Crítica | Doctor Who: Davros (Big Finish Mensal #48)

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No aniversário de 40 anos de Doctor Who, a Big Finish lançou uma quadrilogia de dramas de áudio focados nos vilões, e na relação de antagonismo que mantém com o Doutor. Os dois primeiros exemplares da série, Omega e Davros, destacam-se justamente por explorarem a psique dos vilões titulo, ambientando as histórias em momentos em que o Doutor está viajando sozinho, podendo assim se concentrar na dinâmica entre o Time Lord e seus inimigos.

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Davros

Equipe: 6º Doutor
Espaço: Planeta Colônia do Império da Terra, Skaro.
Tempo: Futuro distante.

Como a história anterior da série de vilões da Big Finish, Davros é focado no personagem-título, colocando-o em uma situação em que ele precisa trabalhar ao lado de seu grande inimigo, ao mesmo tempo em que o público conhece o seu passado, explorando as suas motivações e os caminhos que o levaram a se tornar o monstro que conhecemos. Mas enquanto Nev Fountain preferiu relativizar os conceitos de heróis e vilões, Lance Parkins opta por explorar a natureza do mal e as diferentes formas que pode vir a assumir.

Na trama, após deixar sua companheira Peri em um simpósio de botânica “Do outro Lado da Galáxia”, para que ela pudesse relaxar após as provações que sofreu em Vengeance on Varos, o Sexto Doutor atende o chamado de Willis, um jornalista com quem ele já havia colaborado no passado. Materializando-se em um planeta colônia da Terra, o Doutor é informado por Willis que a TAI , uma das maiores corporações do Planeta Terra, esta prestes a fechar suas colônias de mineração, o que deixará bilhões de pessoas desempregadas. O intrigante é que as minas ainda são lucrativas, tornando um mistério o motivo do fechamento. Ao investigar, o Doutor logo descobre que o casal Arnold e Lorraine Baynes, sócios majoritários da TAI, resgataram uma capsula de fuga do espaço com seu mais novo chefe científico, o infame Davros, criador dos Daleks.

Quando foi criado por Terry Nation para o clássico arco Genesis of The Daleks, Davros surgiu como a personificação dos Daleks, uma figura individual que poderia representar tudo aquilo que o Doutor odiava. Com o tempo, porém, Davros foi ganhando suas próprias particularidades, se tornando muito mais do que uma versão humanoide dos Daleks. Embora o vilão vá estar sempre conectado á sua criação, ele poderia existir independente dela, algo que tanto a Série Clássica quanto a Nova Série nunca se convenceram. O roteiro de Lance Parkins, entretanto, parece entender isso, e embora cite constantemente os Daleks, mantém a sua presença física longe da história, focando exclusivamente em Davros.

Um fator extremamente interessante são os motivos por trás do recrutamento de Davros pela TAI. Enquanto Arnold Baynes simplesmente vê as vantagens de ter um gênio científico do nível de Davros trabalhando para ele, sua esposa Lorraine, vê nesse recrutamento a chance de corrigir um erro histórico. Lorraine é uma historiadora que lançou uma visão revisionista sobre a ascensão de Davros, vendo o cientista como um fruto do meio da guerra onde cresceu, e vítima de suas próprias criações. Para Lorraine, Davros não pode ser culpado pelas ações dos Daleks da mesma forma que Faraday não poderia ser culpado pelo uso da cadeira elétrica. Lorraine realmente acredita que no ambiente certo, Davros poderia ajudar a fazer do mundo um lugar melhor, sem perceber que Davros ira perverter qualquer boa intenção que caia em suas mãos.

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Através de entrevistas realizadas por Lorraine, os flashbacks nos levam de volta a Skaro, nos primórdios da “Solução Dalek”, onde Davros trabalhou ao lado da cientista Shan, que de fato criou o nome Dalek. A trama envolvendo o relacionamento de Davros, antes da deformação, e Shan, pode parecer previsível em um primeiro momento, mas o roteiro joga de forma muito interessante com as expectativas do ouvinte diante de tal plot, aprofundando ainda mais a persona essencialmente cruel e pragmática de Davros.

A relação entre o 6º Doutor e Davros ganha contornos não só interessantes, mas muito divertidos, com o Time Lord funcionando como maior alívio cômico da história. Sem conseguir dissuadir os Baynes de contratar Davros, o Doutor tem que aceitar um trabalho na corporação ao lado do cientista, para que possa ficar atento á seus planos. A dinâmica construída na “parceria” entre os dois personagens é ótima, com Colin Baker e Terry Molloy se entregando com vontade aos ácidos diálogos da dupla. É curioso como ao mesmo tempo em que o Doutor parece desprezar tudo o que Davros é e representa, o cientista Kaled admira o seu adversário no mesmo nível em que o odeia, e parece no mínimo intrigado diante da possibilidade de enfim trabalhar ao seu lado ao invés de contra ele.

Ao mesmo tempo, o texto de Parkins cria contrastes hilários na forma como Davros e o 6º Doutor encaram o trabalho. O primeiro é extremamente pontual diante dos horários impostos na empresa, e é extremamente metódico e organizado em seus métodos de trabalho. O Sexto Doutor por sua vez é o pesadelo de qualquer patrão conservador, pois chega atrasado, sabota o ponto, sai pra almoçar e não volta, e ainda assim consegue resultados, sendo bom demais pra ser demitido. As constantes tentativas do Doutor de driblar as regras da empresa, para a irritação de Davros, geram os momentos mais divertidos da história, em ações muito características da versão de Colin Baker, abraçadas com vontade no trabalho de voz do autor.

Há também em Davros uma sátira em relação ao capitalismo e suas contradições. Arnold Baynes é muito correto em relação a regras da empresa, fazendo com que os horários de almoço e descanso sejam rigorosamente cumpridos, e recusando-se terminantemente a espionar seus funcionários, devido á quebra no contrato de confiança entre patrão-empregado, mas não se importa se por acaso algum funcionário tenha que sofrer “um acidente” pelo bem da companhia. De uma forma distorcida, Baynes realmente acredita fazer o melhor pelos seus funcionários e consumidores, quando de fato, esta fazendo o melhor para si mesmo. E é interessante como Davros parece perceber que muitos dos aspectos do capitalismo predatório de Baynes funcionam muito melhor como instrumento de controle do que o regime fascista empregado nos últimos anos de Skaro, prenunciando assim as ações do vilão em Revelation of The Daleks.

O casal Baynes é bem interessante, sendo muito bem defendido pelas vozes de Bernard Horsfall e Wendy Padbury, a eterna Zoe. Colin Baker está fantástico como o Sexto Doutor, e a química que demonstra com Terry Molloy é simplesmente brilhante. Mas Davros pertence mesmo a Molloy, que com pequenas sutilezas na voz, consegue nos mostrar diferentes camadas do criador dos Daleks, mas sem nunca abrir mão da perversidade inerente do personagem. Davros é uma grande história para o Sexto Doutor, mas é uma história melhor ainda para o personagem título.

Davros (Reino Unido, Setembro de 2003)
Direção: Gary Russell
Roteiro: Lance Parkins
Elenco: Colin Baker, Terry Molloy, Bernard Horsfall, Wendy Padbury, Eddie de Oliveira, Kimberly Todd, Katarina Olsson, David Bickerstaff, Louise Faulkner
Duração: 4 episódios de Aprox. 40 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.