Crítica | Doctor Who: Negócios Incomuns, de Gary Russell

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Equipe: 6º Doutor, Mel.
Espaço: Brighton, Inglaterra.
Tempo: 1989.

Mel foi uma companion com uma trajetória curiosa em Doctor Who. Introduzida no arco Terror Of The Vervoids na 23ª Temporada da Série Clássica, Mel surgia em uma projeção do futuro do Sexto Doutor. Em The Ultimate Foe, o Doutor conhece Mel de fato, mas uma versão dela trazida do futuro como sua testemunha de defesa em seu julgamento. Ao fim do arco, o Doutor vai embora com Mel, e na temporada seguinte, ela está viajando com o Sétimo Doutor, mas a Série nunca mostrou quando ele devolveu a Mel do futuro a seu lugar no tempo e como a dupla se conheceu (da perspectiva dela). Gary Russel, que já havia coberto um buraco da Série Clássica ao escrever a despedida de Liz Shaw no romance As Escalas da Injustiça, resolveu contar a primeira aventura de Melanie Bush com este Negócios Incomuns. O livro também é uma sequência de As Escalas da Injustiça, embora não seja preciso ter lido o livro anterior de Russell para entender este.

No início da trama, o Doutor aproveita um descanso em Brighton, Inglaterra, após ajudar a polícia local a impedir que o Mestre provocasse um colapso econômico no país. Mas o descanso do Time Lord dura pouco, pois logo ele se vê envolvido com um rapaz que descobre ter poderes telepáticos, o que vai levar o Time Lord rumo a um encontro que ele vem tentando evitar. Ao mesmo tempo, a misteriosa SeneNet, uma empresa de tecnologia, que parece estar realizando um grande investimento no mercado dos videogames, vem sequestrando jovens, e criando manobras nefastas para conseguir o monopólio do mercado. As atividades da empresa chamam a atenção da UNIT, que recorre a ajuda do aposentado Brigadeiro Lethbridge Stewart para investigar a empresa, mas ele é capturado. Com novos e antigos amigos ameaçados, o Doutor precisa se aliar a Melanie “Mel” Bush, e ao Inspetor Bob Lines para descobrir os macabros segredos da SeneNet, o que pode colocar o Doutor em rota de colisão com velhos conhecidos.

Negócios Incomuns lembra os clássicos da “Era UNIT”, com uma aventura cheia de elementos de espionagem e o Doutor contando com o apoio das autoridades pois, neste caso, a polícia desempenha o papel geralmente ocupado pela UNIT. A trama começa lenta, intercalando a apresentação dos personagens principais, com o funcionamento da SeneNet. Embora os trechos na empresa se tornem um pouco enfadonhos, logo que as peças são postas no tabuleiro, o livro entra em um ótimo crescendo e mesmo os vilões inicialmente desinteressantes ganham brilho. Em sua segunda metade, a narrativa torna-se absolutamente magnética e conduz a um clímax explosivo, onde os elementos de espionagem passam a ceder lugar aos clássicos elementos de horror em Doctor Who, com direito a vilão surpresa. Apesar de conter uma série de elementos bastante sombrios, Russell consegue manter a história relativamente leve, ao proporcionar generosas doses de humor negro para a trama, pra não falar em uma série de fantásticas piadas recorrentes, como as constrangedoras tentativas de Christine Bush de empurrar Mel para o seu amigo Trey Korte, sem perceber que o rapaz é gay, ou o fato do Doutor ser constantemente confundido com um palhaço nas ruas. A prosa de Russell é muito divertida também. Não tive como não sorrir ao ler a hilária descrição da voz de Mel feita pelo Doutor, que parece casar perfeitamente com a voz que Bonnie Langford criou para a sua personagem na série.

O tom exuberante, a forma como cada sílaba parece ser uma sílaba tônica, a forma como cada palavra parece ser sublinhada em vermelho ao menos três vezes. Só uma pessoa em todo o universo tem essa voz. Melanie Bush, Mel. Ruiva. Memória de um elefante e obcecada por suco de cenoura.

Apesar de tropeçar um pouco na condução da narrativa, Russell merece aplausos pelo desenvolvimento dos personagens principais. No prefácio, o autor diz que queria escrever uma história que Colin Baker gostaria e acredito que o ator realmente iria gostar de interpretar o Sexto Doutor deste livro. Russell manipula habilmente o conflito do Time Lord, que teme que seu encontro com Mel e seu consequente ingresso na TARDIS seja mais um passo para a criação de sua persona maligna, o Valeyard, e descobrimos que o Senhor do Tempo tem feito de tudo pra evitar tal destino, mostrando que os eventos de The Trial Of a Time Lord ainda o assombram. Mas mais importante que isso é constatar como o autor tem imenso sucesso em equilibrar os aspectos mais ácidos da personalidade do Sexto Doutor com o seu lado mais sensível e amável. Aqui, ele é capaz de dar um chilique hilário com o atendente de um fast food que atrasou o seu hambúrguer, mas demonstra grande bondade e generosidade ao ajudar Trey em uma crise psíquica.

Já Mel ganha algo que ela nunca teve na TV, consistência. Ela ainda é uma personagem doce e simples em sua concepção, mas agora conhecemos suas expectativas e sonhos. Ao explorar a vida da jovem em seu lar, na aldeia de Pease Pottage, e sua relação conflituosa com a mãe, Russell concede camadas muito bem vindas para a garota. E consegue fazer isso sem tirar a leveza tão característica da personagem. Ela tem dificuldades de se comunicar com a genitora, que não entende por que Mel é tão preocupada com questões de saúde, ecologia e de tecnologia, e acha que a garota devia estar tentando arranjar um namorado. Mas não existe agressividade nesta falta de comunicação e as duas decididamente se amam, embora se irritem também. A construção da parceria com o Doutor é outro acerto. Por mais que o Time Lord tente evitar Mel, ele não pode deixar de admirar cada vez mais a determinação e inteligência que a jovem demonstra. Mel, por sua vez, logo se identifica com o espírito aventureiro do Doutor e rapidamente enxerga a bondade que ele esconde por trás da postura arredia. Embora o Sexto Doutor seja um homem bem mais maduro aqui do que e suas viagens com Peri Brown, o autor coloca Mel como alguém que parece compreender melhor este Doutor, talvez por ser mais parecida com ele, portanto, sabe melhor como “desarma-lo”, o que explica a convivência mais harmônica do que a que viveu ao lado da americana.

A participação do Brigadeiro é ótima por explorar a lacuna entre o período em que ele viveu como um solitário professor e o seu segundo casamento. Feito prisioneiro, o Brigadeiro passa a refletir tanto sobre o passado, ao ser confrontado com a memória dos soldados que morreram sob seu comando, quanto o futuro, ao se perguntar o que fará com a sua vida, se sobreviver àquela situação. Mas se esta subtrama aprofunda um personagem querido pelos whovians, ela acaba sendo pouco articulada com a parte central. E o encontro entre o militar e o Sexto Doutor acaba sendo breve demais, embora ainda consiga retratar a grande amizade e respeito que existe entre os dois.

Russell não nos apresenta coadjuvantes memoráveis, mas eles cumprem bem seus papéis. Christine, a mãe de Mel, é uma mulher um pouco alienada, que não percebe que seu inquilino Trey está namorando o vizinho, e tem dificuldades em entender as preocupações mais globais da filha. Trey, o melhor amigo de Mel e inquilino em sua casa, é vital por conectar definitivamente os destino de Melanie com o do Doutor. Ele é um personagem simpático e Russell cria um paralelo interessante entre a descoberta de seus poderes telepáticos — já que ele se revela um Esper — e a descoberta de sua homossexualidade, ocorrida antes do início da história. Por fim, o vilão Martyn Townsend, oriundo de As Escalas da Injustiça, poderia ter saído de um filme de James Bond, com direito a um plano de dominação global, capangas excêntricos e um animal feroz que ele alimenta com seus inimigos. Townsend Não é um antagonista complexo, mas sua crueldade e frieza o tornam uma ameaça crível e sua postura sóbria contrasta muito bem com a personalidade explosiva e provocativa do Doutor.

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No fim, fui positivamente surpreendido com Negócios Incomuns. Não havia gostado muito do livro anterior que li do autor, o fraco Lealdades Divididas, mas aqui, apesar do começo claudicante, ele consegue entregar uma trama que transita com desenvoltura entre a tensão e o bom humor, prestando diversas homenagens à Série Clássica, com reviravoltas simples, mas muito bem colocadas. O livro traz ainda um capítulo importante para a mitologia da série, ao finalmente nos contar a primeira aventura de Mel ao lado do Doutor, e merece muitos pontos por conseguir entender a versão de Colin Baker do personagem como nenhum roteirista da série parece ter conseguido.

Em tempo: pena que um livro tão divertido tenha uma capa tão feia e sem imaginação. As capas do selo BBC Past Doctor Adventures nunca foram maravilhosas, bem longe disso. Mas essa daqui se superou na feiura.

Negócios Incomuns (Business Unusual) — Reino Unido, 1º de Setembro de 1997
BBC Past Doctor Adventures #4
Autor: Gary Russell
Editora: BBC Books
277 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.