Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Carnival of Monsters (Arco #66)

estrelas 3

Equipe: 3º Doutor, Jo
Espaço: Inter Minor
Tempo: Anos 1970

O primeiro arco com o terceiro Doutor após o término de seu exílio na Terra é um tanto curioso. Primeiro por trazer alguns elementos já trabalhados anteriormente, como a presença de pequenos ambientes controlados – vistos de forma similar no sensacional The War Games -, a miniaturização da Tardis e de seus tripulantes – algo abordado em Planet of Giants, The Time Meddler e, recentemente em FlatlineSegundo por introduzir uma narrativa dupla, focada no pocket universe (com o Doutor) e no “mundo de fora”, o que primeiro causa uma nítida estranheza no espectador, mas que aos poucos se torna um interessante diálogo acerca da vida e o suposto controle que temos sobre ela.

Antes de adentrarmos em tais aspectos, porém, vamos para a trama. O Doutor (Jon Pertwee) e Jo Grant (Katy Manning) se materializam em uma espécie de cruzeiro que navega sobre o Oceano Índico. Duvidando que eles estão de fato na Terra, o Senhor do Tempo rapidamente encontra algumas pistas que indicam que algo de errado há naquele lugar, pouco sabe, contudo, que está em um universo em miniatura, dentro de uma máquina de um showman que utiliza diversas raças miniaturizadas para compor uma forma de reality show que carrega consigo ao redor da galáxia. No planeta Inter Minor, contudo, a raça dominante observa tal dispositivo com olhos suspeitos, colocando em risco a vida de todos os seres alienados presos dentro dela.

Desde os primeiros minutos a história se divide entre esses dois focos e já podemos notar um claro deslize que permanece durante os quatro episódios do arco: a ênfase na política dos habitantes de Inter Minor, elemento que parece perdido dentro do cenário geral, forçado e que tira nossa atenção dos aspectos mais interessantes da obra. Nesse caso refiro-me, naturalmente, não só às tentativas do timelord de escapar de seu confinamento, como do valor dado a vida daqueles ali presentes pelas raças no exterior. De um lado temos o showman, Vorg (Leslie Dwyer), que apesar de funcionar como Big Brother, não só observando, como controlando suas criaturas, dá o devido valor a suas vidas. Do outro, os líderes do planeta alienígena em que estão, que destruiriam sem hesitação a máquina com todos dentro. O debate, ainda que não ocupe o palco central, cria um nítido paralelo com a forma como o homem lida com os seres que considera “inferiores” a ele, não só em tamanho, como em inteligência.

Infelizmente o foco se distancia desse questionamento e gasta muito tempo em algumas perseguições e na já mencionada politicagem que jamais é devidamente trabalhada, o que acaba quebrando a imersão do espectador em alguns pontos. Um aspecto positivo advindo de tal escolha do roteiro, porém, é o papel de Jo na história, que, enfim, desempenha ações dignas de nota e não é simplesmente uma seguidora do Doutor. Por estarem praticamente sozinhos, ela e o senhor do tempo tem uma relação muito melhor trabalhada que em diversos outros arcos, onde comumente “se dividem para conquistar”.

No fim, Carnival of Monsters não consegue cansar o espectador e, mesmo com alguns problemas, traz um notável divertimento, trazendo consigo muitos méritos muitas vezes raros na era do 3º Doutor. Novamente digo, trata-se de um arco curioso, diferente e um tanto exótico, com ideias muito boas, algumas delas mal encaixadas e mal trabalhadas. Ao todo, um bom começo para essa nova fase de Jon Pertwee.

Carnival of Monsters (Arco #66) — 10ª Temporada
Direção: Barry Letts
Roteiro: Robert Holmes
Elenco: Jon Pertwee, Katy Manning, Leslie Dwyer, Cheryl Hall, Tenniel Evans, Ian Marter

Audiência média: 9,17 milhões

4 episódios (exibidos entre 27 de Janeiro de 1973 e 17 de Fevereiro de 1973)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.