Crítica | Doctor Who: Last Christmas

estrelas 5,0

Doctor Who tem o costume de utilizar seus especiais de natal para realizar grandes mudanças na série. Em 2006 tivemos a apresentação propriamente dita de David Tennant como o 10º Doutor (após um breve cameo em The Parting of Ways); já em 2010 The End of Time trouxe a regeneração dessa mesma persona, introduzindo Matt Smith, que sairia em outro episódio natalino, The Time of the Doctor. Dito isso, não é de se espantar que o público whovian espere coisas grandes a cada novo capítulo de fim de ano. Last Christmas, contudo, foge a tais esquemas e traz um enredo despretensioso, mergulhado na ficção científica e fantasia, trazendo consigo somente alguns pontos para elaborar a coesão entre a oitava e a nona temporadas.

Clara Oswald acorda em um susto, quando algo atinge seu telhado. O que ela menos esperava, porém, é que o próprio Papai Noel (Nick Frost) estaria ali fazendo sua desajeitada aterrissagem, junto de dois pequenos elfos repletos de sarcasmo. Steven Moffat, desde já, introduz o surrealismo em seu roteiro, trabalhando em cima dele com um humor ácido, que faz não só Clara se questionar, como o próprio espectador – Papai Noel existe no universo de Doctor Who? Não demora muito para que a trama se intensifique e logo o Doutor faz sua costumeira agitada aparição, pedindo para que sua companheira entre na Tardis em um certo tom de alarme. A comédia se mantém em plano de fundo através dos diálogos bem-elaborados entre Noel e o Doutor, ao mesmo tempo que é deixado claro que o Senhor do Tempo tem conhecimento de algo que nós não sabemos ainda.

A narrativa, todavia, não segue de maneira tão linear assim e – após os créditos de abertura, repletos de neve – um plano de cobertura, que muito parece retratar um planeta distante, nos leva para o Polo Norte. Aqui, uma equipe de cientistas lida com estranhos seres extraterrestres, similares aos facehuggers de Alien, que deixam suas vítimas em estado catatônico, induzindo nelas um realístico sonho. Nesse momento, o Doutor e Clara fazem sua aparição, quase que esquecendo da cena pré-abertura.

Last Christmas introduz nessa transição de sequências um tom onírico à projeção. Os buracos, gaps, presentes nos sonhos aparecem aqui de forma sutil e cada diálogo subsequente nos oferece dicas de que os personagens todos se encontram dentro de um sonho coletivo. Enquanto isso a forma como o Doutor age e fala dá a entender que, no mínimo, ele percebe que há algo de errado. Moffat procura dar explicações científicas e plausíveis para cada ponto de estranhamento e sabiamente trabalha com algumas lógicas bastante falhas, como pensamentos não finalizados. Os diálogos com Papai Noel são as melhores provas disso, especialmente quando uma das cientistas, Shona (Faye Marsay) realiza inúmeras perguntas a ele, as quais são respondidas sempre com algum elemento “mágico”.

É criado um interessante diálogo entre o lado ficção-científica e a fantasia dentro da série, unindo-os harmonicamente, ao mesmo tempo que deixa nítido qual é qual, com a realidade representando o primeiro e o sonho o segundo. Essa constante transição é possibilitada pela já mencionada presença da comédia, que, aqui, se faz primariamente presente através de Nick Frost. É curioso que, ao mesmo tempo que ele é o ponto mais fora da reta dentro do que é real na série, é também o aspecto que força o despertar de cada personagem – mais uma vez o diálogo temático citado acima se faz presente.

Mas o clima do episódio está longe de nos deixar tranquilos. Moffat traz esses elementos de humor como alívio cômico dentro de uma narrativa tensa, que utiliza uma cinematografia típica de filmes de terror. A câmera em constante movimento e o trabalho de mixagem de som, que ora nos traz diferentes camadas sonoras, ora funciona unicamente através do silêncio, trazem um grande suspense para a narrativa, impedindo nossa descontração. A sequência do sonho dentro do sonho (dentro do sonho) de Clara é o melhor exemplo disso, intercalando as melodias alegres com uma batida mais pesada, vozes de fundo, enquadramentos inclinados e um trabalho dinâmico de profundidade de campo.

Fora tais detalhes mais evidentes, a fotografia de Neville Kidd utiliza um foco mais preciso no rosto dos personagens para criar um certo esfumaçado em tela, emulando a linguagem onírica, nos poupando de filtros desnecessários. Tal escolha ainda se encaixa com a proposta do roteiro que é justamente indicar, sem revelar explicitamente, que tudo se trata de um sonho desde o começo. Existem, sim, os momentos mais didáticos (necessários e bem-construídos), mas eles não se destacam dos demais. A interpretação de Peter Capaldi aqui se faz crucial, especialmente pelo ótimo controle de voz que o ator possui – reparem como ele explica os buracos dentro dos sonhos trazendo pausas em seu diálogo.

Impossível, porém, falar de interpretação sem também tecer elogios à Jenna Coleman, que ganha mais um ano dentro de Doctor Who. A ponta solta, as mentiras, deixadas no ar em Death in Heaven são tratadas com intimidade neste capítulo natalino, de forma breve, mas não de forma menos dramática. Coleman traz em seu olhar toda a dor que ainda a assola e mesmo seus (poucos) sorrisos do episódio trazem consigo um sofrimento reprimido. Ela vê no Doutor sua salvação, sua válvula de escape e agora ela demonstra precisar dele, assim como ele muito precisou dela na oitava temporada.

Moffat ainda deixa essa volta da personagem para um novo ano em suspense até o fim, introduzindo até mesmo uma sequência inteira que parece ser a despedida da companion. É evidente, contudo, que a cena em questão conta com um buraco óbvio: ela já estaria morta se tanto tempo, de fato, houvesse se passado. O que definitivamente não agrada é a maquiagem pesada em cima da atriz, que mais causa um estranhamento que propriamente tristeza. De qualquer forma, uma interessante brincadeira com o público whovian, e uma referência à The Time of the Doctor e o envelhecimento do 11º Doutor.

Entramos, agora, no terreno da especulação, mais diretamente ligada à personagem Shona. Houve uma certa ênfase em sua despedida, nos trazendo, inclusive, um close em sua lista de coisas a fazer. Dentro dela, inúmeras referências cinematográficas ao longo do episódio são explicitadas, como a óbvia à AlienMiracle on 34th Street. Além disso outras referências à cultura pop, como “maratona de Thrones”, que todos sabemos se referir a uma certa série de sucesso da HBO. O que chama a atenção, porém, é o item “Forgive Dave”. Pode, sim, significar o espírito natalino e como tais eventos influenciaram a personagem, mas pode, também, mostrar que veremos mais da personagem nos próximos anos. Vale lembrar que o nome do primeiro capítulo da nona temporada é The Magician’s Aprentice e Shona chama o Doutor de mágico durante o episódio. Ainda assim, nada mais que especulações e um pouco de wishful thinking.

Last Christmas, portanto, deixa algumas pequenas pontas evidentemente soltas para 2015, mas funciona, primariamente, como um episódio fechado em si mesmo. O Doutor está de volta com Clara Oswald e mais animado que nunca para viagens pelo tempo-espaço. Um sólido especial de Natal, despretensioso e divertido como deve ser, trazendo um roteiro engajante com momentos memoráveis e ótimas atuações. Pode não trazer grandes mudanças como alguns esperavam, mas contou com a necessária coesão dentro de si mesmo e em relação à temporada anterior, além disso, vimos o Doutor “pilotando” o trenó do Papai Noel com o entusiasmo de uma criança, que, por si só, já valeu o episódio.

Doctor Who: Last Christmas (Reino Unido, 2014)
Showrunner:
Steven Moffat
Direção: Paul Wilmshurst
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Nick Frost, Samuel Anderson, Dan Starkey, Nathan McMullen, Faye Marsay, Natalie Gumede, Maureen Beattie, Michael Troughton
Duração: 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.