interessante dessa história é que não existe, na verdade, um vilão. Existe uma situação social que coloca Donna no lugar de uma das mais conhecidas e adoradas atrizes e modelos dessa região galáctica. Por envolver regras sociais e ter consequências desastrosas em jogo, o roteiro investe em dois lados dramáticos, um de possível rebeldia e outro de possível banditismo, versões que o leitor não está completamente certo sobre qual escolher como principais mas que entende perfeitamente ao final da história. Ao cabo, The Greatest Mall é uma história de resgate e demonstração de solidariedade por parte do Doutor e Donna, um exemplo positivo de como a fama de alguém pode influenciar, e muito, decisões importantes em qualquer esfera da sociedade.

Roteiro: Colin Brake
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

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The Time Sickness 

DW Annual 2009
estrelas 3

Equipe: 10º Doutor e Donna
Espaço-tempo: Planeta Methuselah

Um planeta com um campo de força que causa um acelerado processo de envelhecimento nas pessoas — que não deveriam estar lá, para começo de conversa. O início dessa história de Trevor Baxendale promete bem mais do que o roteirista acaba entregando no decorrer das páginas. Mas não deixa de ser divertida e causar uma certa tensão no leitor.

Como o local em que o Doutor e Donna estão foi posto em quarentena, percebemos que a ameaça é realmente potente e que afeta mais Donna do que o Doutor. A companion envelhece rapidamente e é guiada para um estranho castelo como se fosse uma vovó que se perdera na escuridão da noite de um lugar bem estranho.

A ambição do roteirista acaba fazendo com que as coisas se tornem confusas do meio para o final da aventura. Os sentinelas que são rebootados pelo Doutor não causam impacto nenhum na história, como se sua presença — que visivelmente deveria ser um motivo de medo para os viajantes do tempo — fosse apenas um capricho momentâneo e pouco acrescentasse aos eventos. De fato, eles poderiam nem aparecer na história e não sentiríamos falta.

O texto se salva pela boa construção inicial, uma equilibrada abordagem da relação entre Donna e o Doutor e brincadeiras com o canon da série, destacando-se a reversão de polaridade do fluxo de nêutrons que o 10º Doutor faz em uma das máquinas, uma ótima lembrança dos tempos de sua 3ª encarnação.

Roteiro: Trevor Baxendale
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

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Death Disco

DW Annual 2009
estrelas 2,5

Dd

Equipe: 10º Doutor e Donna
Espaço-tempo: Cosmos Ballroom, 9 000 002 / Birminghan, 2009

E o modelo da história interessante arrasada por uma ambição boba do roteirista em fazer algo épico se repete. Alan Barnes não se contenta e criar uma trama de mão única, com o Doutor e Donna em um asteroide chamado Cosmos Ballroom onde uma competição de dança de alcance galáctico era realizada anualmente. Não. O autor resolve também trazer a TARDIS para a Terra, criar uma versão estúpida com zumbis presos no tempo desde 1984, dançando sem parar. E para piorar, o final da história é aberto, o que dá a desculpa para que nem uma parte nem outra da história consiga uma finalização aceitável.

De elogiável temos mais uma vez a relação do Doutor com Donna e toda a sequência no Cosmos Ballroom. Já a sequência de eventos na Terra, em 2009, classificamos como completamente descartável, não só por ser mal escrita, mas também porque não acrescenta nada à trama de abertura e contribui quase que exclusivamente para a finalização tortuosa do roteiro.

Roteiro: Alan Barnes
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

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The Vortex Code

DW Annual 2010
estrelas 2,5

Tvc

Equipe: 10º Doutor
Espaço-tempo: Asteroide Gorlon / Planeta Chrone

Aqui chegamos à fase do 10º Doutor viajando sozinho, antes de sua aventura final em The End of Time (tanto essa história quanto a seguinte, Health & Safety, acontecem entre os arcos Planet of  the Dead e The Waters of Mars). Na presente história, ele está passando por um asteroide, vê uma nave cair e materializa a TARDIS para oferecer ajuda. Toda a tripulação humana da nave morreu, mas um Servitor Robot Mark 9, apesar dos sérios danos, sobreviveu à queda. O Doutor vai ajudá-lo a se reparar.

Se a história tivesse centrada apenas nesse patamar, poderia ser uma daquelas inteligentes tramas de bom relacionamento do Doutor com aliens em apuros… Mas eis que alguns piratas espaciais cercam o Time Lord e o Servitor e cobram a chave para o Vortex, algo que o Doutor descobrirá logo em seguida ser um portal temporal capaz de levar quem tiver o código para Chrone, o primeiro planeta do Universo, (o 11º Doutor diria, futuramente, que o primeiro planeta do Universo era Planet One…).

Veja que a ligação entre uma trama e outra é tênue, forçada e de motivações completamente opostas. Esses fatores acabam distraindo o leitor, retirando o potencial da história e fazendo com que ela chegue ao final desprovida da maior parte dos fatos interessantes que pudesse ter se fosse centrada em uma única veia narrativa.

Roteiro: Trevor Baxendale
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

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Health & Safety

DW Annual 2010
estrelas 1

H&s

Equipe: 10º Doutor
Espaço-tempo: Terra, Período Cretáceo

E a Era do 10º Doutor termina de forma vergonhosa nos anuários de DW, sob tutela da BBC. A história aqui tem um ponto de humor válido e que combina bastante com o Time Lord nessa fase da vida — um humor nervoso, mais ou menos prevendo o que já estava por vir — mas fora isso, pouco nos mostra de interessante.

A TARDIS se materializa dentro de uma caverna na Terra, em pleno Cretáceo, e o Doutor encontra o Comandante Amyt e a cientista Fish fugindo de alguns dinossauros famintos. Como não pode reparar a TARDIS por algum motivo misterioso e bobo, o Doutor resolve dar um passeio ao redor, considerando todos os perigos em jogo. Ele acaba descobrindo um Automatic Health & Safety Hologram que guarda uma nave que caíra na Terra e que estava causando a queda de muitas outras naves, justamente o que aconteceu com os dois amiguinhos do Doutor nessa aventura.

O grande problema é que nada se resolve e a fuga dos dinossauros vai nos tornando cada vez mais indiferentes à medida que os quadros vão passando. O tom de despedida e amizade que pontua os dois últimos momentos da história sequer conseguem marcar uma boa impressão final, graças ao deplorável “desenvolvimento” do drama.

Roteiro: Christopher Cooper
Arte: John Ross
Cores: James Offredi

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.