Crítica | Doctor Who: Império da Morte, de David Bishop

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Equipe: 5º Doutor, Nyssa
Espaço: New Lanark, Londres
Tempo: 1856, 1863

A morte é uma das poucas certezas da vida, cedo ou tarde, todos nós iremos enfrentá-la. Tal inevitabilidade não diz respeito apenas ao fim de nossa própria existência (pelo menos como a conhecemos), mas também ao fato de que provavelmente sobreviveremos a alguém que nos é caro. Isso faz do luto algo quase tão inevitável quanto á própria morte na vida do ser humano. A difícil questão sobre a forma como lidamos com a perda daqueles que amamos, e a esperança de reencontrá-los um dia na vida após a morte é o tema explorado por David Bishop em Império da Morte.

A trama tem início em 1856, onde James Lees, um menino de onze anos, sofre uma experiência de quase morte depois de se afogar em um rio e, após ser resgatado, parece ser possuído por espíritos que conhecem os segredos de todos à sua volta. Na TARDIS, semanas após os eventos do arco Time Flight, o Quinto Doutor e Nyssa são confrontados por uma aparição que afirma ser o fantasma de Adric, que avisa o Time Lord sobre uma tarefa de vital importância. A TARDIS segue a anomalia energética deixada pelo fantasma, se materializando no mausoléu da Família Real Britânica em 1863, onde James, após passar anos em um sanatório, se tornou um requisitado médium, que agora conseguiu uma audiência com a Rainha Vitória. James tem uma mensagem do Príncipe Albert, finado marido da monarca, uma mensagem que ira mudar não só este mundo, como o próximo.

Apesar da ambientação vitoriana gótica, e da presença de assombrações, Império da Morte se desenvolve durante a sua primeira metade muito mais nos aspectos dramáticos do que no terror sugerido pela premissa, através de uma investigação científica das habilidades paranormais do médium, e do impacto psicológico que tais habilidades têm em outros personagens. A segunda metade da obra, por sua vez, assume um ritmo mais frenético e focado na ação e no suspense, quando a trama principal passa a se concentrar no acampamento militar em torno do rio onde Lees se afogou anos antes.

A obra conta com trechos bastante atmosféricos que resultam nos momentos mais arrepiantes do livro, como a sessão espírita conduzida por James Lees, os experimentos realizados pelo Doutor para entender a natureza dos dons do médium, e as passagens onde os personagens mergulham no fundo do rio, através dos pesados trajes de mergulho que ilustram a capa do livro. O autor também não nos poupa do lado menos romântico do período, especialmente pelos relatos de James sobre os tratamentos brutais que sofreu e testemunhou no sanatório.

O romance imagina um cenário onde a existência de um mundo após a morte ameaça sair do terreno da crença para entrar no do saber. Nesse sentido, a escolha da Inglaterra vitoriana como ambiente da trama mostra-se acertada, pois como a própria obra coloca, trata-se de um período onde a sociedade ocidental passou a aceitar explicações científicas que derrubaram crenças religiosas, mas que em contrapartida, criou um vácuo filosófico, gerando angústias e incertezas sobre temas como a vida após a morte. O autor utiliza tais questões para criar uma série de interessantes debates sobre as crenças dos seus personagens a respeito da morte e a possível vida além, especialmente através do ponto de vista de Nyssa. O autor não perde de vista a quase óbvia analogia que pode ser feita entre o conceito de reencarnação e a regeneração dos Time Lords, embora o Doutor dê uma resposta bastante propícia sobre tal analogia.

Bishop também dá algumas boas alfinetadas em velhos alvos de Doctor Who, como o militarismo cego, e o colonialismo. O autor vai longe o bastante em fazer o poderio militar britânico, assim que descobre a existência de um possível portal para “O Outro Lado”, pensar logo em organizar uma força expedicionária para colonizar esse mundo desconhecido, uma situação absurda, mas não inverossímil. Pode ser percebido no romance também um discreto subtexto anti-aborto, mas nada que seja ofensivo ou impositivo.

A opção por situar a aventura no espaço entre a 19ª e 20ª Temporada da série se mostra adequada para a temática da obra. A morte de Adric ainda é recente, e sem outros companions por perto, o autor pode se concentrar na dinâmica entre Nyssa e o Doutor. Confesso que nunca simpatizei com a Trakenite, achando-a não só a pior companion da Era do 5º Doutor, mas uma das mais sem graça da série toda. O frustrante é que a personagem tinha um enorme potencial dramático. Antes mesmo de se juntar ao time da TARDIS, seu pai foi assassinado pelo Mestre, tendo o seu corpo usurpado, e em seguida, o mesmo homem destruiu seu sistema solar, tornando-a a ultima de sua raça. Não muito tempo depois, ela viu seu amigo Adric explodir. Se existe uma companheira que entende de perdas, é Nyssa. A Série nunca fez nada com essa carga que a personagem carrega, mas Bishop resolve explorar esse potencial.

A escolha por usar o formato de um diário em alguns trechos para expor o íntimo de Nyssa, fazendo dela a narradora da história por boa parte da trama, é interessante, tornando a estrutura da obra mais dinâmica. Através das passagens deste diário percebemos quão solitária a garota está (especialmente após a saída de Tegan). É curioso o olhar que o autor lança para a relação entre a Trakenite e o Time Lord, afinal, o Doutor é a coisa mais próxima de uma família que ela tem agora, e ainda assim, a garota sabe muito pouco sobre ele. O diário é escrito de forma pragmática e quase analítica, sendo fiel á personagem que conhecemos da Série, mas ao mesmo tempo dando-lhe uma profundidade nunca vista na TV.

O 5º Doutor é perfeitamente captado em sua humildade e comportamento mais analítico, embora muitas vezes, introspectivo. Mas o autor não se limita a isso, e se arrisca ao colocar o personagem em uma posição em que não estamos habituados a vê-lo, quando em certo ponto o Doutor finalmente confronta Nyssa sobre a apatia dela diante de todas as tragédias que ocorreram em sua vida, em um dos momentos mais pungentes da obra. Jogar os traumas de uma companion na cara dela é algo que outros Doutores fariam sem piscar se achassem que era necessário, mas é mais difícil ver o gentil Time Lord de Peter Davison tomando tal atitude. Mas Bishop constrói esse momento de confronto entre o time da TARDIS de forma que impressiona, mas ao mesmo tempo, não foge daquilo que conhecemos do 5º Doutor.

É interessante ver como o autor faz Nyssa lidar (ou não lidar) com seu luto, contrapondo-a ao extremo com a Rainha Vitória. A jovem de Traken tenta superar a dor fingindo que ela não esta lá, enquanto Vitória não consegue se concentrar em nada além da própria dor pela perda de seu marido, gerando uma crise política em seu reino, devido ao total afastamento da monarca da vida pública desde o falecimento do Príncipe Consorte. O autor constrói a Rainha como uma mulher inconformada pela morte do marido, e obcecada em voltar a vê-lo de novo, mas que ainda demonstra sensibilidade e inteligência o suficiente para escutar as colocações daqueles á sua volta, e firmeza após tomar uma decisão.
Entre os coadjuvantes do núcleo militar da trama destacam-se o Sargento Vollmer e o General Doulton, que escapam de serem apenas tipos, devido á boas histórias de fundo, e James Lees, (referência ao famoso médium britânico Robert James Lees) retratado como um rapaz capaz de despertar simpatia no leitor, mas que ao mesmo tempo guarda certa sensação de ameaça, devido a natureza de seus dons.

O livro de David Bishop traz uma série de discussões muito interessantes para os seus personagens sobre espiritualidade e luto, que podem trazer boas reflexões para o leitor. O autor mostra um grande domínio sobre o crescendo dramático e de tensão da narrativa, á medida em que os mistérios em torno das aparições fantasmagóricas e do portal para “O Outro Lado” vão tornando-se mais perigosos, e ainda guarda algumas boas reviravoltas. A obra escorrega apenas durante o clímax, que soa apressado demais, e acaba expondo alguns furos no enredo, que poderiam ter sido facilmente contornados.

Império da Morte é uma ótima leitura, que apesar da densidade de seus temas, flui de forma agradável, e que tem seus momentos de leveza e acenos para os fãs de longa data da série (o 5º Doutor acaba sendo nomeado Assessor Científico Real). A forma como explora a relação entre o Doutor e Nyssa é outro acerto, sejam nos momentos mais descontraídos, que ressalta as afinidades da dupla, como aqueles que mostram a dificuldade de comunicação que ambos enfrentam. O livro não chegou a mudar completamente minha visão sobre a última Trakenite, mas talvez eu enfim consiga ver por que Peter Davison sempre defendeu o potencial que existia na relação entre Nyssa e o Doutor.

Doctor Who: Império da Morte (Empire Of Death) — Reino Unido, 1º de Março de 2004
BBC Past Doctor Adventures # 65

Autor: David Bishop
Publicação: BBC Books
288 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.