Crítica | Doctor Who: Jogo Mundial, de Terrance Dicks

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estrelas 4

Equipe: 2º Doutor, Serena
Espaço: Planeta Gallifrey / Nice e Antibes / Algum lugar da França / Londres / Paris / Paris em uma linha do tempo alternativa / Bruxelas
Tempo: Indeterminado / 1794 / Novembro de 1815 / 12 de setembro de 1805 / julho de 1815 e 1865 / 1815

Uma das grandes polêmicas no mundo whovian se deu quando os autores do genial The Discontinuity Guide (1995) fizeram o primeiro grande arranjo narrativo na Linha do Tempo do 2º Doutor, criando a Temporada 6B. A teoria é extremamente interessante e foi sendo ajustada com o passar dos anos. Seu objetivo é fazer com que as aventuras lançadas em livros, quadrinhos e, pouco depois, áudios da Big Finish se encaixem de maneira harmônica entre The War Games, o arco em que o 2º Doutor é preso, julgado e condenado pelos Time Lords e Spearhead From Space, que dá início à era do 3º Doutor, já exilado na Terra.

Jogo Mundial foi publicado em outubro de 2005, depois da 1ª Temporada da Nova Série ter terminado (The Parting of the Ways foi ao ar em junho daquele ano), e faz parte da tríade de derradeiros livros da série BBC Past Doctor Adventures, que ainda teria mais dois volumes publicados 2005, encerrando suas atividades com 75 volumes lançados. Desta tríade, Jogo Mundial foi certamente o mais polêmico.

Terrance Dicks, autor de roteiros para a Série Clássica e diversas novelizações da série, nos entrega, em Jogo Mundial, uma aventura que certamente vai agradar qualquer um que gosta de História ou revisionismos históricos. Aplicados a Doctor Who, esses elementos ganham aqui uma linha alternativa vista a partir de Paris, em pleno caos após a morte de Napoleão Bonaparte que, nessa realidade, viveu o bastante para ter criado o maior império que o planeta já viu.

O livro é parte de uma trilogia de obras do mesmo autor, antecedido por Jogadores (1999) e Fim de Jogo (2000) e elencam um grupo de imortais que desejam mexer com a História para seu bel prazer, como uma versão mais agressiva do Monge, em The Time Meddler. Esses vilões, chamados “Players”, mexem de tal forma com a História da Terra que os Time Lords precisam intervir. Ocorre que essa intervenção é proibida e os inimigos dos Time Lords sabem disso. Cabe ao Conselho de Gallifrey decidir qual Senhor do Tempo inteligente e habilidoso o bastante poderia servir como Agente da CIA e, caso ele fosse descoberto, sua morte ou julgamento por parte dos inimigos não causariam nenhum problema para os gallifreyanos. Vejam o nível bizarro do pensamento do alto escalão do planeta do Doutor.

É aqui que entram as relações com a Temporada 6B. O autor cria inicialmente um discurso de desolação e nos deixa com bastante raiva do Sistema Judiciário do planeta laranja, que após um breve julgamento do Doutor, depois dele ter sido capturado em The War Games, condena-o à morte por suas interferências e por roubar uma TARDIS. Esse novo “problema” com os Jogadores, no entanto, faz com que um dos Time Lords tenham uma ideia. Sabendo que a vida de um certo prisioneiro estava em suas mãos e sabendo da habilidade de inteligência desse prisioneiro, ele diz que irá tentar convencer o homem a agir como espião e intervir nos jogos que tomavam conta da Europa, a este ponto, já ligados a Napoleão Bonaparte; Arthur Wellesley, 1º Duque de Wellington; Robert Fulton (o inventor do barco a vapor) e mais uma série de outras figuras históricas.

Um trato é feito com o Doutor: se ele aceitasse trabalhar para a Celestial Intervention Agency nesta missão, sua sentença seria trocada de morte para um período de exílio. A contragosto, o Doutor aceita e tem a Time Lady Serenadellatrovella (ou Serena) designada como sua companion. Nas primeiras vinte páginas do livro, o autor cria toda plataforma possível para a uma “temporada extra” não vista na TV, e isso sem forçar a barra (o último episódio de The War Games apresenta um bom número de buracos temporais e eles foram muito bem aproveitados aqui) e justificando os pontos necessários para novas interpretações daqueles momentos finais do Doutor.

A estrutura da obra é muito parecida com a dos episódios da Era Troughton, com um grande cliffhanger ao final de cada capítulo, o que talvez funcionasse melhor em roteiros, mas na obra impressa, dá a impressão de que estamos lendo vários contos relacionados, pois o livro acaba se erguendo em resolução de problemas e imediata criação de outro. Alguns desses são excelentes e nos prendem com facilidade, mas seria bom vermos outras formas de passagem narrativa no volume.

A ação do Doutor nas mudanças históricas ocorridas na Europa pelos Jogadores é excelente. O cenário bélico nos lembra imediatamente o último arco dessa encarnação e não conseguimos segurar um sorriso quando ele resolve vestir o uniforme de Napoleão e se passar por ele, em um momento crítico da história. O único ponto em que senti que o texto de Dicks não fazia jus a este Doutor foi no episódio do vampiro, inicialmente afastado pelo hálito de alho de Doutor (!!!) e depois morto por uma estaca improvisada de um chicote quebrado. Sim, sim, tudo isso é absurdamente péssimo e o 2º Doutor atacando um vampiro com uma estaca é algo que não combina em nada com essa encarnação. O 3º Doutor faria isso com grande prazer; o 4º Doutor faria isso se fosse realmente necessário; o 6º Doutor faria isso e ainda contaria uma piadinha e depois iria buscar um legume qualquer em um planeta distante… mas não o 2º Doutor. Não combina com ele.

À parte o incidente com o vampiro e com o robô sarrador (o ridículo Raston Warrior Robot, de The Five Doctors), que vieram parar na Terra por um motivo que é até melhor esquecer, a obra passa quase totalmente sem problemas conceituais. O leitor não deixará de atribuir características de Romana I a Serena (eu estava esperando uma companion mais “casca-grossa”) e deverá se emocionar com ela na parte final do livro.

World_Game-plano-critico-doctor-who-2-doutorA longa batalha, as muitas viagens e os paradoxos temporais fazem de Jogo Mundial um livro intenso, sempre com muita coisa acontecendo e muitos personagens buscando o poder ou fazendo com que outros joguem a seu favor. E como se isso ainda não fosse o bastante, Dicks abre a porta, nas páginas finais, para que a CIA envie o Doutor para um problema em uma certa Estação Espacial comandada por Dastari. Está aí a explicação para a presença do 2º Doutor em The Two Doctors, tendo indicado até por quê o seu cabelo estava mais branco naquela ocasião.

NOTA IMPORTANTE: o áudio The Black Hole não contradiz em absolutamente nada os eventos desse livro, nem do arco Os Dois Doutores. Basta ler com atenção Jogo Mundial e ouvir com atenção a aventura de Simon Guerrier para perceber que há, na verdade, um flerte entre os dois dramas. O Doutor de O Buraco Negro jamais chegou a sair da TARDIS e não viveu a aventura de Os Dois Doutores. Só é preciso prestar atenção. [para saber mais, clique aqui ou faça as perguntas que quiser nos comentários].

Doctor Who: World Game (Reino Unido, 6 de outubro de 2005)
Autor: Terrance Dicks
Publicação: BBC Past Doctor Adventures #74
285 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.