Crítica | Doctor Who: Omega (Big Finish Mensal #47)

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No aniversário de 40 anos de Doctor Who, a Big Finish lançou uma quadrilogia de dramas de áudio focados nos vilões, e na relação de antagonismo que mantém com o Doutor. Os dois primeiros exemplares da série, Omega e Davros, destacam-se justamente por explorarem a psique dos vilões titulo, ambientando as histórias em momentos em que o Doutor está viajando sozinho, podendo assim se concentrar na dinâmica entre o Time Lord e seus inimigos.

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Omega

Equipe: 5º Doutor
Espaço: Setor das Almas Esquecidas, Nave Eurydice.
Tempo: Futuro Distante.

Sempre acreditei que Omega nunca foi um vilão explorado da maneira que deveria em suas participações na TV. Omega, afinal de contas, não é só mais um Time Lord psicótico que cruzou o caminho do Doutor. Ele é aquele que tornou possível a existência dos Time Lords tais como os conhecemos. O fato de o Doutor ter crescido ouvindo histórias sobre Omega cria toda uma mítica em torno do personagem, mítica que pode inclusive não ser real, já que o vilão sempre afirmou que seu povo não foi completamente honesto com ele durante o experimento que deu aos Time Lords o segredo da viagem no tempo, e condenou Omega ao universo de anti matéria. É justamente na oposição existente entre lenda e fato, e no valor de cada um destes fatores que se baseia o roteiro de Nev Fountain.

Na trama situada após Arc Of Infinity, o Quinto Doutor, atendendo um pedido de ajuda telepático, deixa Nyssa e Tegan em Amsterdã cuidando do traumatizado primo desta última, e embarca em um ônibus espacial da Jolly Chronolidays, empresa de turismo que dá á seus clientes encenações realistas de grandes fatos históricos. O ônibus cruza o Setor das Almas Esquecidas, o mesmo lugar onde milhares de anos antes, a nave de Omega desapareceu. O Doutor e os turistas assistem a encenação dos últimos momentos do Time Lord, antes de desaparecer no universo anti matéria. É quando a nave de Omega, a lendária Eurydice, se materializa diante do ônibus. A partir de então, mortes misteriosas começam a acontecer, enquanto o próprio Omega, preso entre o universo de matéria e anti-matéria solicita a ajuda do Doutor para voltar ao universo de anti-matéria. Mas se em sua forma atual, Omega é completamente intangível, quem está matando os passageiros do ônibus?

Se apresentando inicialmente como um thriller de assassinato e isolamento, na linha de E Não Sobrou Nenhum, o roteiro de Fountain começa a expor os temas dos quais quer tratar desde o cenário inicial envolvendo o serviço de turismo da Jolly Chronolidays. A empresa possui a tecnologia de viagem no tempo, mas descobriu que seu público muitas vezes se decepcionavam com os fatos históricos que pagavam pra testemunhar, passando então a investir em encenações. O público parece preferir a lenda aos fatos, o que o roteiro não aponta como algo totalmente negativo, defendendo que lendas têm a sua função, o que se reflete na própria relação entre o Doutor e Omega.

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Tendo que trabalhar ao lado do vilão para ajudá-lo a voltar para o universo de anti-matéria, o Doutor e Omega travam um diálogo fantástico sobre como a lenda de Omega inspirou o protagonista a dar início á suas viagens e se tornar quem é, e a ironia do fato de o Doutor ter colaborado para destruir a mesma lenda que o inspirou quando deteve Omega em The Three Doctors, onde Omega deixou de ser visto como um herói e passou a ser visto como um monstro pela história de Gallifrey.
Através de uma série de flashbacks, ficamos conhecendo um pouco mais sobre o passado do vilão do título, desde seus tempos na Academia, onde foi ridicularizado por suas teorias sobre viagem no tempo, passando por sua relação com Rassilon, até a derradeira viagem que permitiu o surgimento dos Time Lords. Entretanto, as memórias de Omega não são confiáveis, o que mais uma vez toca no principal tema do roteiro de Nev Fountain, o passado tal como aconteceu é praticamente inapreensível. Seja uma lenda, um fato histórico, ou mesmo uma memória, algo sempre se perde, o que inclui mesmo a natureza do Doutor e Omega, sendo o primeiro não tão heroico quanto o mito criado em torno dele dá a entender, e o segundo não tão vilanesco quanto a sua fama de monstro vende.

Além de trabalhar bem a dinâmica entre o 5º Doutor e Omega, a trama ainda traz algumas ótimas reviravoltas (do tipo de deixar o publico embasbacado mesmo) que não só surpreendem o ouvinte, mas que conversam diretamente com os temas da história, e ainda soam coerentes com a última aparição de Omega em The Arc Of Infinity. O áudio, entretanto, carece de bons coadjuvantes e, se possui boas reviravoltas, também possui algumas que soam bastante desnecessárias, como aquela que fecha a história.

Omega felizmente tem sucesso naquilo que mais lhe interessa, que é desenvolver melhor o vilão do título, conferindo-lhe humanidade, além de se aprofundar em sua dinâmica com o Doutor. No trabalho de voz, o destaque acaba indo para Peter Davison, que tem a oportunidade de realizar coisas bem interessantes com o Quinto Doutor. Por fim, destaco novamente a boa condução do roteiro de Fountain á respeito da discussão que levanta á respeito de verdade, mito e história. Em resumo, um começo com o pé direito para a quadrilogia sobre vilões da Big Finish.

Omega (Reino Unido, Agosto de 2003)
Direção: Gary Russell
Roteiro: Nev Fountain
Elenco: Peter Davison, Ian Collier, Caroline Munro, Patrick Duggan, Hugo Myatt, Conrad Westmas, Jim Sangster, Faith Kent, Anita Elias, Gary Russell
Duração: 4 episódios de 35 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.