Crítica | Doctor Who: As Crônicas do 9º Doutor – Vol.1

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The Ninth Doctor Chronicles é mais uma aplaudível iniciativa da Big Finish Productions em continuar ou complementar as histórias da Nova Série, desta feita, com o 9º Doutor em cena, embora não com Christopher Eccleston no papel — o ator mantém-se firme em sua posição negativa frente à BBC, em todos os seus aspectos contratuais, dado o mistério e os maus termos em que ele saiu da série, após a 1ª Temporada, em 2005.

Esta antologia de 4 episódios faz parte da nova Era de contratos da BBC com a BF, e foi lançada em 4 de maio de 2017, com Nicholas Briggs fazendo a narração das histórias e também assumindo a interpretação do Nono Doutor. Claro que as críticas desta temporada estão repletas de SPOILERS!.

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The Bleeding Heart

The Ninth Doctor Chronicles 1X01

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Existem ocasiões em que, por mais que alguém fuja da guerra, a guerra parece não querer fugir desse alguém. Esta é a relação que pensamos imediatamente ao ouvir essa excelente história de Cavan Scott para a série The Ninth Doctor Chronicles. Neste episódio, chamado The Bleeding Heart, temos a estreia dessa incrível jornada do Time Lord, aqui, recém-regenerado, após os eventos de The Day of the Doctor. Em um novo corpo e ainda bastante impetuoso, sem prestar muita atenção em nada, buscando apenas um objetivo: encontrar paz, curar-se das feridas e da dor que a Time War lhe causou. É assim que o 9º Doutor chega ao planeta Galen, causando um certo tumulto, encontrando aquela que será sua companheira de uma viagem, a repórter da rede Cosmic Nine, Adriana Jarsdel.

Há um motivo muito específico do por quê o Doutor foi para Galen. O planeta, segundo as notícias que corriam naquele tempo, emanava “boas vibrações” de seu núcleo, sendo um lugar perfeito para descanso, para cura, para encontrar a paz. Depois de uma encarnação como a do War Doctor e tendo atravessado o inferno que o Doutor atravessou, é fácil entender o por quê ele procurou esse lugar. A trama de Cavan Scott faz uma rápida e muito eficiente apresentação do Time Lord em seu novo corpo, como disse antes, ainda bastante impetuoso. Faz total sentido esse tipo de comportamento do Doutor em um momento tão cedo de sua linha do tempo (importante dizer que este episódio se passa ANTES de Rose) e o personagem é bem escrito em todas as suas caraterísticas: a predileção por dizer o nome das pessoas que está com ele, a ironia bem medida e um pouco sofrida, a relutância em realizar qualquer ato de violência (exceto em reações vitais e imediatas) e o rápido apego a qualquer pessoa que tenha lhe mostrado o mínimo de simpatia, embora ele tente o máximo possível esconder esse apego, com medo de ferir mais alguém que escolheu estar ao seu lado.

Nicholas Briggs faz um inacreditável trabalho de caracterização do 9º Doutor, acertando com perfeição o timbre de Christopher Eccleston e mantendo as principais caraterísticas de sua voz e entonação geral dada para seu Senhor do Tempo. Até os momentos emotivos ou os momentos mais coléricos são muito semelhantes aos do do ator responsável pelo papel na TV, fazendo-nos mergulhar rapidamente nesse Universo, como se estivéssemos de fato encontrando o personagem pela primeira vez. A revelação do por quê o planeta Galen emanava essas tais boas vibrações (havia uma espécie inteira presa lá dentro, os Compassionate, colocados lá por Rassilon durante a Guerra do Tempo, por temer que eles se unissem aos Daleks) é uma das coisas mais dolorosas de se imaginar. E pior ainda, o que essa prisão fez com os Compassionate, que acabaram influenciando a mente de algumas pessoas para matar, mesmo que de uma forma um tanto… incomum, querendo “curar a dor” de suas vítimas. Uma verdadeira traição dos instintos. Meu único impasse aqui é o uso mais do que necessário da chave de fenda sônica, inclusive atrapalhando a audição de alguns momentos da história, alongando-se mais do que deveria. À parte isso, The Bleeding Heart é um brilhante início de série e uma adição aplaudível para a timeline desse Doutor que tão pouco tempo permaneceu conosco.

O que você esperava, correndo assim, como um Krafayis sem cabeça?

9º Doutor

Direção: Helen Goldwyn
Roteiro: Cavan Scott
Música: Ioan Morris, Rhys Downing
Som: Joe Meiners
Elenco: Claire Wyatt, Nicholas Briggs
Duração: 60 min.

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The Window on the Moor

The Ninth Doctor Chronicles 1X02

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Localizada depois de Aliens of London World / War Three e antes de Dalek, essa aventura é um balde de água fria nas expectativas, depois da excelente abertura dessas crônicas, em The Bleeding Heart. É até compreensível que Una McCormack tenha escolhido um cenário “histórico” (entre aspas porque temos também o “Universo Espelhado”) para suas história e isso cai bem nesse momento da 1ª Temporada, como um merecido espaço de descanso para o Doutor e Rose. O problema é que após um início enigmático, com uma boa pegada de história de investigação, cidade deserta, prisão sem motivo algum e sugestão de que algo realmente ruim estava acontecendo naquele lugar, a história vai se arrastando diante da Guerra Civil entre Príncipe Julius e Duque Alexandro, não nos levando para lugar nenhum.

Diferente da trama de abertura, a interpretação de Nicholas Briggs aqui, assumindo a persona do 9º Doutor é afetada, chegando a um ponto de irritar o espectador e forçar a gente a revirar os olhos. Tenho certeza que minha rejeição à postura dele aqui se deve muito mais ao roteiro que fica rodando em torno de personagens completamente sem graça — sim, inclusive Emily Brontë, que era melhor nem ter aparecido, porque sua presença e referências aqui estão entre as mais fracas que eu já pude ver em uma obra de Doctor Who –. Talvez, se estivesse em outra história, essa imposição maior da voz, como se “tentasse demais” soar como Christopher Eccleston (e esse tipo de tentativa sempre sai estranho, convenhamos — e é diferente do que ele fez no primeiro episódio, com uma excelente aproximação, mas sem caricatura), não tivesse um peso negativo tão grande aqui.

A ideia da “prisão de vidro” e a perspectiva de “se perder para sempre em outro mundo” é uma forma interessante, mesmo que não seja original, de olhar para indivíduos que mexem com a fábrica do espaço-tempo, alcançando, de alguma forma, outras dimensões. Em The Window on the Moor, infelizmente, a única coisa boa em tudo isso é mesmo só a concepção, a trilha sonora e a primeira parte da história. O restante é um irritante teste de paciência.

Direção: Helen Goldwyn
Roteiro: Una McCormack
Música: Ioan Morris, Rhys Downing
Som: Joe Meiners
Elenco: Laura Riseborough, Nicholas Briggs

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The Other Side

The Ninth Doctor Chronicles 1X03

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O roteiro de Scott Handcock para essa viagem do Doutor ao lado de Rose e Adam (o que coloca a trama imediatamente após Dalek), nos traz uma visão diferente do futuro-quase-companion do 9º Doutor. O TL ainda não confia no jovem, mas certamente está acostumado ou relativamente mais tolerante do que na aventura anterior, e o autor faz um trabalho muito bom ao criar coisas que justifiquem tanto a sagacidade de Adam quanto esse “fascínio desconfiado” do Time Lord pelo jovem. No começo, porém, Adam está sendo levado para casa. Mas um tsunami temporal impede a TARDIS de avançar, levando os viajantes para um cinema abandonado, fonte do distúrbio.

A história se passa em Birmingham, Inglaterra em três tempos diferentes. O Doutor acaba indo parar em 1894 e espera 28 anos por Rose (a gente fala da “garota que esperou”… mas, sério, o Doutor tem uma longa história pessoal de esperar também, não é mesmo?), período no qual se envolve com o pessoal do teatro e cria algumas expressões locais. Outros blocos acontecem em 1922 e no momento inicial de chegada dos viajantes, 2012. O texto coloca como inimigo uma grande quantidade de memórias de diferentes espécies apagadas da existência durante a Guerra do Tempo. A chamada “Bygone Horde” tem em andamento um plano de sobrevivência que causará um dano colateral: a humanidade. De uma forma ou de outra, há muita similaridade com o roteiro de The Unquiet Dead.

Adam se mostra ao mesmo tempo exibido e interessante nessa história. Fica muito mais claro entendermos o tipo de paranoia e vontade não cumprida dele, após ter sido deixado pelo Doutor, o que o levaria para um caminho bem tenebroso no futuro, como vimos na saga Prisioneiros do Tempo. A construção do personagem é boa e a relação dele com o Doutor se desenvolve bem. O texto falha por não ter um caminho orgânico na ligação do bloco do cinema abandonado com os diferentes tempos, que sempre parecem seguir um caminho e um plano cheio de preâmbulos, algo confuso, a princípio, o que afasta o espectador. Mas tudo termina bem. E com o Doutor disposto a dar uma chance a Adam. Uma chance que não duraria assim tanto tempo, como sabemos.

Direção: Helen Goldwyn
Roteiro: Scott Handcock
Música: Ioan Morris, Rhys Downing
Som: Joe Meiners
Elenco: Bruno Langley, Nicholas Briggs

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Retail Therapy

The Ninth Doctor Chronicles 1X04

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O Doutor e Rose estão voltando de um período nas Luas de Fordice. E eles chegam na casa de Rose para encontrar Jackie trabalhando como vendedora de um produto bastante curioso. Um brinquedinho fofinho chamado Glubby Glubs. O que nem Jackie, nem o Doutor, nem Rose e muito menos os clientes sabiam é que essa coisinha em fofa, rosa, macia e em forma de ovo, vendida a £19.99 era um produto terrestre baseado em tecnologia alien, capaz de roubar energia de quem comprava e transferir para quem vendia, dando uma sensação de relaxamento, sonolência, perda de memória e envelhecimento para os compradores e vitalidade — inclusive no rosto para quem vendia. Imaginem só como iriam parecer as vendedoras Jequiti, Avon e de todas essas revistas de cosméticos se isso funcionasse para todo produto vendido nas portas ou “apenas para amigos, vizinhos e conhecidos“.

A trama se passa depois de Father’s Day e antes de The Empty Child, já no caminho para o fim da linha do 9º Doutor. É uma história de ligação (ou dificuldade de ligação) entre o Doutor e Jackie (como é bom ouvir Camille Coduri interpretando de novo essa personagem!) e também colocando nuances no relacionamento de Rose com a mãe. Aqui, James Goss desenvolve um curioso ponto de partida para discutir conflito de gerações, dando ingredientes para que a gente preencha o espaço deixado pela ausência de Rose por tanto tempo e o que pensou ou o que queria a sua mãe, que sempre pareceu não ter muito controle sobre a filha.

O vilão poderia ser melhor trabalhado aqui, especialmente pelo ponto de partida incomum que tem, mas no fim das contas, esta é uma boa história de como uma intervenção alienígena no dia-a-dia é resolvida pelo Doutor ao mesmo tempo que coisas comuns dos humanos também estão em andamento. Esta é uma história que, assim como a primeira da temporada, tem a cara e o verdadeiro espírito dessa encarnação do Time Lord, agora encontrando-se com as fraquezas humanas mais uma vez.

Direção: Helen Goldwyn
Roteiro: James Goss
Música: Ioan Morris, Rhys Downing
Som: Joe Meiners
Elenco: Camille Coduri, Nicholas Briggs

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.