Crítica | Doctor Who: O Arrebatamento e Outras Histórias (Big Finish Mensal #34 a 39)

bang_bang_a_boom_star-trek-plano-critico-doctor-who

Aqui estão as críticas para os episódios #34 a 39 da série Big Finish Main Range, a principal da BF, com histórias do 5º, 6º e 7º Doutores. O bloco se inicia, porém, com outra trama, a do 5º Doutor na série Destiny of the Doctor.

spoilers! Confira as nossas críticas para muitas outras produções de Doctor Who aqui.
.

Smoke and Mirrors

Destiny of the Doctor #5

estrelas 3

smokeandmirrors_doctor-who-plano-critico

Equipe: 5º Doutor, Tegan, Adric, Nyssa
Espaço: Inglaterra
Tempo: anos 1920

Mais uma aventura da saga Destiny of the Doctor, que para o Doutor e seus companions, acontece depois de The Visitation. A TARDIS recebe um chamado vindo da Inglaterra, na década de 1920, enviado por um velho amigo do Doutor, Harry Houdini. O encontro entre eles é caloroso, cheio de memórias e acompanhado do espanto de Tegan e certa indiferença quanto à pessoa e também um pouco de desconfiança por parte de Nyssa e Adric. O espectador também fica com o pé atrás, pois Houdini está fazendo perguntas demais e muito específicas sobre a TARDIS, sobre Tegan e sobre as viagens do Doutor.

O clima rememora certos elementos da era do 4º Doutor, especialmente The Talons of Weng-Chiang. É um pouco estranho ver esse cenário com o 5º Doutor e principalmente com esses companions, mas entre piadas, animais selvagens e desconfianças, a história avança satisfatoriamente. Com a aparição do Mestre, a enigmática mensagem do 11º Doutor — que parece ficar menos interessante a cada novo contato com suas encarnações passadas — e a virada de casaca de Houdini, o que estava indo bem, começa a ir por uma trilha nada louvável.

O desfecho da história basicamente coloca as partes em paz, de novo, mas a montanha-russa de emoções, traição, servidão a um e outro Time Lord têm forte peso na avaliação final do roteiro. Infelizmente, não é um dos melhores degraus dessa epopeia de Doutores tentando cercar o seu destino a partir de uma mensagem do futuro.

Smoke and Mirrors (Reino Unido, maio de 2013)
Direção: John Ainsworth
Roteiro: Steve Lyons
Elenco: Janet Fielding, Tim Beckmann

.

Spare Parts

Big Finish Mensal #34

estrelas 4

spare_parts_doctor-who-plano-critico

Equipe: 5º Doutor, Nyssa
Espaço: Planeta Mondas
Tempo: Indeterminado

Em 1981, o co-criador dos Cybermen, Gerry Davis, enviou um roteiro para o produtor-reizinho de Doctor Who na época, John Nathan-Turner, que no alto de seu poleiro, não viu nada de interessante em um arco chamado Genesis of the Cybermen (!!!!) que seguia mais ou menos os passos do que foi feito com os Daleks, na era do 4º Doutor e serviria como prequel do último arco do 1º Doutor, The Tenth Planet. Inspirado nessa ideia, Marc Platt escreveu Spare Parts para a Big Finish, uma história tenebrosa sobre o início da produção dos Cybermen em Mondas e o início dos problemas na superfície do planeta, cada vez mais gelado. Também é importante dizer que este arco serviu de inspiração para os episódios The Age of Steel e Rise of the Cybermen, da Nova Série.

Ocorrido no longo período de aventuras que o Doutor passa apenas ao lado de Nyssa, entre Time-Flight e Arc of Infinity, este arco traz novamente a morte de Adric à tona e mais uma vez atribui elementos morais de peso ao Doutor, em sua recusa de mexer em determinadas questões temporais. Sabendo do que aconteceria a Mondas, ele procura sair o mais cedo do planeta, mas acaba ficando por causa de Nyssa, que em sua birra eterna, teima em permanecer ali para ajudar as pessoas. Claro que é um tiro no pé, porque no processo de manufatura dos androides, o Doutor é pego e parte do seu cérebro é utilizado para aperfeiçoar os Cybermen. Então sim, todos Cybermen tem um pouco de Doutor, tudo por culpa de Nyssa, que quis ficar “para fazer o bem”, mesmo sabendo o que aconteceria com aquele povo.

O mais legal de tudo é que não vemos uma criação perfeita e completada durante o arco. E temos uma personagem que nos causa ódio, asco, todo tipo de reação negativa que se possa imaginar. Seus testes para a criação dos Cybermen seguem, mesmo com um comportamento “estranho” e de autopreservação a todo custo por parte dos androides. Quando o Doutor parte, aparentemente as coisas estão… consertadas. Ou perto disso. Mas não se pode enganar a História. É isso que aqueles que ficam em Mondas descobrirão pouquíssimo tempo depois.

Spare Parts (Reino Unido, julho de 2002)
Direção: Gary Russell
Roteiro: Marc Platt
Elenco: Peter Davison, Sarah Sutton, Kathryn Guck, Paul Copley, Derren Nesbitt, Pamela Binns, Jim Hartley, Ann Jenkins, Sally Knyvette, Nicholas Briggs, Alistair Lock, Gary Russell

.

…ish

Big Finish Mensal #35

estrelas 3

___ish-doctor-who-plano-critico

Equipe: 6º Doutor, Peri
Espaço: uma Universidade nos Articulate Worlds
Tempo: Indeterminado

O 6º Doutor e Peri se materializam no campus de uma Universidade dos Articulate Worlds, onde o Doutor irá atender a um chamado para palestrar, além de estar registrado em outros eventos de lexicografia. Peri já não aguenta mais o Doutor falando sobre um “grande dicionário”, que irá registrar todo vocábulo já falado e sobre projetos linguísticos diversos. Na primeira oportunidade, a companion se livra do Senhor do Tempo e vai tomar um café. Como ela consegue dinheiro só Rassilon sabe, mas ela vai tomar um café… E se encontra com Warren, o jovem apaixonado por linguística que será um dos vilões da saga.

A primeira parte é simplesmente genial. Aqui, estamos em um cenário igual ao de Dust Breeding (7º Doutor), só que em uma arte diferente. Lá, eram as artes plásticas que geravam o motor do medo. Aqui, é a literatura. Ou a arte de falar e escrever bem, por assim dizer. A paixão pelos livros ganha um outro cenário, onde volumes inteligentes (holográficos) se comunicam com seus donos e inclusive ajudam a fazer pesquisas, o que é maravilhosamente interessante. É como se víssemos um tipo de Guia do Mochileiro das Galáxias animado, quase com a personalidade de Marvin, o androide paranoide. Enquanto a história está dividida em duas partes, com o Doutor e seus problemas de um lado e Peri e seus problemas de outro, tudo funciona perfeitamente bem. Mas quando eles se reencontram, a qualidade do roteiro cai.

A parte final do arco mantém o humor, não deixa de ser inteligente, mas não carrega o nível de diversão que as partes anteriores carregaram. O suspense parece meio jogado e o Doutor age mais por rompantes do que por método. Não que esse princípio seja ruim, mas ele não esteve presente nos outros blocos, por isso espanta quando vem à tona, e não de uma maneira bem inserida na história. De qualquer forma, eis aqui mais um motivo para temer assistir Doctor Who: dentre todas as coisas que a série nos faz ver com outros olhos (de alguém apavorado) agora os livros também entram na lista. Sacanagem…

…ish (Reino Unido, agosto de 2002)
Direção: Nicholas Briggs
Roteiro: Phil Pascoe
Elenco: Colin Baker, Nicola Bryant, Moray Treadwell, Marie Collett, Oliver Hume, Chris Eley

.

The Rapture

Big Finish Mensal #36

estrelas 3

the_rapture_doctor who-plano-critico

Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Ibiza, Espanha
Tempo: 14 e 15 de maio de 1997

Eu realmente não esperava que uma aventura que começou tão perfeita, com edição tão orgânica e uma linha tão fresca nos áudios de Doctor Who, terminasse com um tipo de bobagem qualquer sobre união entre irmãos, uma morte afetada, um vilão que estava praticamente aceitando sua situação nessa existência e muda de ideia do nada… tudo para atrapalhar a boa trama de “balada perigosa” em que Ace e o 7º Doutor estão inseridos aqui.

Eu genuinamente gostei do trabalho de edição aqui. E a direção de Jason Haigh-Ellery é nada menos que soberba, exceto pelos 20 minutos finais. A brincadeira constante com as falas de um personagem que servem de base para o início da frase seguinte é um recurso primoroso e utilizado com muito rigor. Talvez seja base narrativa apareça com muita frequência no episódio três, mas não deixa de ser interessante. Sem contar que o fato de Ace cobrar do Doutor uma saída simples, para beber e dançar, é uma das coisas mais legais dessa fase das viagens dos dois. E convenhamos, ela merecia esse descanso. Pena que não veio como esperava.

A descoberta do irmão de Ace poderia ter um início mais intenso para o lado do rapaz. Todavia, o impacto é positivo no espectador e a reação de Ace é a melhor possível. A relação entre os dois é a que se esperava: complexa, cheia de desconfiança e progressivamente mais e mais emotiva. É muito bem ver essa nuance nos roteiros na série. Minha única mágoa, além da queda de qualidade no texto do meio do quarto episódio para frente (que se desvia da linha interessante de simbolismos o arrebatamento bíblico), é que o irmão de Ace não tenha se tornado companion.

The Rapture (Reino Unido, setembro de 2002)
Direção: Jason Haigh-Ellery
Roteiro: Joseph Lidster
Elenco: Sylvester McCoy, Sophie Aldred, Tony Blackburn, Matthew Brenher, Neil Henry, Carlos Riera, David John, Anne Bird, Daniel Wilson, Jeremy James

.

The Sandman

Big Finish Mensal #37

estrelas 3

the_sandman_doctor-who-planoi-critico

Equipe: 6º Doutor, Evelyn
Espaço: Frota espacial nômade The Clutch
Tempo: c. 2675

A ação deste arco se passa no século XXVII e coloca o Doutor como uma força mítica/folclórica bastante temida pelos Galyari. Só a partir desse ponto, o espectador se vê preso à trama de The Sandman, porque traz uma dúvida bastante válida em se tratando do 6º Doutor (ele fez ou não fez algo para gerar esse medo de séculos em uma espécie inteira?) e nos dá a oportunidade de explorar a personalidade do Time Lord em um ambiente de medo, desconfiança e servidão forçada, sempre com a tag perigosa “fazendo tudo pelo bem maior”.

Eu gosto bastante da reação de Evelyn a essas declarações do Doutor. O momento de confusão também é compartilhado pelo público, que aos poucos vai conhecendo o passado e temendo ou achando estranhas as mortes e desaparecimentos do presente nessa frota espacial em constante movimento chamada ‘The Clutch’.

Como se trata de uma aventura de narrativas sobre um mito (o Doutor) que encarna outro mito (The Sandman), eu esperava tudo menos a representação final de um amálgama dessa mentira maldosa criada pelo 6º Doutor para impedir que um campo de guerra aumentasse e que um conflito matasse ainda mais gente do que já tinha matado. Trata-se de algo de boa fé por parte do Senhor do Tempo, mas as consequências não são exatamente maravilhosas para as gerações que cresceram com medo dessa bizarra figura de casaco colorido que “podia arrancar e vestir a pele de seus inimigos”. Imaginem só.

The Sandman (Reino Unido, outubro de 2002)
Direção: Gary Russell
Roteiro: Simon A. Forward
Elenco: Colin Baker, Maggie Stables, Anneke Wills, Ian Hogg, Robin Bowerman, Stephanie Colburn, Mark Donovan, Mark Wharton

.

The Church and the Crown

Big Finish Mensal #38

estrelas 3,5

the_church_and_the_crown_plano-critico-doctor-who

Equipe: 5º Doutor, Peri, Erimem
Espaço: Paris, França
Tempo: 1626

Essa história tem uma grande importância para o desenvolvimento de Erimem como personagem, o estabelecimento definitivo (ao menos nas palavras de um inicialmente relutante Doutor) dela como companion — ele parece ter desistido de levá-la para a Braxiatel Collection — e uma excelente relação dela com Peri, que também tem um grande papel na história, dando a oportunidade da atriz Nicola Bryant mostrar um outro lado, vivendo, além da companheira americana, Ana de Áustria, a rainha de França.

Por ter o ótimo estabelecimento das companions em destaque, o Doutor orbita a história como um curioso em cenas de [grande] ação. É bom vê-lo mais preocupado do que o costume, interagindo com os Mosqueteiros do rei Luis XIII e tentando controlar suas incontroláveis companheiras. Conforme a história avança e a presença do Cardeal Richelieu se ergue ao lado de conspirações contra a França, tentativas de golpe, sequestro da rainha (que se parecia MUITO com Peri) e coisas do tipo, os viajantes do tempo se tornam cada vez mais alvo de acusações, como é de costume, mas a facilidade de serem presos imediatamente aqui — como de fato acontece — é bem grande.

As interpretações para o pessoal da Corte são ótimas e um pouco das fofocas do reinado ganham cada vez mais espaço quando Peri, Erimem e o Doutor são colocados em perigo. Para que certos dramas sejam desenvolvidos, informações são fornecidas e assim a história se constrói. Já aqui vemos as sementes do absolutismo. E a religião (leia-se: igreja católica) tinha poder sobre a política até demais.

The Church and the Crown (Reino Unido, novembro de 2002)
Direção: Gary Russell
Roteiro: Cavan Scott, Mark Wright
Elenco: Peter Davison, Nicola Bryant, Caroline Morris, Andrew Mackay, Michael Shallard, Marcus Hutton, Peter John, Andy Coleman, Robert Curbishley, Wendy Albiston, Mark Wright, Gary Russell, Mark Wyman

.

Bang-Bang-a-Boom!

Big Finish Mensal #39

estrelas 4,5

bang_bang_a_boom_star-trek-plano-critico-doctor-who

Equipe: 7º Doutor, Mel
Espaço: Estação espacial Dark Space 8 (na borda da Galáxia)
Tempo: 3950 (?)

Nessa divertidíssima história, o Doutor começa tentando levar Mel para Paris e realmente acredita que chegou lá, talvez materializando a TARDIS em um estacionamento. Mas não. Eles chegaram na Dark Space 8, uma Estação Espacial onde estava para acontecer o 309º Concurso Intergaláctico de Canções. Tudo poderia ser uma grande diversão para a dupla se já no início da aventura eles não fossem atacados e confundidos com Comandante (o Doutor) e Piloto (Mel) da Estação.

O desenvolvimento do roteiro desse arco é rico, hilário e cheio de reviravoltas. O espectador não deve esperar que os problemas se resolvam rápido e deve curtir o caminho, porque todos os subterfúgios e os personagens que serão apresentados possuem um importante papel no desenvolvimento geral da história. Vale destacar também que teremos um bloco onde Mel irá resolver as coisas e outro onde o Doutor estará cuidando dos problemas, o que nos dá duas interessantes frentes de ação para a pergunta principal: quem é o assassino?

O momento em que o Doutor vai jantar com a Rainha Angvia me fez gargalhar muito alto. Ela “atacando” o Doutor e ele respondendo às suas incursões amorosas e libidinosas é impagável. A Big Finish já tinha inserido algo mais ou menos nesse sentido no arco The One Doctor (6º Doutor) mas aqui a coisa é simplesmente impagável. O final também se destaca, com o Doutor bancando do Hercule Poirot e enrolando ou dando “pistas falsas” antes de revelar quem o verdadeiro assassino era. Assumidamente uma homenagem a Star Trek, essa aventura é povoada de uma atmosfera de Agatha Christie e muito humor negro. Pena que há uma quebra nos 8 minutos finais que estende o roteiro mais do que deveria.

Bang-Bang-a-Boom! (Reino Unido, dezembro de 2002)
Direção: Nicholas Pegg
Roteiro: Gareth Roberts, Clayton Hickman
Elenco: Sylvester McCoy, Bonnie Langford, Sabina Franklyn, Graeme Garden, Vidar Magnussen, Nickolas Grace, Patricia Quinn, Anthony Spargo, Jane Goddard, David Tughan, Gareth Roberts, Barnaby Edwards, Gareth Jenkins, Andy Hardwick
.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.