Crítica | Doctor Who: O Legado dos Daleks, de John Peel

Equipe: 8º Doutor, Susan.
Espaço: Londres
Tempo: 2199

Não se pode negar que John Peel é um autor de ideias ambiciosas e até controversas, uma vez que não tem pudor nenhum em mexer com o cânone da série, como já havia demonstrado no romance Timewyrm: Gênese e, de forma mais acentuada, em A Guerra dos Daleks. Já com este O Legado dos Daleks, Peel não só se propõe a promover esperado reencontro entre o Doutor e sua neta Susan em uma sequência direta do clássico The Dalek Invasion Of Earth, como também apresenta a história de como o Mestre interpretado por Roger Delgado se tornou a versão cadavérica vivida por Peter Pratt no arco The Deadly Assassin.

A trama acompanha o Oitavo Doutor em busca de sua companheira perdida, Sam Jones, de quem ele foi separado em uma aventura anterior. Enquanto tenta localizar Sam, o Doutor recebe um pedido de ajuda telepático vindo de sua neta Susan, que excetuando um breve encontro durante os eventos de The Five Doctors, ele não via desde que a deixou na Terra pós-invasão Dalek, durante a sua primeira encarnação. Mas ao se materializar na Londres de 2199, trinta anos após a derrota dos Daleks em The Dalek Invasion Of Earth, o Doutor encontra uma Inglaterra que não conseguiu se pacificar totalmente e ainda descobre que Susan desapareceu. Ao mesmo tempo, Susan se depara com um maquiavélico esquema que visa inflamar as tensões existentes entre as facções que surgiram após a derrota dos Daleks, podendo provocar uma nova guerra na Europa.

O Legado dos Daleks é o que eu chamo de um “livro de extremos”. Quando o autor acerta, ele acerta em cheio, deixando o leitor com um sorriso de orelha a orelha. Mas quando erra, é um erro dos feios. Infelizmente, o número de erros acaba superando os acertos aqui, resultando em um livro bastante irregular. Peel mexe com coisas interessantes como viajantes do tempo se encontrando fora de sincronia, sociedades pós-apocalípticas e paradoxos temporais, além de lidar com dois momentos que deveriam ser icônicos na mitologia da série, o reencontro com Susan e a regeneração do Mestre, mas o romance falha em gerenciar todos esses ingredientes em uma trama satisfatória.

Felizmente não se pode negar que o autor é extremamente eficiente na hora de construir o universo em que a sua narrativa está situada. O mundo pós-invasão Dalek imaginado por Peel é uma mistura instigante de mundo contemporâneo e Europa feudal, com direito a senhores e cavaleiros de armadura. O autor consegue articular estes diferentes ambientes em um mundo coeso, que realmente intriga o leitor, sendo a construção desse cenário uma das melhores coisas do livro. A Terra de O Legado dos Daleks é um lugar brutal e sem esperança onde apesar de os Daleks terem partido há trinta anos, ainda habitam o imaginário da população como verdadeiros bichos-papões — mesmo da geração que não viveu a invasão.

O problema é a forma como Peel escolhe desenvolver a narrativa do romance. A ideia de que os humanos entraram em uma disputa por poder depois dos eventos de The Dalek Invasion Of Earth é muito atraente e, por si só, já renderia uma excelente história. Infelizmente, os núcleos não parecem se conectar de forma orgânica e os pontos de virada da trama muitas vezes soam forçados. A escolha por ocultar a identidade do Mestre até mais da metade da narrativa soa bastante equivocada também. O misterioso Sr. Estro, conselheiro do tirano local Lord Haldoran, que tem lhe fornecido tecnologia alienígena, tem todas as características que esperamos do clássico vilão. Chega a ser cômico quando a história apresenta a revelação de Estro como o Mestre, como algo surpreendente.

A inserção tardia de um grupo de Daleks durante o terceiro ato também soa absolutamente desnecessária, como se Peel tivesse sentido que não podia escrever um livro com a palavra “Daleks” no título sem que os monstros de Skaro aparecessem de fato, o que é uma pena, pois a presença invisível dos Daleks através dos traumas de guerra estava funcionando muito bem. Por outro lado, o romance tem um bom ritmo. Não chega a ser uma leitura magnética, mas nunca se torna enfadonho. A ação e os diálogos são bem escritos. Por outro lado, a narrativa é falha, trazendo algumas passagens realmente constrangedoras como “O sangue dele sairia de sua camisa, mas dificilmente sairia de sua memória”.

A construção e caracterização dos personagens de Peel neste romance também acabam por ser um pouco irregular. Embora o Doutor pareça ensaiar um conflito interessante ao se penitenciar por nunca ter cumprido a promessa que fez à neta, tal conflito realmente nunca ganha força. Além disso, o autor não consegue capturar nas páginas a versão de Paul McGann para o Doutor. O que temos é uma versão genérica, com as características básicas compartilhadas por praticamente todas as encarnações do Time Lord, mas a voz particular do Oitavo Doutor raramente surge no romance. O Mestre sofre de problema semelhante. Esta deveria ser a derradeira história da versão de Roger Delgado, mas não se identifica nas páginas o Mestre de Delgado, pois o Time Lord renegado que surge aqui parece lembrar muito mais a encarnação vivida por Anthony Ainley em seus momentos mais cartunescos.

Susan acaba por ser a melhor personagem do livro. Muito de suas características estabelecidas na série estão presentes, mas esta já é uma mulher trinta anos mais experiente. Em outras resenhas, comentei como no Universo Expandido os autores passaram a dar destaque à solidão da jovem Time Lady como uma característica importante da personagem, algo que a série de TV apenas sugeria. Peel volta a abordar tal questão, mas por um viés diferente. O Primeiro Doutor deixou Susan para trás para que ela tivesse um lar e pudesse de fato pertencer a algum lugar. Mas não parou pra pensar que para um Time Lord, isso é temporário. Trinta anos depois, David, o marido de Susan que conhecemos em The Dalek Invasion Of Earth, já é um homem de mais de cinquenta anos que começa a sentir o peso da idade. Susan, entretanto, parece não ter envelhecido mais do que dois ou três anos desde que chegou aquele mundo com o avô, Ian e Barbara. Ela inclusive já parece mais jovem que seus três filhos adotivos (Ian, Barbara e David Jr). A neta do Doutor percebe que isso significa que terá que assistir as pessoas que ama envelhecerem e morrerem. Isso traz todo um novo significado para o reencontro entre o Doutor e Susan. Infelizmente ai mora outro problema do livro. Toda a história foi construída nesta direção mas no fim, o autor nos nega o reencontro, com Susan e o Doutor tendo apenas um breve vislumbre um do outro, o que acaba sendo um amargo anticlímax.

Os personagens restantes são rasos, na melhor das hipóteses. Como a então companheira oficial do Oitavo Doutor, Sam Jones, está desaparecida, o autor cria Donna, uma jovem cavaleira que acaba desempenhando o papel de companion. A personagem até tem o seu charme, mas Peel parece acreditar que encher o passado da moça de traumas vai lhe dar alguma profundidade, o que não é o caso. Apesar da ambição e de trazer alguns conceitos instigantes (três Time Lords completamente fora de sincronia, por exemplo) O Legado dos Daleks nunca chega perto de seus objetivos. É uma leitura rápida e pode até mesmo entreter, mas está longe de ser realmente um bom livro. O retorno de Susan e a regeneração do Mestre original mereciam uma história bem melhor.

Obs: A Big Finish posteriormente produziria suas próprias versões do encontro entre Susan e o Oitavo Doutor, e da regeneração fracassada do Mestre de Roger Delgado.

O Legado dos Daleks (Legacy Of The Daleks) — Reino Unido, 6 de Abril de 1998.
BBC Eighth Doctor Adventures #10
Autor:
John Peel
Publicação: BBC Books
246 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.