Crítica | Doctor Who: Os Caçadores de Bruxas, de Steve Lyons

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estrelas 4

Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Espaço: Salém, Massachusetts
Tempo: 1692, 1693

Os julgamentos por bruxaria ocorridos entre 1692 e 1693 em Salém, quando os Estados Unidos ainda eram uma colônia britânica, continuam sendo um dos mais notórios casos de histeria em massa da História ocidental. O pânico generalizado que levou mais de vinte pessoas a serem condenadas a morte por bruxaria gerou fascínio não só em historiadores, mas em muitos autores de ficção, e continua servindo de base para livros, filmes, musicas e séries até hoje.

Situado entre os arcos The Reign Of Terror e Planet Of The Giants, Os Caçadores de Bruxas começa com a chegada da TARDIS em 1692, na cidade de Salém, Massachusetts. O Doutor só quer sossego para realizar reparos em sua nave para enfim levar os humanos para casa. Susan, Ian e Barbara resolvem então passar alguns dias na cidade, “vivendo a História”, mas sabem que precisam partir antes da caça às bruxas. Porém, devido a um erro de interpretação do calendário, a História os alcança antes do esperado. Pra piorar a situação, Susan resolve tentar deter a caça às bruxas, mas essa decisão pode ter consequências catastróficas.

Steve Lyons já era um autor veterano de Doctor Who quando escreveu este romance. O escritor mostra aqui um excelente domínio dos elementos do cânone da série, utilizando inclusive elementos pouco explorados na TV para construir a sua narrativa, como o botão de retorno rápido visto em The Edge Of Destruction e as habilidades telepáticas de Susan surgidas em The Sensorites. A trama ainda possui um prólogo e um epílogo protagonizados por um Primeiro Doutor mais velho, saído diretamente dos eventos de The Five Doctors.

Percebe-se um trabalho de pesquisa acurado por parte do autor, tanto em seu retrato dos diversos personagens históricos que participam da trama, como na representação da comunidade de Salém e o absurdo dos julgamentos por bruxaria, oficiais e populares. Lyons ainda evita que o leitor se perca nas idas e voltas no tempo, ao nomear cada capítulo com a data onde a ação ocorre.

O escritor mantém a narrativa em constante movimento através de uma prosa fluída e de uma trama cheia de reviravoltas. Embora não seja gráfica nem nada do tipo, a história possui uma constante tensão psicológica, dando de fato poucos momentos para respirar. Lyons ainda evoca imagens extremamente poderosas, como o desesperador momento em que descreve a TARDIS em chamas. Se a prosa de Lyons possui uma falha aqui, talvez seja somente na economia excessiva com que descreve os ambientes, deixando que o leitor visualize sozinho a Salém do Século 16. Mas decididamente não é nada que atrapalhe.

O autor retrata o fanatismo e a histeria da caça as bruxas quase como uma doença que se espalhou entre os cidadãos. Em um movimento inteligente pra analisar a psicologia por trás da loucura de Salém, ele sugere que todo esse ódio e insanidade se originam de velhas rixas ou sentimentos de inveja entre os aldeões, mas tais sentimentos parecem se manifestar de forma inconsciente na caça às bruxas.

Lyons não esconde a influência da peça As Bruxas de Salém de Arthur Miller, adaptada duas vezes para o cinema. Personagem importante da peça como Abigail Williams e Rebecca Nurse tem papel vital no romance, e a própria peça inclusive desempenha um papel fundamental na trama em certo ponto.

É curioso como no Universo Expandido, Susan costuma ser retratada como uma garota muito solitária, algo apenas sugerido na TV. É em cima dessa solidão que seu drama se desenrola. Ao perceber o destino que aguarda as amigas que fez, Susan rebela-se contra o avô e resolve mudar a História. Inicialmente estranhei uma viajante do tempo experiente como Susan tentar algo assim, mas o livro justifica bem suas ações. Susan tem uma jornada parecida com a de Barbara em The Aztecs, mas bem mais sofrida, pois a moça não só falha em seu intento, como também é cruelmente absorvida pelos eventos que se sucedem.

Ian é o companion com menos destaque, mas ainda tem grandes momentos. O professor acredita poder lidar com a situação com pura lógica, mas acaba tendo o seu orgulho destroçado quando cai nas mãos dos inquisidores, passando por momentos de verdadeiro desespero.

Barbara, por sua vez, continua marcada por sua tentativa fracassada de salvar os Astecas, e não quer que Susan passe pela mesma decepção. A relação da professora com o Doutor também é testada, quando sua fé no Time Lord é abalada por certas atitudes que ele toma perto do desfecho da obra.

Embora sem martírios físicos e psicológicos, é o Doutor que tem a jornada dramática mais pungente. O Primeiro Doutor permanece firme à convicção de “não reescrever a História”, mas aqui, tal convicção se torna dolorosa após ele conhecer Rebecca Nurse e fazer a ela uma promessa que sabe que não deve cumprir. A relação do Time Lord com Nurse é um dos aspectos mais comoventes do livro. Ele sabe que o destino dela é morrer na forca, mas o fato de uma pessoa boa como a velha senhora ter tal sina o revolta. Rebecca, por sua vez, é sensível o bastante para reconhecer que o Doutor não é um homem comum. A história dá a entender que Rebecca, uma mulher cristã, acredita que o Doutor possa ser um anjo. Claro, o Doutor não é um anjo e muitas vezes tem que tomar decisões cruéis. Mas ele ainda se importa. Lyons trabalha esse conflito do Doutor através de insights muito bem colocados do personagem, mas sem mostrar demais, mantendo a áurea de mistério do avô de Susan.

Seria fácil pintar os antagonistas centrais como fanáticos unidimensionais, mas Lyons opta por caminhos mais complexos. O Reverendo Parris, líder religioso local, se vê como o herói de seu tempo. Ele pensa estar fazendo um bem para a comunidade, e mesmo quando sequestra e praticamente escraviza Susan, crê que está ajudando a garota a se livrar da “influência demoníaca” de seus companheiros. Mas é Abigail Williams, a menina que lidera um grupo de garotas que aponta as supostas bruxas, que realmente desperta o ódio do leitor. Astuta e manipuladora, Abigail guia com mão de ferro os rumos dos julgamentos. Ela está bêbada de poder, mas esse sentimento confunde-se com suas crenças, até o ponto onde ela de fato acreditar estar fazendo a obra de Deus. Ao mesmo tempo, não há como não ter pena da garota em certos pontos e suas interações com Parris nos lembra que ela só tem onze anos.

Mas são Rebecca Nurse e Mary Warren as grandes figuras dramáticas aqui. Nurse é retratada como uma verdadeira mártir. Ela é tão devota quanto aqueles que a acusam de ser uma bruxa, mas suas crenças a levam a buscar o melhor nas pessoas, e não o pior, vide a sua relação com o Doutor. E Warren, uma jovem criada humilde, gentil e altamente influenciável, acaba se tornando uma acusadora, cuja amizade com Susan tornar-se-á sua única chance de redenção.

Os Caçadores de Bruxas é uma excelente aventura de Doctor Who, onde Steve Lyons tem a chance de desenvolver muitos de seus assuntos favoritos como a tentação do viajante do tempo em alterar a História e as questões de fé e crença. Além disso, é uma forma interessante de aprender um pouco mais sobre a tragédia de Salém. Repleto de suspense e conspirações, Os Caçadores de Bruxas é mais um acerto de Steve Lyons para o selo BBC Past Doctor Adventures.

Doctor Who: Os Caçadores de Bruxas (The Witch Hunters). Reino Unido- 2 de Março de 1998
BBC Past Doctor Adventures #09
Autor: Steve Lyons
Editora Original: BBC Books
Páginas: 282

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.