Crítica | Doctor Who: Countdown #1 a 46 (1971)

É comum encontrarmos mudanças de nome em revistas semanais de publicação de quadrinhos. E este também é o caso da Countdown, que inicia as histórias da era do 3º Doutor, em 1971. Para que não haja confusões no decorrer das publicações, utilizarei as nomenclaturas específicas de cada época, mas é importante frisar que estamos falando da mesma revista, apenas com um nome diferente e o número de lançamento das edições acumulados. Ao todo, foram 132 publicações baseadas em Doctor Who.

Seguem os títulos de capa da revista e os números que foram publicados sob esse título. Em resumo, temos Countdown das números #1 a 56 e TV Action das edições #57 ao 132.

  • #1–18 Countdown
  • #19 – 45 Countdown The Space-age Comic!
  • #46 – 56 Countdown for TV Action!
  • #57 – 58 TV Action in Countdown
  • #59 – 100 TV Action + Countdown
  • #101 – 132 TV Action
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Gemini Planestrelas 3

doctor who gemini plan quadrinhos

Equipe: 3º Doutor
Espaço: Nordeste da Austrália
Tempo: Anos 1970

O Doutor está tentando arrumar os controles da TARDIS para poder burlar o embargo dos Time Lords, quando parece ter conseguido. A nave se desmaterializa, mas vai parar no Outback australiano. O Doutor tenta caminhar um pouco pelo deserto para ver se encontra algum sinal de civilização e lugares onde possa conseguir peças mecânicas. Em vez disso, ele encontra um complexo militar fortemente vigiado, onde avançadas pesquisas espaciais estão sendo feitas. Ele é preso após ser nocauteado por gás. No interrogatório, consegue “desligar-se”. Em paralelo, descobrimos que o tal “Gemini Plan”, liderado por Rudolph Steiner, quer trazer Vênus para a órbita da Terra, a fim de explorar seus minérios.

A trama é basicamente aquela de cientista louco que é impedido pelo Doutor de última hora. O curioso aqui é que existe ajuda dos aborígenes para que o Doutor e um dos pesquisadores, Murray Stevens, que via o absurdo do projeto (de última hora, mas ok), lograsse boicotar a primeira fase do Gemini Plan.

A história começa mais ou menos bem – embora sem grandes referências ao pessoal da UNIT, o que me incomodou um pouco – e tem um desenvolvimento na mesma linha, mas a partir do encontro com os aborígenes a coisa deixa de ser interessante. O final, como era de se esperar, é um Deus ex machina.

Countdown #1 a 5: Gemini Plan (Fevereiro – Março de 1971)
Roteiro:
Dennis Hooper
Arte: Harry Lindfield

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Timebenders
estrelas 3,5

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Equipe: 3º Doutor
Espaço: Dartmoor, Devon, Reino Unido  / França de Vichy
Tempo: 1971 ou 1972 / 1942

Timebenders é uma história importante porque foi a primeira publicação da série a mostrar o Doutor na II Guerra Mundial. A história começa com o Senhor do Tempo querendo isolar-se um puco da UNIT para pensar. Dirigindo “Betsy” (e não Bessie, como na TV) até Dartmoor, ele acaba encontrando um grupo de soldados da SS, mas acha que é parte da gravação de um filme. Só que não era.

Na França de Vichy, o professor Pierre Vedrun é forçado pelos nazistas a construir um dispositivo que transferisse objetos através do espaço. Sem saber, porém, ele consegue fazer com que as coisas igualmente atravessassem a barreira do tempo, justamente o que “pegou” o Doutor e o levou para a França ocupada desse período.

O início e o final da trama não são legais. O autor tentou fazer uma ligação do passado com o futuro, buscando nos mostrar que “tudo deu certo no final das contas” (lembram-se de The Reign of Terror?) mas o uso desse modelo narrativo não foi interessante para o desfecho da história. O desenvolvimento, porém, com a presença do Doutor entre os nazistas e depois sequestrado pelos homens da Resistência Francesa, é simplesmente maravilhoso.

Countdown #6 a 13: Timebenders (Março – Maio de 1971)
Roteiro:
Dennis Hooper
Arte: Harry Lindfield

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The Vogan Slavesestrelas 2,5

the vogan slaves doctor who

Equipe: 3º Doutor
Espaço: Espaçonave Vogan / Planeta dos Vogan
Tempo: Anos 1970 / Indeterminado

Sabe-se lá por qual motivo a Countdown não quis ou não pode, por conta dos direitos, utilizar os acontecimentos de The Three Doctors para estabelecer o fim do exílio do Doutor na Terra. É também estranho que nenhuma história da revista até agora tenha trazido o Doutor acompanhado de alguém da UNIT ou de Jo, sua companion na época.

De qualquer forma, a história aqui funciona a partir dessa premissa: já algum tempo o Doutor está livre para viajar pelo Universo e, nesta aventura, ele materializa a TARDIS em uma nave espacial Vogan, onde percebe que existe um processo de animação suspensa para um grande grupo de pessoas, com um desígnio aparentemente não muito bom.

Pelo título, fica claro que esta é uma história de libertação. Infelizmente, a parte final da aventura não entrega ao leitor um desfecho mais coeso, em vez disso, traz apenas ações abruptas e quase milagrosas do Doutor. Tudo bem que existe um longo processo de manipulação dos robôs, uma explicação para o que acontece com o povo Vogan e algum suspense para o que eles poderiam fazer com o Doutor, mas a forma pouco inteligente como os dois últimos números do arco é escrita acaba fazendo a história perder mais pontos do que deveria.

Countdown #15 a 22: The Vogan Slaves (Maio – Julho de 1971)
Roteiro:
Dennis Hooper
Arte: Harry Lindfield

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The Celluloid Midas
estrelas 4

midas doctor who

Equipe: 3º Doutor
Espaço: Puddlesfield, Hampshire, Reino Unido
Tempo: Anos 1970

O Doutor está passando o feriado em um lugar tranquilo, quando é intimado pelo Ministro da Defesa a comparecer na vila de Puddlesfield, em Hampshire. Inicialmente o Time Lord não sabe do que se trata, mas ao chegar ao local, descobre que uma equipe que filmava um drama para a BBC foi transformada em plástico.

O leitor está diante de duas coisas: um excelente tom metalinguístico que pode facilmente ser atribuído à própria série, talvez como uma brincadeira do autor; e a lembrança de Spearhead from Space. A proposta é exatamente a mesma, mas aqui temos seres humanos transformados não por um Nestene, mas por um professor maluco chamado Midas, nome apropriado e deveras irônico para alguém que “tocava” as pessoas e as transformava em plástico.

Existem atropelos no roteiro, mas eles são poucos. Do início das publicações na Countdown até aqui, este foi o texto mais bem fechado de Dennis Hooper. Ao deixar de lado os Deus ex machina e trabalhar com verossimilhança o ambiente do Doutor na Era UNIT (embora a organização não apareça, como também não aparece nenhum companion, o que é uma pena), o autor conseguiu uma trama bastante parecida com os arcos de TV e representou da melhor forma possível a reação do Doutor com um problema que se assemelha a muitos outros que ele resolveu. E no final, como não poderia deixar de ser, uma alfinetada do Senhor do Tempo no Ministro da Defesa, só para “dar o troco” de ter sido atrapalhado em seu feriado.

Em tempo: o Doutor diz que irá “voltar no tempo” para descansar. Esta é uma clara referência ao arco seguinte, o primeiro cliffhanger descarado que tivemos até agora.

Countdown #23 a 32: The Celluloid Midas (Julho – Setembro de 1971)
Roteiro:
Dennis Hooper
Arte: Harry Lindfield

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Backtime
estrelas 1

backtime doctor who

Equipe: 3º Doutor, Charlie Fisher
Espaço: Londres, Reino Unido / Gettysburg, Pennsylvania, EUA
Tempo: 1863

O Doutor aparece no início dessa aventura lendo Balloons and Flying Machines. Ele está na Londres Vitoriana e aparentemente em um projeto pessoal de estudo sobre máquinas voadoras do século XIX. Um batedor de carteira chamado Charlie Fisher rouba o relógio do Senhor do Tempo e há uma perseguição. Acontece que, por mostrar dinheiro do século XX (ou seja, com outra rainha no desenho) o Doutor é considerado traidor e, juntamente com Charlie, vai a julgamento. Ambos, porém, escapam, e vão parar nos Estados Unidos, em meio à Guerra Civil Americana.

Essa história tem um novo roteirista (Dick O’Neill) e um novo desenhista (Frank Langford), mudança repentina na revista e que definitivamente não deu muito certo (a equipe anterior voltaria no arco seguinte). Não necessariamente pelos desenhos, que não são ruins. Mas o texto é péssimo. Parece que estamos lendo as tenebrosas aventuras da TV Comics, só que sem a parte das passagens absurdamente engraçadas.

Charlie se torna companion do Doutor, mas a passagem de ambos pelos Estados Unidos em meio à guerra é descartável. A reação do garoto é artificial e a postura do Doutor não combina em nada com o que tínhamos do personagem na TV. E eu, que reclamava tanto da falta de um companion, quebrei a cara com a chegada e partida de Charlie, uma das piores que eu já vi.

Countdown #33 a 39: Backtime (Outubro – Novembro de 1971)
Roteiro:
Dick O’Neill
Arte: Frank Langford

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The Eternal Present
estrelas 2,5

the eternal present doctor who

Equipe: 3º Doutor
Espaço: Reino Unido / New Britain
Tempo: Anos 1970 / 3550

História simpática, mas bastante falha, pelos péssimos diálogos e situações forçadas sobre como o Doutor materializa a TARDIS em 3550 e o antigo Reino Unido (agora New Britain) é governado por um robô. Viajar no tempo é proibido nessa sociedade e considerado um crime que pode variar de prisão até morte, ambas as situações a que o Doutor é submetido, escapando da segunda, obviamente.

O Doutor encontra na prisão um cientista do século XIX chamado Theophilus Tolliver, que é amigo de H.G. Wells, ficando claro ao final da história que Tolliver deu a Wells a ideia e inspiração para escrever A Máquina do Tempo.

O início da trama funciona sem tropeços. A captura do Doutor, a apresentação dessa sociedade claramente ditatorial — embora não existam pessoas, pois todos foram congelados, ao que entendemos, no ano de 2200 — e as primeiras cenas na prisão, cenário que mistura lembranças de arcos como The Space Museum, The Celestial Toymaker e de um quadrinho do 2º DoutorFather Time, são muito bons. Porém, a partir do momento em que Mar-Kom aparece, tudo muda de figura. A arena que se assemelha aos jogos do Coliseu romano, o terremoto final, a partida de ambos os viajantes, tudo é muito bobinho. O melhor da história é mesmo o seu início; o final, infelizmente, decepciona.

Countdown #40 a 46: The Eternal Present (Novembro de 1971 – Janeiro de 1972)
Roteiro:
Dennis Hooper
Arte: Harry Lindfield, Gerry Haylock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.