Crítica | Doctor Who: Máquinas de Guerra, de George Mann

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estrelas 4,5

Equipe: War Doctor, Cinder
Espaço: Planetas Moldox e Gallifrey
Tempo: Indeterminado ou “através do tempo” (Time War)

Máquinas de Guerra é um dos melhores volumes da série literária BBC New Series Adventures, seguindo-se ao imaginativo Mortalha da Lamentação (2013), que encerrou a linha do 11º Doutor no selo. Temos aqui o War Doctor lutando na Time War e realmente entendemos o motivo pelo qual ele não queria ser chamado de “Doutor”. Relativamente impiedoso, cínico e irascível, o War Doctor toma decisões nesse livro que espantam e ao mesmo encantam o leitor, pois validam o sacrifício de sua própria persona em Karn, quando passou de uma já finalizada (e que não conseguiu completar a regeneração) oitava encarnação para uma versão guerreira, no especial The Night of the Doctor.

A trama se desenvolve em três grandes momentos. O primeiro deles acontece no planeta Moldox, terra natal de Cinder, uma jovem caçadora de Daleks, com seu cabelo laranja, história de vida trágica — ela é natural de um planeta invadido pelos Daleks em plena Time War. Imaginem quantas famílias não foram exterminadas ali — e imensa coragem. George Mann primeiro nos coloca uma situação onde Cinder e um companheiro estão caçando e, a partir das ações dela e os “erros no plano” que acontecem na primeira parte, expande sua personalidade até o encontro com o Doutor, que cai em Moldox após tentar se desmaterializar na órbita do planeta, onde estava co-liderando um grupo de TADISes de Batalha ao lado da Capitã Preda.

O encontro do Doutor com Cinder, as primeiras conversas e a entrada da jovem na TARDIS lembram muitíssimo a relação do Time Lord com Cass, em The Night of the Doctor. Aqui, porém, não existe ódio de Cinder em relação ao seu “salvador”. Existe desconfiança, medo, mas não ódio. E não demora muito tempo para que ela, a despeito de grandes conflitos, assuma o posto de companheira daquele velho Senhor do Tempo. Seu objetivo é encontrar uma forma fácil para sair de Moldox, lugar que jamais lhe trouxe paz e do qual ela sempre quis ir embora, mas nunca teve a oportunidade. Também não dá para ignorar o comportamento do Doutor, que mostra extrema relutância em estar perto de alguém/alguma coisa que não seja um Time Lord ou um Dalek, a quem ele sabia que poderia tratar mal. Moldado na guerra, o War Doctor sempre teve um pé atrás ao encontrar pessoas com as quais poderia querer se juntar para viajar junto (vejam o nível de fofura guardada no íntimo desse Doutor na primeira parte do episódio The Innocent, por exemplo).

Basicamente existe um grande erro na primeira parte, que volta em escala menor no último bloco, mas sem afetar de verdade a obra, que é o destaque dado à organização política de Moldox, com destaque desnecessário a Jocelyn Harris, admirada política (porém egoísta e covarde) que governava o planeta antes da chegada dos Daleks e que se tornou um instrumento deles, favorecendo, por bastante tempo, o avanço dos vilões no local.

O que intriga o Doutor e também o leitor é o quê exatamente os Daleks estavam fazendo em Moldox. Estamos em um estágio da Time War onde já existiam as “Skaro Degradations” — Daleks anormais e malformados, resultado de experiências com humanos, Daleks mortos e outras espécies (percebam que a ideia de pureza aqui não é levada em conta pelos vilões) para aumentar o número de soldados na guerra — e onde Rassilon já mandara o Doutor em busca do Mestre, algo que é cobrado quando o Guerreiro chega a Gallifrey com Cinder e fala do Tantalus Eye em Moldox — uma anomalia espacial, uma ponte entre Universos — e da nova arma dos Daleks, cuja intenção é apagar pessoas, e consequentemente toda a História de Gallifrey, da existência. Um novo tipo de morte.

engines-of-war-maquinas-de-guerra-doctor-who-plano-critico-war-doctorA reta final do volume tem um caráter épico e muito, muito triste. A discussão do Conselho de Gallifrey para utilizar ou não a Tear of Isha (manipulador estelar mantido no arsenal de Ômega, destinado a colapsar buracos negros); a ordem de Rassilon para que o Doutor fosse morto (o mais cruel é que a CIA — Celestial Intervention Agency –, para quem o Doutor trabalhou em sua 2ª encarnação é conivente com isso), e a ação covarde e ingrata de Karlax são coisas que nos deixam sem fôlego durante a leitura.

Cinder também tem um papel essencial nesse momento, deixando o leitor em um estado de desalento que resultará na ação seguinte do Doutor, onde ele resolve que todas as desgraças que ele viu, a mudança ético-moral dos já questionáveis Time Lords e a morte de tantas pessoas queridas ao seu redor não aconteceriam mais. Daquele ponto em diante, ele resolve usar o Moment para acabar com a Time War.

No more.

NOTA CRONOLÓGICA: esta aventura se passa ANTES de The End of Time (10º Doutor) e The Last Day. Fica claro que é a partir dos eventos finais de Máquinas de Guerra que o Doutor parte para roubar o Moment em Gallifrey. O último estágio posterior a essa decisão nós vemos em The Day of the Doctor.

Doctor Who: Máquinas de Guerra (Engines of War) — Reino Unido, 31 de julho de 2014
Autor: George Mann
Editora: BBC Books
320 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.