Crítica | Doctor Who: Quadrinhos da “TV Comic” – 1º Doutor (1966 – 1967)

Esta é a última parte das críticas sobre os quadrinhos da TV Comic a trazer aventuras com o 1º Doutor. O período de publicação dessas comic strips foi de setembro a dezembro de 1966, mas conta também com alguns lançamentos especiais de férias em 1967.

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Entre 6 e 29 de outubro de 1966, o arco The Tenth Planet foi exibido pela BBC. Como a regeneração do 1º Doutor que acontece nessa história, ficava claro que a TV Comic também iria mudar o seu protagonista, mas os editores resolveram esperar um pouco, observar melhor como seria o comportamento do 2º Doutor e só então dar início à sua série de quadrinhos. A primeira história com o 2º Doutor na TV Comic foi The Extortioner, publicada entre 24 de dezembro de 1966 e 14 de janeiro de 1967.

O leitor também pode conferir as publicações de quadrinhos do 1º Doutor na TV Comic anteriores a essa fase:

1 – Quadrinhos da “TV Comic” – 1º Doutor (1964 – 1965)

2 – Quadrinhos da “TV Comic” – 1º Doutor (1965)

3 – Quadrinhos da “TV Comic” – 1º Doutor (1966)

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The Gaze of the Gorgon

estrelas 1

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta Zeno, tempo indeterminado

Por algum motivo misterioso, a Medusa – uma das três Górgonas da mitologia grega – foi parar no Planeta Zeno. Isso deveria ser algo interessante de se ver trabalhado em alguma boa publicação: uma espécie de crossover entre mundos, algo que traria mais sentido para uma personagem mitológica da Terra ir para um outro planeta e transformar todos os seus habitantes em pedra, como acontece nessa história.

Como não há indicação de tempo ou localização precisa do Planeta Zeno, fica difícil ampliar a visão para o Universo expandido de DW. O que se nota é que Zeno tinha nativos humanoides e que pareciam viver em uma sociedade semelhante a dos gregos. Os quadros não mostram muitos detalhes do local onde a TARDIS pousa, mas os pequenos espaços geográficos que podemos ver nos dá a impressão de uma arquitetura clássica, grande templos, colunas dóricas e… estátuas, além de um bom espaço arborizado.

A história aqui sofre dos costumeiros problemas dos quadrinhos da TV Comics até o momento: término abrupto, elipses quase inacreditáveis e diálogo risível. De qualquer forma, essa história é um pouco melhor que Guests of King Neptune, outra comic holiday abordando uma figura mitológica encontrada pelo Doutor e seus netos.

The Gaze of the Gorgon (Reino Unido) – 1966
TV Comic Holiday

2 páginas

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The Underwater Robot

estrelas 0,5

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta não nomeado, tempo indeterminado

Há algum sentido em tudo o que é dito nessa história, mas no final das contas, Roger Noel Cook põe tudo a perder. A história começa com a TARDIS se materializando em um oceano. O Doutor percebe isso mas mesmo assim resolve explorar o local, apesar de tudo ali pedir para que ele não fizesse isso.

Embora não seja um Oceano terrestre, há indicações literais de que existe oxigênio na água e cavernas submarinas, além de uns corais próximos de onde a TARDIS pousa, a única indicação de vida até o momento. O conflito, no entanto, aparece bem rápido, com um robô enorme capturando o Doutor, John e Gillian.

O que se segue é a batida luta do Time Lord para se libertar. A ação não transcorre de maneira desmedia – no quesito “ritmo” -,  mas alguns eventos são absurdos demais para serem engolidos. O pior mesmo é o fim da história, no breve e patético contato do Doutor com os nativos do planeta, com direito a uma proximidade impossível e um dos “adeus” mais falsos que eu já vi numa publicação em quadrinhos de Doctor Who.

The Underwater Robot (Reino Unido) – Set, 1966
Minissérie em 4 partes
Roteiro: 
Roger Noel Cook
Arte: John Canning
8 páginas

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Deadly Vessel / Deadly Cargo

estrelas 2,5

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta Int, tempo indeterminado

Não fosse a estranha colocação de um “escudo protetor” para o navio com a carga mortal – e aí, todas as consequências de sentido geral e ritmo que essa aparentemente simples colocação faz – essa história poderia ser a melhor de todas as histórias de Doctor Who na TV Comic até o momento, ainda melhor que a do Flautista de Hamelin, até este ponto, no topo da lista.

Roger Noel Cook aposta em um tipo de aventura que até o momento não fora muito explorada nas comic strips: o tom de crônica rápida e com acontecimentos o mais limitado possível, para que a grande abertura de janelas narrativas e dramas individuais ou paralelos não interfiram no desfecho. E o que temos nessa Deadly Vessel é uma simples e muito interessante passagem do Doutor e seus netos pelo Planeta Int, onde duas grandes nações (uma delas chamada Ulk) estão em guerra.

A aventura começa a partir da perspectiva dos nativos belicistas, onde temos a indicação de uma nova arma destruidora, e então passamos para o Doutor e seus netos, que entram na história de forma orgânica e sem interferências absurdas. Ao perceber o perigo, o Time Lord age como deveria ter agido em quase todos os contos até aqui: corre para a nave e tenta partir do local. Como nada o impedia disso, era a coisa mais correta a ser feita, o que infelizmente não foi o que lemos na maioria das aventuras anteriores.

Parece estranho que o Doutor parta de um local em plena guerra e não tente inferir, mas para mim, essa partida foi o que tornou a história ao menos regular. O potencial, como dito no início do texto, é gigante, mas infelizmente diminuído por um detalhe que interfere na visão geral do leitor sobre o evento.

E para completar, a arte de John Canning está linda, com ótimos traços para o Doutor (que, apesar disso, num dos quadros, parece o velho da Aveia Quaker) e seus netos, bem como para os aliens de Int e a tecnologia do planeta.

Deadly Vessel / Deadly Cargo (Reino Unido) – 1967
TV Comic Annual 1967
Roteiro: Roger Noel Cook
Arte: John Canning
4 páginas

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Kingdom of the Animals / The Pets

estrelas 1,5

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta não nomeado, tempo indeterminado

Se na aventura anterior o problema era a ‘simples’ questão de um escudo protetor, o mesmo não acontece com essa Comic Annual de 1967, cujo roteirista (não nomeado, assim como o desenhista) achou por bem colocar um problema estúpido na TARDIS – a porta quebrada – para prender o Doutor, John e Gillian nesse planeta habitado por bichos feios e pássaros gigantes que aprisionam primatas para sua própria diversão ou observação – pelo menos não há nenhum indício de que se tratavam de pássaros carnívoros devoradores de primatas.

Seguindo um pouco a linha de Deadly Vessel, Kingdom of the Animals se apresenta como uma crônica rápida e sem nenhum salto despropositado dentro da própria trama. O ritmo é bem cadenciado e, tirando o impasse da porta da TARDIS – que infelizmente volta a ser citado no final -, a história é bem escrita e instigante, chamando bastante a atenção do leitor.

Pelo menos aqui e no conto anterior temos um trabalho verdadeiramente em equipe entre o Doutor e seus netos, fugindo daquela importância insuportável dada a John como um gênio da ação e que muitas vezes suplantava o avô Time Lord em inteligência. As coisas começam a fazer sentido nas histórias da TV Comic, e isso é bom!

Kingdom of the Animals / The Pets (Reino Unido) – 1967
TV Comic Annual 1967
4 páginas

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Return of the Trods

estrelas 1

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta Trodos, depois de 2066

O Doutor já havia enfrentado os Trods antes, em The Trodos Tyrany, e julgava ter conseguido derrotá-los, algo que se revela um grande engano, nessa aventura. Já no primeiro quadro temos a TARDIS sendo direcionada para uma espécie de “vórtice” que a levaria de volta para algum lugar. O Doutor até supõe que eles estivessem sendo sequestrados por algum inimigo antigo que tenha sobrevivido (carnificina à vista!), mas… quem?

Fica evidente que a TV Comic tentou criar a sua própria versão dos Daleks, tendo a pachorra de permitir uma linha de Roger Noel Cook que dizia serem os Trods os arqui-inimigos do Doutor!

A história tem muitos pontos ruins, mas nem tudo merece ser desprezado. Existe um teor de ação que dá um bom destaque para o Doutor e uma participação menor dos netos, o que vai de encontro ao que eu já havia comentado na história anterior. Faz total sentido essa relação de liderança. John e Gillian realmente estão agindo como companions, não como super-heróis mirins.

Mas o que realmente vale nessa história é o impiedoso final (o Doutor usa de uma técnica nazista para enganar os Trods e fazê-los entrar em um lugar e em seguida explodi-lo) e a arte de John Canning, que tem alguns quadros realmente notáveis. Um pena que o plano de vingança dos robôs seja estúpido e que a aventura volte a parecer um pouco com as estranhas lutas do Doutor versus aliens burros, como vimos nas primeiras edições.

Return of the Trods (Reino Unido) – Out, 1966
História republicada na Doctor Who Classic Comics #8 (Junho de 1993)
Minissérie em 4 partes
Roteiro: 
Roger Noel Cook
Arte: John Canning
8 páginas

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The Galaxy Games

estrelas 1,5

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta não nomeado (sede dos Jogos Galácticos), tempo indeterminado

O planeta dessa história parece ser uma sede fixa dos Jogos Galácticos. Pela fala do receptor de convidados que o Doutor, John e Gillian encontram logo ao saírem da TARDIS, o planeta foi construído e equipado para abrigar o grande evento, que parece acontecer ali já a bastante tempo.

O grosso dessa história é a participação de John em uma das provas dos Jogos, a Maratona. Percebendo que os verdadeiros campeões da corrida, os Klondites, eram bem mais lentos que qualquer jovem da Terra (Impressive… Most impressive…), o Doutor inscreve John na prova e, ao final, consegue colocar a Terra como campeã daquela edição dos jogos.

O roteiro caminha razoavelmente bem e a própria história tem muitos pontos positivos, se considerarmos apenas o lado de John, do Doutor e Gillian. Porque a participação dos Klondites é totalmente estranha, eles tentam se vingar de John de uma forma que não condiz nem com o tipo de vilão que deveriam representar.

Com alusões a corrupção nos esportes e uma narrativa de ar bastante jovial, The Galaxy Games é uma história com bom potencial chamativo e realmente nos prende, mas consegue nos fazer ficar com raiva pelo tipo de caracterização do vilão que põe em cena.

The Galaxy Games (Reino Unido) – Out / Nov, 1966
Minissérie em 4 partes
Roteiro: 
Roger Noel Cook
Arte: John Canning
8 páginas

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The Experimenters

estrelas 0

Equipe: 1º Doutor, John e Gillian
Espaço-tempo: Planeta não nomeado, tempo indeterminado

Chegamos à ÚLTIMA aventura do 1º Doutor nos quadrinhos da TV Comic, uma era que infelizmente não terminou nada bem.

A TARDIS se materializa em um uma cratera de um planeta desconhecido. O Doutor e seus netos saem para explorar o local e são imediatamente presos por um grupo de alienígenas (os ‘Experimenters’ do título) que testavam nativos do planeta e qualquer outro viajante espacial que capturassem como comprovação de resistência de carros, cadeiras e foguetes espaciais (!!!).

Partindo dessa premissa no mínimo estranha, entramos em um andamento da história que não melhora em nenhum ponto. Os testes continuam e a tentativa do Doutor em se livrar da situação não serve de muita coisa. A tarefa final, que deveria ser o teste de um foguete, é executada, o que acaba se revelando o fim do plano maligno dos ‘Experimenters’.

Sem nenhum carisma na história, nexo dos acontecimentos e consideração para com a série na qual se baseia, Roger Noel Cook realiza a pior despedida possível para o 1º Doutor. Que decepção!

The Experimenters (Reino Unido) – Nov / Dez, 1966
Minissérie em 4 partes
Roteiro: 
Roger Noel Cook
Arte: John Canning
8 páginas

 

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.