Crítica | Doctor Who: Radio Times Comics – 8º Doutor

A Radio Times é uma revista do grupo BBC, fundada em 1923. De  seu surgimento até 2011, a revista foi publicada pela BBC Magazines, que neste mesmo ano, fundiu-se com os grupos Origin Publishing e Magicalia, formando a Immediate Media Company, que segue publicando a Radio Times em sua grade semanal.

A especialidade da RT, como é conhecida, é explorar e divulgar a programação da BBC feita para rádio e TV e também os eventos e notícias de cultura pop com alto hype. Foi nesta revista, entre junho de 1996 e março de 1997, que as primeiras histórias em quadrinhos do 8º Doutor foram publicadas.

Após o lançamento de Doctor Who – O Filme no Reino Unido (27/05/1996, duas semanas depois de ter estreado nos EUA e Canadá), o público procurava incessantemente por materiais referentes à série, então a BBC achou que seria interessante apresentar pequenas histórias em quadrinhos com o 8º Doutor e saciar a sede dos fãs de verem mais desse Time Lord em ação. Ou seja, a minissérie de abertura dessa fase, Dreadnought, foi a PRIMEIRA história em quadrinhos do 8º Doutor! E também a primeira encarnação do Time Lord, desde o 4º Doutor, a estrear seus quadrinhos fora da Doctor Who Magazine.

As aventuras da RT foram “minisséries de uma página”, publicadas durante 10 semanas consecutivas, à exceção de Coda, que foi encerrada em 2 semanas.

Abaixo, temos TODAS as histórias em quadrinhos do 8º Doutor publicadas na Radio Times (são apenas 5!).

.

Dreadnought

estrelas 4,5

Equipe: 8º Doutor, Stacy Townsend
Espaço-tempo: Cargueiro espacial terráqueo Dreadnought, c. 2296

Os encontros do 8º Doutor com suas companions são sempre muito interessantes. E explosivos. Nesta que é uma de suas primeiras aventuras após os acontecimentos em São Francisco, o Doutor está a bordo de um cargueiro espacial terráqueo chamado Dreadnought (bom nome para uma nave, não?), no meio de um ataque dos Cybermen.

O cargueiro havia sido invadido de surpresa e praticamente toda a sua tripulação foi morta ou convertida em ciborgues. Quando a aventura dessa pequena minissérie começa, vemos Stacy e Bill fugindo pelos corredores da nave. Bill não tem sorte e é capturado pelos Cybermen. Então o Doutor aparece e salva Stacy, utilizando uma frase de sua segunda encarnação (when i say run, run… RUN!).

O roteiro de Gary Russell brinca com o fato de que o Doutor se regenerara a pouco tempo, e faz diversas piadinhas nesse sentido, mas não deixando os flashes de suas versões passadas de lado, falando não só uma frase do 2º Doutor, como já foi dito, mas também revertendo a polaridade do fluxo de neutros, uma “função científica” característica do 3º Doutor.

A história é realmente muito boa. Considerando o pequeno espaço de desenvolvimento disponível, Russell faz um trabalho incrível com a perspetiva de “ações rápidas”, finalizando a história de maneira bem centrada e sem um absurdo Deus ex machina, como é comum vermos em HQs curtinhas. A arte de Lee Sullivan também se destaca com uma ótima versão dos Cybermen, inclusive na caracterização do CyberLeader, que aparece para o Doutor enquanto ele está sob o controle mental dos seus inimigos… Um excelente começo de série!

Dreadnought (Reino Unido, jun/ago, 1996)
Minissérie em 10 partes
Roteiro: Gary Russell
Arte: Lee Sullivan
Cores: Alan Craddock
BBC Magazines: Radio Times

.

Descendance

estrelas 3,5

Equipe: 8º Doutor, Stacy Townsend
Espaço-tempo: Marte, futuro.

Mesmo que a história anterior tenha terminado com o Doutor falando sobre ir pra casa, parece que os planos não deram muito certo. Ele e Stacy aportam em Marte nessa aventura, no meio de um Rito de Ascendência ou “Rito de Tuburr”, como os Ice Warriors chamavam (Tuburr é um deus adorado pelos Ice Warriors e o “ritual de ascendência”, a passagem de um jovem Ice Warrior para o posto de Ice Lord).

Embora a trama aqui comece muito interessante, a reta final (especialmente as partes 8 e 9) acaba por diminuir a qualidade geral da história. A relação estreitada na abertura, com o Doutor e os Ice Warriors; a questão de luta entre castas e classes sociais no planeta; a crítica do Doutor ao modo aristocrático do governo dos guerreiros de Marte… tudo isso é bem escrito e desenhado, mas a partir do momento que a nave que leva o Doutor, Stacy e um condutor Ice Warrior ao palácio do cunhado do Ice Lord no poder, o ritmo desanda.

Talvez a tentativa de juntar duas histórias tenha feito com que Gary Russell freasse um pouco a cadência de eventos e criasse um cliffhanger no mínimo aceitável para a série seguinte, o que de fato aconteceu, mas que não foi tão eficiente e tão bom quanto o de Dreadnought.

Lee Sullivan cria um ambiente geográfico muito bonito para Marte, inclusive o interior do castelo do Ice Lord e toda a arquitetura dessa civilização. Pelo menos nesse quesito a minissérie mantém o patamar da anterior.

Descendance  (Reino Unido, ago/out, 1996)
Minissérie em 10 partes
Roteiro: Gary Russell
Arte: Lee Sullivan
Cores: Alan Craddock
BBC Magazines: Radio Times

.

Ascendance

estrelas 4,5

Equipe: 8º Doutor, Stacy Townsend
Espaço-tempo: Marte, futuro.

A finalização dessa história do 8º Doutor em Marte, ao lado de Stacy Townsend, é de tirar o fôlego. Mais uma vez ressalto a questão de que o espaço de trabalho para Gary Russell era bem pequeno, de modo que criar uma aventura em poucos quadros ao longo de 10 semanas e com um ritmo bem cadenciado de coisas relevantes, não deve ter sido algo fácil. Porém, o autor conseguiu uma boa finalização da trama, não deixando nenhum ponto importante de fora e dando importância equilibrada a todas as personagens envolvidas.

A questão familiar levantada na primeira parte da série (Descendance) volta com força total e nos mostra um lado bastante interessante dos Ice Warriors, uma espécie com estreitos laços familiares e que é capaz de levar às últimas consequência a punição àqueles que um dia traírem os seus.

Mas o roteiro também manipula essa pendência cultural a seu favor crítico, porque a vilã da história estava agindo em prol da permanência de sua família também, logo, não é algo assim tão simples a acusação ou o julgamento dela, muito embora essa parada para a racionalização não tenha sido feita pelos Ice Warriors.

Ao fim da história, Stacy diz ao Doutor que “é hora de ir pra casa” (Gary Russell praticamente fecha um ponto aberto que ficara no início de Descendance) e o clima de confraternização entre o Time Lord e os guerreiros de Marte é o mais propício possível a uma despedida emocionante, com direito à citação do Ice Warrior de que aquela ocasião, para os marcianos, equivalia ao Natal dos humanos. A harmonia é tanta, que o Doutor convida o Ice Warrior Ssard para acompanhá-lo em suas viagens, “tirar umas férias, “ver o Universo”, algo que Ssard aceita de pronto.

É com essa pacificadora e fraterna mensagem que a aventura termina. Um fim calmo e bonito para uma história de pesados conflitos familiares. Boas perspectivas se apontam para o futuro!

Ascendance  (Reino Unido, out/dez, 1996)
Minissérie em 10 partes
Roteiro: Gary Russell
Arte: Lee Sullivan
Cores: Alan Craddock
BBC Magazines: Radio Times

.

Perceptions

estrelas 4

Equipe: 8º Doutor, Stacy Townsend, Ssard (um Ice Warrior)
Espaço-tempo: Londres, c. 1855

Duas histórias se desenvolvem em Perceptions. A primeira, de um casal de Equinoides – uma espécie alienígena de cavalos humanoides roxos com pintas e pelagem amarela – chamados M’rek’d e P’fer’d; e a segunda, a da outra (e misteriosa) espécie que também se fazia presente em Londres no mesmo período. E que sequestraram M’rek’d.

O desenvolvimento aqui é rápido e bastante denso. Há reflexos de Oliver Twist na Londres vitoriana, com direito a garotos trabalhando para um disfarçado e desesperado P’fer’d, que faz de tudo para encontrar sua esposa. Também a morte de um dos garotos, a partida dos equinoides e um golpe muitíssimo bem feito aplicado pela misteriosa espécie (que em Coda se revelaria uma espécie de Metamorfo, mas sem nenhum nome específico) ganham espaço na trama.

Há uma pequena desaceleração no final do enredo, talvez pelo já sabido cancelamento dos quadrinhos na Radio Times à essa época. Isso fica bastante claro em Coda também.

Mesmo assim, as marcas de uma boa aventura, a ótima relação com o título da minissérie e o apelo para questões primordiais e códigos de conduta ético-morais também aparecem aqui. Também fica evidente a raiva de Stacy para com o Doutor, que prometeu a ela uma visão do Universo e a traz para a Londres da Rainha Victoria, para ver uma nave equinoide disfarçada da percepção dos londrinos.

Também no início da história se destaca o Ice Warrior Ssard, que agora é companion do Doutor. Mesmo que ele perca um pouco a importância no decorrer da trama, sua presença traz um ar renovador aos acontecimentos, por sua visão mais mal-humorada da vida, algo que também podemos ver na relação do 11º Doutor com o Sontaran Strax.

Perceptions (Reino Unido, jan/mar, 1997)
Minissérie em 10 partes
Roteiro: Gary Russell
Arte: Lee Sullivan
Cores: Alan Craddock
BBC Magazines: Radio Times

.

Coda

estrelas 3

Equipe: 8º Doutor, Stacy Townsend, Ssard (um Ice Warrior)
Espaço-tempo: Londres, c. 1855

O cancelamento dos quadrinhos de Doctor Who na Radio Times é de se lamentar profundamente. Gary Russell vinha fazendo um excelente trabalho com os roteiros até então; Lee Sullivan estava mandando muitíssimo bem na arte e Alan Craddock nas cores. Infelizmente, o anúncio do cancelamento em menos de um ano de edições fez com que a história de Coda fosse encurtada e terminada às pressas.

A ideia original de Russell era que a espécie de aliens Metamorfos que apareceram em Perceptions e terminam sua tentativa de domínio da Terra aqui, fossem os Zygons. Mas como ele teve que interromper o desenvolvimento, acabou não fazendo sentido colocar um vilão clássico de peso como protagonista, de modo que a espécie dessa história acaba não tendo nome algum, sendo apenas indicada pela sua característica de roubar a forma de outras espécies.

Não há muito a dizer sobra a história sem dar ainda mais spoilers e detalhes que serão melhor lidos nos quadrinhos do que na crítica. Basta apenas dizer que o término da aventura deixa um pouco dúbio o destino do grupo de viajantes do tempo. O Doutor estaria se referindo a levá-los para casa ou a embarcarem em outras aventuras?

Esses primeiros quadrinhos do 8º Doutor foram muito importantes para a fixação psicológica dessa encarnação do Time Lord, até então visto apenas no filme de 1996 e em algumas publicações literárias que já começavam a aparecer. Finalizava-se aqui mais um passo para esse Doutor terno e um poco cínico, cuja melhor coisa, como ele mesmo diz no final da série, era manter as pessoas seguras e salvas.

Coda (Reino Unido, mar, 1997)
Minissérie em 2 partes
Roteiro: Gary Russell
Arte: Lee Sullivan
Cores: Alan Craddock
BBC Magazines: Radio Times

 

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.