Crítica | Doctor Who: O Jogo do Assassinato, de Steve Lyons

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Equipe: 2º Doutor, Ben, Polly
Espaço: Hotel Galaxian
Tempo: 2136

Tendo escrito excelentes trabalhos para Doctor Who tanto na literatura (Os Caçadores de Bruxas, Salvação) como para a Big Finish (Colditz, Blood of the Daleks), Steve Lyons pode ser considerado, em minha opinião, um dos autores mais confiáveis a escrever para o universo expandido. Enquanto os romances posteriores do autor para a linha Past Doctor Adventures tratavam-se de narrativas mais densas, que discutiam questões como a fé, a guerra, e o fanatismo, O Jogo do Assassinato, seu primeiro livro para a linha, traz uma história mais despretensiosa, mas ainda assim envolvente e muito bem escrita.

A trama tem início com a TARDIS atendendo a um pedido de socorro de origem desconhecida. O Segundo Doutor, Ben, e Polly desembarcam no ano de 2136 á bordo do Galaxian, um luxuoso, porém decadente hotel espacial na orbita a Terra. O Galaxian está sediando o “Jogo de Assassinato” anual, onde um grupo de pessoas chegam para jogar o jogo do título, um RPG onde os participantes se caracterizam como personagens de época e devem tentar descobrir um assassino (fictício, é claro) entre eles. Sem pistas de quem enviou o sinal de socorro ou por que, o time da TARDIS decide participar do jogo, mas logo percebem que alguém está levando a brincadeira de assassinato á sério demais.

Em um primeiro momento, a premissa inicial de O Jogo do Assassinato pode parecer bastante derivativa, pois colocar o Doutor em um ambiente futurista em uma trama que emula os mistérios de assassinato de Agatha Christie vistos em obras como E Não Sobrou Nenhum ou Assassinato No Expresso do Oriente é algo que a Série Clássica já realizou algumas vezes, vide Robots of Death e Terror of The Vervoids. Entretanto, o romance ganha pontos por não apenas aplicar os elementos do mistério de assassinato tipicamente britânicos dentro de um contexto de ficção científica, como foi feito na Série, mas também por satirizá-los, afinal, os personagens tem consciência que estão encenando um pastiche do gênero ao jogar o RPG. Não por coincidência alguns dos momentos mais divertidos da obra se encontram nas passagens que lidam com o jogo. Não há como não rir durante o trecho em que descobrimos que o único papel que sobrou para o Doutor no jogo é de uma jovem donzela, que vem a ser a noiva do personagem desempenhado por Ben.

A partir da metade do livro, a sátira de Agatha Christie perde espaço com a introdução dos principais vilões da trama, os Selachianos, e a narrativa adquire um caráter mais urgente ao assumir configuração mais característica das aventuras do Segundo Doutor, que vê o Time Lord tendo que proteger um grupo de pessoas sob cerco inimigo. Apesar da familiaridade, Lyons consegue manter a narrativa tensa e emocionante, com um ritmo ágil, mas dando ao leitor tempo o bastante para sentir os acontecimentos e criar empatia com as situações descritas.

Os conceitos de ficção científica apresentados pelo autor também são fascinantes. Principalmente os Selachianos, um povo vindo de um planeta aquático, que conquistou a viagem estelar. O visual descrito por Lyons para seus vilões e a tecnologia usada por eles já é digna de nota. Os Selachianos ainda são dependentes de água, por isso a maior parte de suas naves são submersas. Eles usam armaduras de combate que lembram tubarões humanoides, por ser nosso predador aquático mais temido, mas que são habitadas por criaturas fisicamente frágeis, que precisam se mutilar pra usar suas armaduras. Embora não aprofunde muito esta espécie nesse livro, o autor dá a entender que a motivação deles vai muito além da raça alienígena beligerante padrão. Felizmente, o autor posteriormente explorou estas criaturas de forma mais profunda no romance A Sanção Final.

Steve Lyons mostra um grande domínio sobre os personagens da TV e, ao situar seu romance entre os arcos The Power of the Daleks e The Highlanders, ou seja, antes do surgimento de Jamie, tem a chance de trabalhar uma dinâmica quase inexplorada na série, especialmente no caso de Ben, que acabou sendo negligenciado na televisão após a chegada do escocês.

O autor intercala a narrativa entre os pontos de vista dos três tripulantes da TARDIS, mas parece dar atenção especial a Ben Jackson, ao explorar algumas das inseguranças do marinheiro, e a forma como ele enxerga a vida na TARDIS e seus companheiros de viagem. Ben demonstra um respeito cada vez maior pelo Segundo Doutor, embora o romance indique de forma sutil que o rapaz ainda guarda certo luto pela versão anterior do Time Lord, e diferente da companheira, não consiga pensar nas duas encarnações como a mesma pessoa. A relação entre Ben e Polly também geram momentos muito bonitos na narrativa, ao retratar a amizade entre os dois companions, que começa a dar sinais de se transformar em algo mais.

O Segundo Doutor está fielmente retratado nas páginas, com Lyons conseguindo captar com precisão a brilhante veia cômica que Patrick Troughton concedeu ao seu Doutor na série de TV, mas também retratando a personalidade mais afetuosa e combativa desta encarnação. Polly também é bem representada, trazendo para o livro o mesmo carisma que possuía no programa, embora acabe sendo a personagem menos explorada do elenco principal.

Devido a já citada influência das obras de Agatha Christie, a maioria dos coadjuvantes surgem como uma incógnita, já que a maioria deles guarda algum tipo de segredo, não sendo bem quem diz ser. Eles cumprem a sua função, mas acabam não sendo muito memoráveis, excetuando Thomas, o absurdamente educado atendente holográfico do hotel (que surge vestido de Drácula, devido a não ter sido atualizado desde que o Hotel sediou um baile de Halloween).

Explorando um interessante período do início da linha do tempo do 2º Doutor, O Jogo do Assassinato é uma ótima leitura, que mantém o leitor interessado do começo ao fim. É uma obra divertida e despretensiosa, que traz os melhores elementos de uma típica aventura do Time Lord de Patrick Troughton.

Notas finais: o romance possui uma pequena importância cronológica, já que em sua conclusão, o Segundo Doutor, tendo aprendido a utilidade da energia sônica, decide construir um certo aparato sônico. Infelizmente, o livro traz mais uma capa horrenda e sem o mínimo de criatividade da PDA.

Doctor Who: O Jogo do Assassinato (The Murder Game) — Reino Unido. 7 de junho de 1997.
Autor: Steve Lyons
BBC Past Doctor Adventures # 02
Publicação: BBC Books
284 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.